[#Jab] Alters #1, de Jenkins e Leiz

Paul Jenkins é um autor com um currículo extremamente respeitável nos quadrinhos. Tendo trabalhado em obras sérias e relevantes como Guerra Civil: Linha de Frente, Mitos Marvel e Inumanos, o roteirista atingiu um ponto em sua carreira no qual tem todas as ferramentas narrativas a sua disposição para criar material autoral de qualidade e que gere impacto no mercado de quadrinhos. E Alters lançado este mês pela Aftershock Comics é definitivamente um material assim.

Alters 1

Alters é um quadrinho de super-heróis com escopo grandioso, em um universo no qual seres com habilidades extraordinárias batalham entre si enquanto a humanidade é vítima dos efeitos desta violenta guerra. Duas facções lutam pela supremacia do uso de poderes neste mundo enquanto vários “Alters” (ou “Alterações”), como são chamados os super-humanos neste contexto, vão surgindo e se filiando a um dos lados. Em meio a isso tudo, Jenkins nos conta a história de Charlie Young – um jovem universitário filho do meio em uma típica família estadunidense, que descobre que é uma Alteração com poderes incalculáveis, tendo como pano de fundo um tratamento hormonal para uma futura troca de sexo. Charlie é um garoto em sua vida mundana, enquanto sua identidade super-heroica é a da heroína Chalice, figura central deste primeiro arco.

Jenkins tem uma missão ingrata e um desafio hercúleo na edição de estreia de Alters. Além de introduzir todo um universo cheio de nuances complexas (e já muito exploradas nos quadrinhos), ainda tem uma protagonista com uma carga dramática imensa em um dilema que exige extrema sensibilidade de seu roteirista.  Felizmente, tudo funciona de forma completamente orgânica. Em pouco mais de vinte páginas, o leitor é introduzido de forma extremamente satisfatória a um contexto que transita entre o familiar e o inovador em termos de histórias adultas de heróis.

O principal: mesmo para as pessoas com muito pouco ou nenhum contato com os dilemas de indivíduos trans, o material apresenta o tema de forma elegante, direta, séria e honesta. Jenkins não faz rodeios com sua protagonista: Charlie é uma moça em um corpo de menino. É assim que ela se sente. Ficam claros os conflitos internos da personagem, gerados por uma criação em uma família amorosa e aparentemente de boa índole. Entretanto, de forma alguma a condição de Charlie se torna a história em si. Alters tem muito mais a oferecer e o fato de ter uma protagonista trans é um aspecto importante, mas parte de um conjunto que forma a rica tapeçaria desta estreia.

Alters 2

A arte de Leila Leiz é incrivelmente eficiente e didática nesta estreia – algo muito importante em um roteiro cheio de elementos distintos a serem introduzidos. Em um elenco com muita gente nova para apresentar e uma personagem principal que literalmente se transforma de uma hora para outra, a ilustradora mostra versatilidade na fotografia, objetividade no fluxo de quadros e uma apresentação carismática de todos os personagens introduzidos. Vale destacar as diferenças de atributos físicos entre cada indivíduo nesta revista, algo não muito praticado por ilustradores em revistas de super-heróis.

Alters 3

Alters é um daqueles raros casos de estreias na qual os autores atingem um equilíbrio quase que perfeito entre entreter, comover e instigar seu público-alvo. Quadrinhos de super heróis com temática adulta proliferam aos borbotões atualmente, mas, sob o comando de Paul Jenkins, este é um produto que se destaca. A coragem em centralizar a trama em uma protagonista com características que ainda são vistas como tabu, a simplicidade e eficiência com a qual o contexto é apresentado, o ritmo narrativo confortável, a apresentação incrivelmente consistente e o bom gosto do pacote como um todo fazem deste o título que possivelmente levará esta jovem Aftershock Comics a novos patamares na indústria de quadrinhos.