[Emulador de Críticas] Garotos, Garotas e Quadrinhos

E aí pessoal! Quando novo, eu tinha dificuldades em entender algumas divisões do mundo. Uma criança talvez demore um pouco a entender sua sexualidade e organizar na sua cabeça o que gosta ou não de fazer. Porém, vivo no Rio Grande do Sul. Entendo muito de piadas sexistas e também sobre a ideia de que, ser um filho é machão, viril e poderoso, deve fazer coisas que homens fazem.

O mundo vive de rótulos. Somos levados a pensar que todos são especiais por conta de estereótipos que carregamos. Em alguns casos, somos levados a nos vangloriar, por conta do nosso biotipo. Outros abominam seu corpo, cabelos e sexo por não se sentirem seguros e bem representados. Talvez a falta de empatia seja um dos maiores problemas do século 21.

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Conviver com rótulos onde eu vivo é algo bastante difícil. Mesmo porque minhas irmãs também passam pela estereotipagem de que, por serem meninas, devem fazer apenas coisas de garotas. Quando vamos crescendo, observamos que o mundo cria uma grande barreira limitadora, chamada produtos de gênero. Você deve ter pré-requisitos para poder usá-los. Os comics foram um dos maiores produtos desse estilo já criados.

Esta é uma coluna sobre quadrinhos, apenas lembrando, e pronta a dar opiniões.

Vamos falar sobre nossos amados gibis. Quando, em 1938, tivemos o nascimento do Superman, ele era dedicado a apenas uma parcela do público jovem, normalmente homens caucasianos com idade entre 8 e 18 anos, que estavam passando por mudanças no corpo e na mentalidade. As histórias mostravam que o mundo poderia ser um lugar melhor, mesmo que, de fato, o cenário não fosse o melhor. O tempo passou e essa mídia se modernizou, criou outros ícones, aprendeu que pessoas comuns também poderiam viver aventuras, ainda que dentro de uma armadura de aço ou após serem picadas por uma aranha radioativa. Porém, o público que continuava a consumir revistas era, basicamente, o mesmo do inicio.

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A globalização chegaria em algum ponto da história, no entanto, e tudo isso iria mudar.

O fato das HQs estadunidenses começarem a viajar o planeta acabou mostrando que existiam outros públicos querendo consumir esses produtos de entretenimento. Isso causou um crescimento complexo e vertiginoso. Gêneros, povos, raças e credos diferentes passaram a acompanhar histórias de heróis e também quiseram se ver refletidos em narrativas, juntos com os grandes seres dos gibis. Assim, o gênero de super-heróis começou a criar rótulos e fatias de mercado. Tudo para que conseguissem segmentar e deixar mais fáceis as tão fadadas campanhas de marketing. Desde então, esse modelo impera em toda a mídia de quadrinhos e produtos ligados.

A grande divisão que ainda está para ser rompida, no entanto, é aquela que divide quadrinhos para meninos dos quadrinhos para meninas.

Basicamente, a parcela mais significativa do mercado parte do pressuposto de que histórias de personagens masculinos devem atender determinadas especificações de virilidade, incluindo cenas de ação, garotas com pouca roupa e pouco texto (porque, segundo essa lógica, o que você quer é ver os peitinhos das meninas). Em contrapartida, as histórias para meninas são românticas, quase simplórias, assemelhadas a contos de fadas açucarados em que a garota é alguém em quem ninguém presta atenção, mas que está destinada se transformar em uma linda princesa.

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Vale ressaltar novamente que gosto de trabalhar com hipérboles, e lembro isso para que entendam que estou apresentando alguns fatos, exageradamente, para a construção de um tema.

Estamos no século 21 e tal tipo de padronização que separa os gêneros não serve mais, ainda que muitos insistam. Os quadrinhos hoje precisam ser feitos para todo tipo de público, sem distinção alguma. O mundo continua mudando muito rápido e necessitamos que as HQs, como um todo, sejam mais inclusivas. Para que ambos, garotos e garotas (de ambos os sexos, e isto não é uma redundância), tenham experiências bacanas, seja lendo a HQ do Superman ou a da Viúva Negra.

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São movimentos assim  que irão fazer os quadrinhos continuarem à crescer e renovarem seu público. E ele tem uma grande dificuldade de ser renovado, justamente devido aos quadrinhos de linha serem pensados, em média, para homens, brancos, cis e heterossexuais.

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O público leitor de quadrinhos desde 1938

O Japão entendeu há décadas que pode criar séries com rótulos, mas aquele mercado sabe agradar todo o seu público, já que busca fazer HQs que incluam o mais amplo espectro demográfico-social dentro do seu mercado: crianças, velhos, homens, mulheres, adolescentes, o que for. Mas ainda é um ponto fora da curva que o ocidente, provavelmente, ainda levará décadas para assimilar e conseguir uma pluralidade de estilos que converse tão bem com todos, sem amarras.

Ainda temos um longo caminho nessa mudança e o mercado vem sinalizando que caminha rumo à inclusão, mesmo que aos poucos, quando vemos o nascimento de quadrinhos exemplares em editoras como Archie, Valiant e Image. Marvel e DC ainda engatinham em busca de uma mudança, a meu ver mais do que necessária.

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No Brasil, temos de nos lembrar da Turma da Mônica Jovem, que vem sendo fazendo escola no quesito inclusividade, bem como o trabalho incessante das profissionais dos quadrinhos que estão abrindo, a fórceps, suas oportunidades em um mercado de tendência machista e misógina.

 

Mas isso não basta.

Depende de nós, leitores, pararmos de rotular quadrinhos em títulos para meninos e títulos para meninas. Não é porque um quadrinho tem traços fofos, cores vibrantes e um romance central que ele é necessariamente para garotas. Nem é porque o estilo é sombrio, com traços arrojados e cenas de violência que é algo só para meninos.

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Está em nós o pedido da mudança. Somos consumidores e devemos, sim, pedir mudanças, para que todos sintam-se de bem com seus amados gibis.

Até a próxima! E a dica é: Tenha mais empatia com próximo.

  • Pacokits

    texto bonito

  • Fernando Pinheiro

    Eu chamo isso de “massificação”!

    Os EUA importou a ideia do “sonho americano” e não somente nós, mas o mundo todo comprou!
    É muito fácil, dizer para aposentarem o Tony Stark e colocarem uma garota em seu lugar, ou fazer uma porção de heróis machões “saírem do armário” desde que isso tudo continue sendo muito americano!

    O fato é que os americanos amam a América e se gabam por sua cultura (ou capital cultural) sobrepor as demais…
    Quem dita as regras? É muito fácil falar sobre inclusão em questões humanitárias, mas vivemos em um mundo de predominância capitalista! E o mundo das HQs respeita isso!

    Não é inclusão, e sim mercado!

    Antes de Obama se tornar presidente nos EUA, havia uma porção de filmes que mostravam presidentes negros bonzinhos.
    E o povo (as massas – maioria, já que é o voto quem decide) passou a querer isso!
    Esses dias assisti um filme (bem nacionalista como sempre, mas com belos efeitos especiais) onde o governante máximo da nação Americana é uma mulher…
    Por sinal uma incompetente e sem expressão de governo nenhuma! Onde mostra claramente que o antigo presidente (de 25 anos atrás) era melhor e o que a substitui (pois a mesma morre) é o que se destaca…

    O que vejo com isso? Alguém ainda não quer uma mulher governando a nação Americana, mas implantaram a ideia de modo implícito…
    Assim são as coisas! De fato existe a grande hipocrisia da sociedade moderna em querer “remendar pano velho com tecido novo”, mas não podemos ignorar milênios de gerações onde a largura dos ombros do sexo masculino é quem defendeu a família das feras e que morreu em campos de batalhas nas guerras… e que a doçura dos largos quadris que esboçam delicadeza na doce fala sempre cativou mais que uma voz grave…

    Embora o mundo mude, a natureza não pode ser mudada… e se puder, a preço de que?