[Review] Divinity II, de Matt Kindt e Trevor Hairsine

Divinity originalmente foi uma minissérie em quatro partes, publicada pela Valiant de fevereiro a maio de 2015. A revista contava a história do cosmonauta soviético negro Abram Adams, que recebe poderes divinos em uma missão de exploração aos limites do universo conhecido.

Naquela oportunidade, os autores Matt Kindt Trevor Hairsine tiveram autonomia para criar e estabelecer talvez o personagem mais poderoso do universo Valiant até então. Abram, um afro-soviético com poderes de manipulação de realidade quase que ilimitados, era uma ameaça em potencial que nem o temido pisótico Toyo Harada conseguiu conter.

No entanto, a expedição soviética aos confins do universo conhecido era composta de três cosmonautas. Portanto em Divinity II, Kindt e Hairsne retornam à trama proposta (no mesmo formato da publicação original) para nos mostrar o que aconteceu aos outros dois membros da tripulação.

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Especificamente em Divinity II, a história é focada em Myshka – apelido da personagem Valentina Volkov. Da mesma forma que Abram, Valentina tem contato com o éter desconhecido que lhe confere os mesmo poderes de alteração de realidade do protagonista original. Entretanto, diferentemente de Adams, o uso destes poderes por Myshka é feito de forma bem mais incisiva.

Buscando referências históricas referentes ao período desde a Guerra Fria até os dias e hoje, Matt Kindt desenvolve um roteiro mais simples e linear do que na mini série original. Aqui vemos o que acontece ao mundo quando uma soviética patriótica e devota assume as rédeas da realidade e muda a história em favor de seu país. Em quatro edições Kindt transforma de fato o mundo em uma utopia soviética de forma clara e simples. Se valendo de figuras histórias importantes do país, o autor pontua eras ao mesmo tempo em que nos mostra o caráter humano de Volkov, seus limites e suas motivações.

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Diferente de Divinity original, a equipe Unity tem uma participação menor e o conflito central se dá justamente entre Myshka e Abram – o único ser no universo Valiant capaz de rivalizar com a moça. Os compatriotas, adeptos de ideologias similares, mas com abordagens diferentes se enfrentam em um clímax dramático, violento e maior que a vida no qual Kindt faz uma declaração de amor ao autor Fiódor Dostoyevsky e usa de forma elegante e inteligível metáforas de uma de suas obras mais conhecidas para amarrar um final que tem uma solução um tanto quanto clichê, mas que não compromete o arco de Valentina.

A arte de Trevor Hairsine em toda a obra é incrivelmente consistente. Com prazos confortáveis, o ilustrador usa seu talento para fotografia cinematográfica aliada a sua pegada rústica e traduz de forma claríssima as ideias de Kindt. Com um design de elenco marcante e cenas chave com páginas matadoras, Hairsine toma conta deste universo e molda a realidade da Valiant através da protagonista. Não há perda de qualidade em edição alguma e, por conta disso e pela fluidez na leitura, o material torna-se ideal para ser lido em uma só tacada.

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Divinity II não chega a ser um evento no universo Valiant, mas poderia facilmente sê-lo. O escopo da proposta de Matt Kindt para esta trama, a execução objetiva e impactante e o mote é ideal para uma saga que talvez pudesse ter influenciado todas as revistas da linha da editora. Todavia, a Valiant atualmente trabalha de forma muito mais cautelosa que as outras editoras em termos de eventos e sagas, deixando sua linha amarrada porém livre para seguir seu próprio caminho.

De qualquer maneira, sendo um evento ou somente uma mini série contida, o fato é que o produto entregue por Kindt e Hairsine novamente se coloca acima da média no gênero super heroico atual, introduz uma personagem feminina mais poderosa, motivada e profunda que a grande maioria das atuais e abre novas portas para uma expansão ainda maior desta mitologia. Divinity II é mais um triunfo editorial da Valiant, não requer um conhecimento prévio muito extenso deste universo e com isso torna-se uma das histórias fechadas que valem a pena ser lidas este ano.

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