[#Pitaco] O mergulho de um DCnauta nos X-Men clássicos

Recentemente mudei de casa. Faz algumas semanas. O transtorno de uma mudança já é suficiente para arrancar os cabelos do sovaco, mas, quando se é colecionador de livros e quadrinhos, a proporção que o desespero toma é imensa. Por outro lado, é engraçado notar como se tem coisas que nunca foram lidas, principalmente aquelas que foram esquecidas no meio de outras coisas, há tempos deixadas de lado. Achei três volumes inesperados, comprados há cerca de dez anos, quando eu ainda reformulava meu gosto por histórias em quadrinhos: X-Men – Edição Histórica nºs 1 a 3.

As três edições da coleção X-Men: Edição Histórica da Mythos. Foto retirada do Mercado Livre.
As três edições da coleção X-Men: Edição Histórica da Mythos. Foto retirada do Mercado Livre.

Sempre que li roteiros do Chris Claremont, fiquei decepcionado. Seja pela forma arcaica de ele narrar uma história (recheada de balões narrativos que dizem exatamente o que está desenhado na cena) ou seja pelos cheesy dialogues, seu corpo de trabalho sempre foi broxante pra mim. Isso aconteceu quando peguei seus trabalhos milionários feitos com Jim Lee nos anos 1990 e nas suas poucas investidas no Universo DC com a famosa (e odiada) série Sovereign Seven. Não foi muito diferente quando peguei algo mais antigo dele pra ler: A Saga da Fênix Negra, um dos maiores clássicos dos X-Men. Havia paixão ali, mas nublada pelo excesso. Então desisti de Chris Claremont. Isso deve ter sido por volta de 2007 ou 2008. Em 2016, com aqueles velhos encadernados em mãos, resolvi dar outra chance.

Capa de Sovereign Seven #9.
Capa de Sovereign Seven #9.

Esses volumes foram lançados no Brasil pela Mythos Editora entre 2001 e 2003, a uma média de preço de R$ 14,90. Eles trazem quase toda a fase de Claremont/Byrne à frente da revista The Uncanny X-Men, o mais clássico título dos mutantes da Marvel. Você que é fã desses quadrinhos deve se lembrar das histórias. O primeiro volume, que estou terminando de ler no momento, começa com os X-Men voltando de uma aventura no espaço. O grupo tira um dia de descanso depois da conturbada missão que transformou Jean Grey na Fênix, em histórias de Claremont com os desenhistas Dave Cockrum e, em seguida, John Byrne.

Quem acompanha meu trabalho no Terra Zero ou minhas opiniões nas redes sociais sabe que não sou nem um pouco fã de Byrne. O Superman é meu personagem favorito e as ideias que ele aplicou no personagem não poderiam estar mais distantes do que ele representa. Quando estava escrevendo meu primeiro livro, Fazendo O Homem Acreditar, no meio das minhas pesquisas encontrei declarações de Byrne e alguns editores da época afirmando que a nova roupagem do Superman pós-Crise nas Infinitas Terras (em 1986) ia pra um estilo mais Dirty Harry, o que não poderia estar mais distante do que o personagem é. Entendo porque aquilo foi necessário na época, mas, como a história provou, não durou muito tempo.

Byrne também foi autor de uma reformulação bem ruim do Homem-Aranha nos anos 1990/2000, mas, mais importante que isso, ele é famoso por falar demais, por destratar fãs e ser extremamente preconceituoso. Normalmente tolero (e às vezes gosto muito de) gente considerada polêmica – gosto do trabalho de Orson Scott Card, mesmo ele sendo um homofóbico de carteirinha, e sou fãzaço de Iron Maiden (já os vi ao vivo seis vezes) mesmo discordando das posições políticas de Bruce Dickinson – mas o conjunto formado pelas escolhas e convicções de Byrne me incomodam. Não consigo aturar o cara. Dito isso, volto meus olhos para as histórias em si, colocando de lado as experiências ruins com outros materiais de Claremont e minhas opiniões sobre Byrne para simplesmente dar uma chance a um material tão amado por milhares de fãs ao redor do mundo.

Capa de Spider-Man Chapter One de John Byrne.
Capa de Spider-Man Chapter One de John Byrne.

Gostei bastante. Há um sabor de aventura e nostalgia ao ler essas histórias (ainda mais em preto e branco) muito interessante. Chega a ser engraçado, porque eu me senti nostálgico por uma época que, na verdade, eu não vivi. Nem era nascido. De qualquer forma, as caracterizações são muito boas, com personagens críveis e altamente empáticos. As situações cotidianas, justamente as que aprofundam cada membro da equipe, despertam a atenção do leitor tanto quanto os momentos de heroísmo – que, por sinal, são vários. Claremont e Byrne são da velha escola, autores que contam uma história em uma ou duas edições. Isso se tornou raro na indústria, que hoje vive de arcos que duram seis ou até doze edições. Os tempos eram outros. Claremont certamente era verborrágico (uma característica que Byrne também possuía, como pode ser visto na sua longa passagem pelo Quarteto Fantástico), mas, de origem britânica, o autor implementa um certo quê literário na sua narrativa. Isso enriquece a leitura e me fez mudar de opinião sobre seu estilo.

Capa de Uncanny X-Men #109 por John Byrne.
Capa de Uncanny X-Men #109 por John Byrne.

O que mais chamou atenção foi o ritmo das histórias. Ainda que boa parte das aventuras sejam autocontidas, elas possuem ganchos perfeitos para as edições seguintes. Tal habilidade de criação é rara de se ver na indústria hoje em dia. Nos tempos atuais, você precisa ler a próxima edição; naquela época, você queria ler a próxima edição. Diferença gritante. Portanto, em cerca de um ano de revistas mensais, o leitor pôde acompanhar aventuras nos Estados Unidos, na Terra Selvagem e até no Japão, em momentos clássicos em que os X-Men se deparam com a recém formada Tropa Alfa, Sauron, Ka-Zar, Solaris e, claro, o inigualável vilão Magneto. Verdade seja dita, a impressão foi de que a luta contra o mutante em Magneto Triunfa (relançada recentemente pela Panini em um luxuoso volume) é ofuscada pela criatividade das outras histórias que compõem o encadernado da Mythos.

Capa de Uncanny X-Men #114 por John Byrne e Terry Austin.
Capa de Uncanny X-Men #114 por John Byrne e Terry Austin.

Outro destaque dessas aventuras fica para a exploração da dinâmica do grupo proposta por Claremont. Mais difícil do que escrever determinados personagens, é criar uma narrativa e diálogos convincentes para uma equipe composta de membros muito diversificados. Cada X-Men tem uma identidade muito forte e o cuidado do autor para encontrar as vozes corretas para cada um merece aplausos. Vale destacar que, nessas histórias, o grupo é separado; Claremont e Byrne criam situações que dividem o time e fazem alguns membros pensarem que os outros estão mortos. O drama vivido por cada grupo é muito bom e cria um conflito que enriquece as tramas. Quando o encadernado acaba, o Professor Xavier está se isolando no espaço com Lilandra; Jean Grey viaja achando que perdeu Scott Summers para sempre; enquanto isso, ele e diversos X-Men estão passando por todas as aventuras supracitadas.

Capa de Uncanny X-Men #115 por John Byrne e Terry Austin.
Capa de Uncanny X-Men #115 por John Byrne e Terry Austin.

No fim das contas, a experiência valeu a pena. Posso dizer, sem medo, que minhas opiniões sobre Chris Claremont e os seus X-Men foi mudada. Mal posso esperar para ler os encadernados 2 e 3 desta coleção, assim como as histórias clássicas recentemente lançadas pela Panini em Coleção Histórica Marvel. Se esse interesse vai se manter nas próximas histórias eu não posso prever, ainda mais quando as décadas passarem e eu chegar nos terríveis anos 1990, quando a cronologia dos X-Men vira uma bagunça e a qualidade das histórias decai vertiginosamente. De qualquer forma, a impressão deixada por estas primeiras histórias foi muito positiva.

  • José Ricardo Freitas

    Eu tenho uma paixão pelos X-men e a Liga da Justiça , mas os vingadores não KKKKKK

  • AzBats

    Quanto a reformulação do Superman pelo John Byrne, juntamente da extensa passagem de Dan Jungers pelo Homem de Aço, são as minhas versões preferidas do personagem.

  • Adilson Alves

    A fase Claremont/Byrne é notável. Recomendo a leitura dessas histórias.

  • Strider_Tag

    Essas edições da Mythos são em Preto & Branco, né ? Cara, eu guardo com carinho meu Essential X-men n°2, jà que o P&B valoriza MUITO as artes mais antigas, e a arte do BYYYYYRNE não foge à regra.

    Antes de eu ser MANJADOR de HQs, todo mundo falava que a fase Claremont & Byrne era o “supra-sumo” das historias dos X-men, que a “Saga da Fênix Negra” era um marco das HQs, etc … na época eu pensei “ok, whatever …”

    Quando eu peguei pra ler, nossa … a leitura fluiu bem ràpido. E na boa, a fase Claremont & Byrne não se limita apenas à “saga da fênix negra”. Pra mim, essa fase forma um todo bem coeso, indo do confronto com o Magneto até o “batismo de fogo” da Lince Negra no final, com a “saga da fênix negra” sendo o àpice e “dias de um futuro esquecido” sendo a cereja do bolo.

    • Glaydson Melo

      Minha história favorita desta fase é a saga do Proteus. A corrida contra o tempo dos X-Men prende a atenção até o fim.

  • Glaydson Melo

    Grande matéria! Fiquei interessado no livro sobre o Super, como posso adquiri-lo?

  • Glaucio Aranha

    Muito legal que tenha revisto sua opinião. Os roteiros do Claremont tem eventuais furos, mas há uma clara preocupação em manter a coerência diegetica dos personagens que hoje caiu muito com cada roteirista querendo assumir os personagens ao seu modo é não pelos traços do personagem. O Claremont respeitava muito os traços de cada um e é uma das coisas que gosto muito nele.

  • Pingback: X-Men: Fênix Negra e a magia da franquia da Fox()

  • Gladson Marques

    A grande fase dos X-Men de Claremont e Byrne foi sem dúvida, Dias de um futuro esquecido. Mas minha saga predileta dessa dupla ainda é a saga da Terra Selvagem, que foge do escopo preconceito mutante, algo que foi desgastado durante décadas de X-Men.