[Review] Civil War II #4, de Brian Michael Bendis e David Marquez

Teoricamente atingimos a metade da história e o ponto de colisão entre facções de super-heróis no universo Marvel nesta quarta edição de Civil War II de Brian Michael Bendis e David Marquez. Nos números anteriores (Leia aqui as resenhas #0, #1#2, #3) ficam mais do que claras as motivações, ações e os fatos determinantes para a atitude de ambos os lados do dilema moral proposto pelo autor.

No entanto, dois pontos vitais são deixadas como gancho para esta edição que culmina no embate entre os dois grandes grupos de super seres na Marvel: O primeira seria o resultado do julgamento na edição três. Aqui descobrimos o que acontece com o assassino de um ícone da Marvel, e algumas repercussões do fato. O segundo ponto é como de fato o poder de Ulysses funciona, qual o grau de acuidade de suas visões e qual o impacto do escrutínio sobre esse poder tem em cada lado da história.

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Analisando friamente, a questão do julgamento é mostrada rapidamente e com a coerência que convém ao sistema judicial em geral. Portanto é bem fácil tragar o resultado do julgamento se observarmos no mundo real a quantidade de casos similares a este. Não que seja justo, mas é algo plausível.

Quanto aos poderes de Ulysses, Bendis nitidamente faz uma analogia às atividades relacionadas a cybervigilância praticadas por agências de segurança nacional mundiais. O termo profiling (que faz alusão à parametrização do indivíduo através de vigilância de suas atividades e a posterior confecção de um perfil piscológico) é usado de forma muito explícita pelo autor e o tema é tão atual e válido nos dias de hoje que até o mais alienado leitor pega esta alegoria imediatamente. O grande problema é que ao fazer sua crítica à cybervigilância e a uma agência de segurança com métodos injustificáveis, extremos e que ferem gravemente liberdades civis, Bendis sacrifica um dos lados deste embate ideológico na forma de Carol Danvers.

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Capitã Marvel aqui é vilanizada (ponto). Esta é a edição em que vemos o que de pior um governo com o poder de determinar se você é ou não um suspeito de atividades criminosas pode fazer. E isso é mostrado nas atitudes de uma das heroínas mais emblemáticas do universo Marvel nos últimos 10 anos. Dependendo da interpretação do leitor em relação à Carol, o retrato pintado por Bendis pode ser ofensivo ou não e isso não vem ao caso da resenha. O fato é que da maneira como os poderes de Ulysses são explicados e tendo em vista a atitude de Danvers nesta edição, o dilema tende para o lado de Tony Stark e desequilibra o maniqueísmo estabelecido.

Tirando o sacrifício de uma heroína em prol de uma alegoria e o desbalanço no embate, a edição quatro de Civil War II tem um ritmo ótimo. Os diálogos de Bendis estão afiadíssimos e o destaque da revista é a maneira funcional e didática usada para explicar os poderes de Ulysses. Poucos autores conseguiriam apresentar um conceito indigesto como esse de maneira tão clara e inteligível.

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A arte de David Marquez continua belíssima desde a edição número dois de Civil War II. Apesar de um acabamento um pouco rude em algumas cenas, o ilustrador transmite sentimentos em expressões faciais de maneira muito convincente. A revista tem uma caracterização de elenco icônica, fotografia clara e quadros heroicos bem dignos, principalmente ao seu final. Um trabalho gráfico que vem evoluindo a passos largos desde a primeira edição e merece ser enaltecido.

A quarta edição de Civil War II é um ponto de desequilíbrio na dualidade do tema proposto por Brian Michael Bendis. Após o exposto nestas páginas fica muito difícil simpatizar com a causa da Capitã Marvel no confronto. Isso pode ter uma repercussão bem negativa entre os fãs da personagem e alterar a imagem positiva de Carol Danvers para sempre no Universo Marvel.

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Apesar da quebra de dualidade e vilanização extrema de uma heroína, se formos encarar a saga como uma simples analogia às práticas de cybervigilância atuais, o autor se sai bem pois se vale de um tema atual e o critica de forma coerente. Lógico que o que queremos ver em uma Guera Civil são dois lados com pontos válidos se enfrentando em um campo de batalha equilibrado. No entanto, se você espera isto nesta saga daqui para frente suas chances são mínimas. A partir deste momento em Civil War II, a história ganha tons de “certo contra errado”. E apesar dos ótimos diálogos, ritmo excelente e apresentação lindíssima, isto pode ser uma baita decepção para grande parte do público.

 

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