[#Pitaco] Batman vs Superman melhora (e muito!) Homem de Aço

Depois de me decepcionar profundamente com a versão estendida de Batman vs Superman – A Origem da Justiça, resolvi fazer um experimento: assistir novamente a Homem de Aço, o primeiro filme do chamado DC Extended Universe. Nele, o britânico Henry Cavill estrela como Superman ao lado de Amy Adams (Lois Lane), Michael Shannon (General Zod), Russell Crowe (Jor-El) e outros grandes astros de Hollywood.

Dirigido por Zack Snyder, o filme dividiu opiniões. Isso não é exatamente uma surpresa dado o histórico de filmes do diretor, mas, por se tratar de um reboot do Superman, tanto os fãs como a crítica esperavam algo mais, que fosse ao mesmo tempo inovador e respeitoso à essência do personagem. Esse algo não veio, mas algumas explicações – e até defesas – merecem ser feitas. Ainda mais depois das duras críticas que Batman vs Superman sofreu, independente da versão.

superman-and-lois-lane-man-of-steel-movie-hd-wallpaper-1920x1080-4722
Montagem com Henry Cavill e Amy Adams.

Após o fracasso financeiro que foi Superman – O Retorno (2006), a Warner optou por não continuar com essa franquia do personagem, considerando o faturamento nas bilheterias (391 milhões) abaixo do esperado. Portanto, em 2010, o estúdio decidiu reiniciar o universo do herói nos cinemas. Logo em seguida, foi anunciado que o britânico Henry Cavill, que tinha feito um teste para ser o Superman em 2004, foi escolhido. As filmagens do novo longa começaram no segundo semestre de 2011.

Caso você não tenha assistido, Homem de Aço mostra Clark Kent numa jornada de autodescoberta recheada de flashbacks de sua infância e adolescência. Adotado por pais superprotetores e amadurecido de forma sofrida, Clark vagou o mundo de emprego em emprego com identidades falsas enquanto fazia o bem pelas pessoas. Apesar de todo o bullying que sofreu e de ter perdido o pai, Clark cresceu um homem íntegro e fez o que pôde pelo próximo sem pedir nada em troca. Em uma dessas andanças pelo mundo, ele acabou descobrindo uma nave kryptoniana que estava há milhares de anos na Terra. Ao utilizar a chave que veio consigo no foguete que o trouxe à Terra, o protagonista vislumbra a cultura kryptoniana através de uma inteligência artificial na forma de seu pai biológico, Jor-El. Essa mesma chave lhe concedeu, mais tarde, sua indumentária kryptoniana.

man-of-steel-box-office1
Henry Cavill é Clark Kent/Superman em Homem de Aço (2013).

Na primeira parte do filme, que se passa toda em Krypton, o espectador pôde ver Jor-El e Lara ainda vivos, além de testemunhar o nascimento de Kal-El. É explicada também a rusga que a casa de El tem para com o General Zod, que tomou o poder de Krypton em um golpe militar. Todo esse trecho do filme é muito interessante não apenas por mostrar Krypton como ninguém jamais viu, mas também por deixar claras as posições de cada personagem e suas respectivas motivações. Ainda que em Krypton as pessoas nascessem em câmaras artificiais já programados para serem determinadas coisas na vida, Jor-El foi uma exceção do começo ao fim.

Muitos acham que o filme se contradiz ao explicar que kryptonianos são destinados a algo para depois mostrar um cientista caindo na porrada com militares (e vencendo). Na verdade, Jor-El representa a rebeldia dentro da utopia, a voz que se ergue na multidão e questiona o status quo. Fica claro que Krypton é uma distopia disfarçada de utopia, um mundo condenado que se escondia por trás da arrogância que os avanços tecnológico e social trouxeram. Jor-El previu a queda desse império e se preparou muito bem para isso e para defender sua maior criação como cientista: uma vida livre das amarras de Krypton, um bebê nascido de parto normal. A casa de El estava destinada a mudar a sociedade kryptoniana – ou o que restaria dela.

Russell Crowe é Jor-El em Homem de Aço (2013).
Russell Crowe é Jor-El em Homem de Aço (2013).

A partir daqui, o leitor já deve ter imaginado o que acontece. Preso na Zona Fantasma mas foragido de lá após a explosão de Krypton, o General Zod e seus soldados vão à Terra graças à ativação da nave que Clark descobriu no Ártico. Isso leva Zod a querer perpetuar sua espécie no planeta eliminando a “raça inferior”, o ser humano. Ele estava destinado a isso, afinal de contas. Em duas batalhas épicas (uma em Smallville e uma em Metrópolis), Superman e Zod escolhem seus lados e tudo culmina em uma terceira e última luta. Nela, Superman se vê obrigado a matar Zod, um grande divisor de opiniões entre os fãs.

Apesar desse momento trágico e de toda a destruição das cidades durante as lutas, o filme é bonito. Não apenas em termos visuais – a fotografia e a cenografia de Zack Snyder são impecáveis –, mas também em termos de história. Toda a jornada de Clark para descobrir quem ele é e de onde veio é fantástica, digna das melhores histórias do Superman nos quadrinhos. Na época, o escritor Mark Waid, uma das maiores autoridades em Superman no mundo, disse que “[O filme] Tem momentos muito bons, vários que eu mesmo gostaria de ter escrito”. É bem por aí. É interessantíssimo também vê-lo fazendo pequenas coisas para ajudar as pessoas desde criança. É o que todos esperam do Superman, inclusive eu.

No passado, quando um tornado chega em Smallville, Clark e o pai estavam discutindo no carro. Jonathan para o veículo e todos saem para ajudar as outras pessoas que estavam na estrada. Porém, Jonathan voltou para pegar o cachorro de estimação da família Kent e, num ataque feroz do tornado, perde o movimento de uma das pernas. Quando Clark tenta salvá-lo, Jonathan faz um sinal para que ele não o faça. Esse momento também divide opiniões. Particularmente, considero a cena memorável e novamente cito Mark Waid:

Goyer foi mágico aqui. Ele pegou dois momentos que individualmente eu teria odiado e os uniu em algo fantástico. Fora de contexto eu teria odiado Clark dizer “Você não é meu pai de verdade”, assim como teria odiado Clark ficar parado como uma estátua enquanto o pai morre no tornado. Porém, a razão pela qual tudo isso funcionou é que aquela foi a última frase de Clark para o pai. Um choroso herói escolheu ir contra seu instinto no último minuto para mostrar para o pai que o amava, que confiava nele, assim como o pai confiou nele, mostrando que, no fim das contas, Clark aprendera a coisa certa. É uma escolha muito ousada, mas que funcionou.

Voltando ao terceiro ato, concordo com o Superman matando Zod? Não exatamente. Em alguns podcasts que gravei, dentro e fora do Terra Zero, brinquei várias vezes que “o novo Superman do cinema é um ASSASSINO”. Na verdade, não vejo assim. Acredito que a morte de Zod pelas mãos do Homem de Aço tenha sido brutal, mas não equivocada. O vilão podia ter morrido de outro jeito. Que jeito não sei dizer, mas tenho certeza que os roteiristas encontrariam várias opções se procurassem um pouco.

General Zod (Michael Shannon) e Superman (Henry Cavill) se enfrentam em Homem de Aço.
General Zod (Michael Shannon) e Superman (Henry Cavill) se enfrentam em Homem de Aço.

Por outro lado, gosto da ideia da tragédia. Zod era um alienígena superpoderoso capaz de queimar o planeta Terra inteiro para cumprir seu destino. Felizmente, Henry Cavill vendeu a cena muito bem. Da mesma forma que ele deu a emoção necessária para o sacrifício do pai parecer legítimo, seu arrependimento no final da batalha contra o outro kryptoniano ecoa na alma do espectador.

O filme termina com belas e ensolaradas cenas em Smallville, uma nova vida sendo construída em Metrópolis e muitos sorrisos. Sua continuação, porém, não tem esse tom em momento algum. Batman vs Superman mostra um Homem de Aço mais experiente mas mais inseguro. Martha Kent, que no filme anterior deu ótimos conselhos ao filho, nesse novo falou qualquer coisa, até o desencorajou em determinado momento. Além disso, quando Superman falava em Homem de Aço, ele mostrava confiança, atitude e irreverência. Ele dava credibilidade. Cenas como o salvamento de Lois dentro da nave, o aprendizado do poder de voo e seu encontro com dezenas de pessoas pelo mundo mostraram isso. Onde estava esse Superman em BvS? Onde estava o homem que, apesar de inexperiente e de não saber muito bem os limites de seus poderes, falava firmemente e buscava melhorar em cada atitude?

Apesar da fragmentada narrativa de Homem de Aço, o filme funciona e estabelece um Superman que fez sacrifícios por bens maiores. Esse Superman passou a vida toda salvando pessoas de qualquer mazela porque era a coisa certa a se fazer. Quando ele encontrou a si mesmo na nave kryptoniana, ele só teve certeza de seu destino. Alguns erros foram cometidos no caminho, sim, mas uma nova vida sairia daquilo, a caminho de uma iluminada nova jornada – uma promessa de triunfos futuros. Nada disso aconteceu. Essa nova jornada, esses triunfos não vieram. Batman vs Superman levou o personagem ainda mais pra baixo, deixando-o ser facilmente influenciado pelos que o questionaram, a ponto de ser ineficaz no que faz. Nada é mais triste que ver o maior super-herói do mundo ser ineficaz. Os dois filmes juntos apresentam um contraste bizarro do que o Superman poderia ter sido e não foi.

Henry Cavill em Batman vs Superman e Homem de Aço.
Henry Cavill em Batman vs Superman e Homem de Aço.

No fim das contas, Batman vs Superman mostra um super-herói que vive constantemente questionando tudo o que faz, não tem segurança de suas escolhas e fica com a testa franzida o tempo todo; em contraste, Homem de Aço mostra um homem procurando seu lugar no mundo e aprendendo a viver com o máximo de seus poderes enquanto entrava cada vez mais fundo em uma emocionante jornada de autodescoberta. É um filme melhor. A crítica não me deixa mentir.

20 Comentários

Clique para comentar

um × 1 =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com