[FdA] Qual a importância de Wally West?

Em maio de 2016, a DC Comics deu o pontapé inicial na iniciativa DC Comics: Rebirth, e usou como prova de comprometimento à proposta do evento o retorno de Wally West, que fora o Kid Flash original e Flash titular por 23 dos 25 anos que compuseram o período conhecido como pós-Crise (1986-2011). O retorno de Wally foi amplamente celebrado e, junto com outras medidas similares mas de menor impacto, parece ter mudado a percepção negativa que a editora vinha causando em seus leitores mais antigos. Mas leitores que chegaram após 2011, ou mesmo 2009, podem estar se perguntando por que tamanha reação a West, ou o que o torna tão importante a ponto de ser o protagonista da iniciativa. E aqui cabe uma pequena “aula” de história.

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Ah, a Era de Prata!

Wally foi criado em 1959 por Carmine Infantino e John Broome, e originalmente, seguindo a cartilha de sidekicks como Speedy, era pouco mais do que um Barry Allen em miniatura, usando inclusive um uniforme idêntico ao do então Flash nas suas primeiras aventuras. Sobrinho de Iris West, ganhou poderes em um acidente idêntico ao de Barry, no mesmo laboratório, e passou a ser seu aprendiz desde então. Embora relativamente popular, tinha poucos traços realmente distintos além do seu visual – considerado por muitos, como Grant Morrison, o melhor uniforme de super-herói da história.

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Até o Lanterna Verde designer paga um pau

Sua relevância começou a aumentar com a fundação dos Teen Titans (Turma Titã no Brasil) em 1969, e sua popularidade cresceria devido à sua participação no revival de 1980, The New Teen Titans (Os Novos Titãs), por Marv Wolfman e George Perez. Wolfman, porém, rapidamente encerrou a participação do personagem na equipe e o aposentou da vida super-heróica, devido principalmente à sua dificuldade em escrever um velocista. Todavia, a DC do período passava por mudanças substanciais, e o evento Crise nas Infinitas Terras – publicado em 1985, mas com planejamento iniciado no fim de 1982 – tinha como uma das ordens editoriais matar Barry Allen e mudar completamente o conceito do Flash. Embora várias propostas tenham chegado perto de serem escolhidas, a editora decidiu de última hora manter o conceito intacto e fazer com que Wally assumisse o manto e uniforme do velocista escarlate. Essa decisão, talvez não intencionalmente, viria a se tornar um dos pilares da identidade da DC Comics nos anos que se seguiram.

O volume 2 de Flash (Barry nunca havia tido um volume próprio até então, continuando a numeração da revista de Jay Garrick, o velocista da Era de Ouro) começou com argumentos de Mike Baron numa fase pouco memorável, com influência pesada do tom sombrio e pseudo-realista preferido na metade dos anos 80, mas durou apenas 18 edições até a entrada de Bill Messner Loebs. Esta primeira fase emblemática trouxe a introdução de diversos conceitos que viriam a ser incorporados à mitologia do personagem, incluindo aí a relação com os Laboratórios Star, a reabilitação e saída do armário do Flautista, ex-vilão da galeria (além de sua amizade com o protagonista), personagens como Tina McGee e Linda Park, e a primeira reformulação no período pós-Crise da Galeria de Vilões, além da primeira atualização ao uniforme de Flash desde a sua criação.

Pimp my Costume!
Pimp my Costume!

Bill Loebs ficou no título até a edição de número 61, quando assume Mark Waid. E é essa fase tida pela maioria dos fãs como a melhor da franquia. Aqui viria-se a cimentar Wally West como o principal expoente e influenciador de uma ideia que é associada à DC até hoje: o legado. Sob a batuta de Waid, a revista se afastou completamente de qualquer tendência dos hoje mal-vistos quadrinhos de super-heróis do começo da década de 90.

A partir de então, o legado e a influência de Barry Allen, como mentor e figura paterna de Wally, tornam-se temas principais da franquia, num quadrinho sobre superação, família e responsabilidade. Caem os limites “científicos” para os poderes com o advento da Força de Aceleração, permitindo feitos dignos da Era de Prata no então estéril ambiente dos anos 90. Além disso, Mark Waid trouxe de volta ao título os velocistas da Era de Ouro Jay Garrick (o Flash original), Johnny Quick e Max Mercury (o Quicksilver original!), além de criar Jesse Quick e Impulso (Bart Allen, neto de Barry vindo do futuro).

A série aumentou em vendas imediatamente, mas foi o arco “O retorno de Barry Allen” que fez o título explodir. A partir de então, Flash passou a ser um dos títulos mais vendidos da DC todo mês, frequentemente nos Top 5 nos Estados Unidos, e manteria-se assim até seu primeiro cancelamento, em 2006. O sucesso influenciou a tomada de decisões da editora, que passou a usar “legado” como solução rápida para qualquer franquia com baixas vendas ou para manter trademarks de personagens fora de circulação.

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Já em 1994 a DC encomendou a Ron Marz o Crepúsculo Esmeralda, arco que continha o início da carreira como vilão  de Hal Jordan e criação de Kyle Rayner. Apesar da forte reação negativa dos fãs ao destino de Jordan, Kyle foi bem sucedido o suficiente. E assim o conceito de legado foi se tornando a cara da DC; o Arqueiro Verde foi substituído por seu filho, Connor Hawke; uma nova Batgirl foi criada; a geração dos Titãs originais foi reunida – com vários de seus membros ganhando títulos ou minisséries – ao mesmo tempo em que ensaiava-se uma volta da Sociedade da Justiça na excelente passagem de James Robinson em Starman, série dedicada exclusivamente a analisar o conceito de legado dentro do universo DC.

A consolidação desses personagens em seus mantos – principalmente Wally, Kyle e Connor, que além do sucesso próprio beneficiaram-se com a exposição do estrondoso sucesso que era a LJA de Grant Morrison e Howard Porter. Somando-se a isso a co-existência com os então recém reunidos personagens da Era de Ouro e a criação de uma quarta geração heroica na Justiça Jovem, e a DC se tornou um universo multi-geracional. Embora Wally não fosse o primeiro personagem de legado daquele universo – a Terra 2 pré-Crise possuía diversos heróis de segunda geração na Corporação Infinito – era seu principal, mais bem-sucedido e estabelecido expoente.

Tudo isso viria a mudar com a entrada de Dan Didio em 2002. Trazido da televisão, a missão dada a Didio pela companhia dona da DC, Warner Brothers, era a de criar maior sinergia entre quadrinhos e outras mídias e capitanear a produção de propriedades intelectuais de fácil adaptação, e ele acreditava que heróis de legado eram um empecilho neste sentido. Aos poucos, uma política de não redundância foi estabelecida na DC, e entre as primeiras vítimas estavam os personagens coadjuvantes do Flash. Morre Max Mercury, Jesse Quick perde os poderes, Impulso torna-se Kid Flash. Lanterna Verde: Renascimento, escrita por Geoff Johns e que à época também escrevia Flash, foi um grande sucesso, e o editorial viu naquele modelo uma oportunidade para eliminar os personagens de legado das suas franquias principais.

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O Flash, todavia, era visto como obstáculo; a morte de Barry Allen era por demais emblemática e a popularidade de Wally West, muito grande. Após uma longa campanha de sabotagem editorial semelhante à que Barry sofreu nos anos 80 – e complexa demais para esta coluna – finalmente é publicado Flash: Renascimento, por Geoff Johns e Ethan Van Sciver, em 2009. O quadrinho traz de volta Barry Allen e, apesar de estabelecer que Wally continuaria como Flash, lado a lado com seu mentor, traz uma série de retcons que invalidam os maiores feitos da carreira de West. Embora tenha vendido razoavelmente bem, a recepção crítica foi no máximo morna e, assim que a publicação da minissérie acabou, uma mandado editorial proíbiu aparições de Wally.

Imediatamente, qualquer convenção da DC passa ser inundada com perguntas sobre o personagem e, após uma série de falsas promessas Dan DiDio, este diz, à ocasião do reboot de 2011, que não há planos para Wally. Apesar do sucesso inicial dos Novos 52, que eliminaram completamente a ideia de legado do Universo DC, setores cada vez maiores do fandom passam a se queixar de que a editora perdeu a identidade, e as vendas passam a sofrer um declínio constante a partir do meio de 2012. Durante todo este período, diversos personagens desaparecidos eram pedidos pelos leitores (sendo Wally o principal deles) a ponto da DC ter tentando um revival do personagem em 2014.

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Esse revival, todavia, apagava completamente o histórico do personagem, além de torná-lo dez anos mais jovem que sua geração de contemporâneos e, pior, numa tentativa de sinergia com a série de tevê, tornou o personagem negro ao mesmo tempo em que aplicou uma série de estereótipos raciais infelizes em sua origem. O fracasso foi tamanho que a única saída encontrada foi estabelecer que era um personagem diferente em DC Universe: Rebirth Special.

E é neste especial que Wally volta, mas não só: traz consigo Ryan Choi, Jaime Reyes e Kal’Dur’Ahm, novos Lanternas Verdes, relacionamentos, elementos e história até agora perdidos. Wally West, direta ou indiretamente, definiu a identidade do universo DC por 25 anos de sua história recente, e era a única escolha possível para trazer esta mesma identidade de volta.

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