[#Entrevista] Zander Cannon – KAIJUMAX e o Eisner

Dentre as revistas indicadas para o Prêmio Eisner 2016 de Melhor Nova Série, a mais inusitada talvez seja Kaijumax, da Oni Press. O trabalho autoral é nada menos que um mashup entre narrativas de prisões, filmes de kaijus (como a série Godzilla) e Ultraman. A ideia veio de um experiente artista, porém desconhecido do público brasileiro, que roteiriza, desenha e colore a HQ. Zander Cannon é um estadunidense que tem mais de 20 anos de carreira e já trabalhou, dentre outras obras, na já agraciada com o prêmio de Melhor Série Contínua em 2001 com Top 10, arte-finalizando o traço de Gene Ha vindo dos roteiros de Alan Moore para a America’s Best Comics. Além disso, desenhou também o spin-off Smax, além de trabalhar com projetos pessoais como Heck que foi indicada no Eisner 2014.

Capa de Kaijumax Season Two #3. Arte de Zander Cannon.
Capa de Kaijumax Season Two #3. Arte de Zander Cannon.

Hoje em sua nona edição, a Season Two da revista está em sua edição #3, lançada nesta quarta (6) nos Estados Unidos. Kaijumax começou uma nova “temporada” depois de seis números da primeira, como uma série de TV. O quadrinho acompanha a história de Electrogor, um kaiju com poderes elétricos que é preso por comer cabos ultramarinos enquanto tentava obter energia para alimentar seus filhos. Ele é mandado para a prisão de segurança máxima, localizada em uma ilha isolada no meio do oceano, que dá nome ao título.

Em Kaijumax, os guardas são humanos que podem ficar gigantes e de armadura, similar aos Ultramen. Também há drogas, armas improvisadas, facções rivais, grupos religiosos extremistas e outros elementos que você provavelmente já viu em séries de prisão como OZ e Prison Break. Tudo isto com diálogos que tratam com crueza de temas fortes, mas com uma arte cartunesca que oferece uma combinação desconcertante, surpreendendo o leitor. Ou seja: Kaijumax não está no Eisner à toa.

Arte de Zander Cannon.
Arte de Zander Cannon.

Sendo assim, confira abaixo a entrevista EXCLUSIVA que o Terra Zero obteve com Zander Cannon, que fala sobre a carreira, a revista e os conceitos explorados em Kaijumax. Confira:

Terra Zero – Para aqueles que ainda não sabem: quem é Zander Cannon?

Zander Cannon: Uma das coisas mais interessantes sobre o lançamento de Kaijumax, e o fato de que está conseguindo um pouco mais de atenção do que meus últimos projetos, é que eu mesmo posso ver “quem é Zander Cannon”, por conta de todas as pequenas entrevistas e coisas que me descrevem. Mesmo que eu tenha um senso de quem eu sou enquanto pessoa, eu nunca sei realmente onde eu me encaixava nos quadrinhos, ou como eu me encontrei. Então ver as coisas que me descrevem como um “cartunista veterano” ou um “profissional indie” ou algo que dê esse efeito é illuminador. Eu desenho quadrinhos há mais de 20 anos, e eu fiz muitos projetos indies e preenchi muitos papeis em projetos licenciados e mainstream. Eu fiz muito de ilustração e storyboarding também; fui o que agências de publicidade precisaram que eu fosse para quaisquer projetos. Mas eu sinto como se eu estabeleci-me em um ritmo aqui; eu gosto do que eu posso ser um cartunista que existe em algum lugar no meio dos quadrinhos indie e mainstream, fazendo HQs estranhas porém tristes sobre monstros.

Não é a primeira vez que seu nome é relacionado ao Eisner, já que você estava em Top 10. Os sentimentos são diferentes do trabalho em grupo para os solo, como foi com a indicação de Heck em 2014?

É muito diferente. Em Top 10 eu senti um pouquinho envergonhado por aceitar um prêmio que era essencialmente de Alan Moore. Ele e Gene foram as estrelas do show e eu estava aproveitando a viagem. Houve uma certa quantia de “obrigados” a dizer e então seguir em frente, quando o meu instinto natural seria deixar pra lá e dizer que eu não mereci aquilo. Ser indicado pelo meu próprio trabalho, por outro lado, é uma sensação extremamente gratificante. Como muitas pessoas dos quadrinhos, eu tenho um pouquinho de síndrome do impostor, mas agora que estes são o meu próprio trabalho e a minha própria visão, eu posso finalmente vir a aceitar que as pessoas de fato gostam disso, e pelas razões certas!

Untitled 2

Como e quanto surgiu a ideia de Kaijumax?

Eu queria fazer algum tipo de história sobre monstros há algum tempo. Eu gosto da ideia de que todos eles meio que encontram-se em uma ilha em algum lugar, como todos os filmes implicam, mas que eles tivessem também uma sociedade muito mais sofisticada. Então, quando meu filho era pequeno, eu peguei uma caixa de DVDs do Ultraman e, em família, devemos ter visto todos aqueles episódios umas dez vezes. O fato de que o Ultraman faz menos sentido ainda que os filmes do Godzilla (o que realmente é uma expectativa realmente baixa) me deu muitas ideias para colocar nisso. Naquele ponto, quando eu decidi que eu queria que na verdade fosse uma série, eu percebi que eu precisaria de alguma razão para todos aqueles monstros estarem ali, então eu me dei conta de uma prisão. Colocar juntas a estupidez dos filmes de monstro dos anos 60 e 70 com as narrativas sombrias e duras dos dramas de prisão construiu um estilo de história que eu realmente gosto: duro e gasto, mas com um constante senso de que você não deveria levá-lo a sério demais.

O desconforto que algumas pessoas têm com Kaijumax em ler sobre temas duros e severos em histórias com monstros coloridos e cartunescos foi algo que você esperava desta série?

Eu esperava por isso quando eu estava desenhando as edições. Eu pensei comigo mesmo: “As pessoas vão pensar ‘O que diabos há de errado com esse cara?'”, mas eu meio que esqueci o quão ásperos os quadrinhos eram no momento em que eles saíram. Então FOI um pouco surpreendente! Eu penso que o fato de meu estilo de arte ser cartunesco e que foi propagandeado como uma “comédia de prisão kaiju” trouxe algumas pessoas que talvez estivessem desejando uma revista mais leve, e não ficariam tão entusiasmados com o quão cruel a história mais tarde se tornou. Francamente, eu penso que esse descasamento é crucial para essa revista. Se o estilo de arte fosse mais realista, a revista arriscaria ser tão cruel que o humor não brilharia através dela. Seria essencialmente a mesma revista, mas a base de leitores seria significativamente menor.

Arte de Zander Cannon.
Arte de Zander Cannon.

Você sempre fala sobre filmes de kaiju antigos na seção dos leitores, a Kaijumail. Como essa estética e esses temas refletem nas suas escolhas ao fazer Kaijumax?

A nostalgia dirige tanto a cultura pop – especialmente quadrinhos -, mas eu acho que não há muita reexaminação do verdadeiro material do qual somos tão nostálgicos. Eu sinto que é muito ruim que muito dessa nostalgia respeitosa apenas procure atingir nossos centros de prazer e não cria nada novo nem comentas nas peculiaridades do original. Eu quero ser capaz de dizer que um filme ou uma HQ pode simultaneamente ser terrível e ótima, e que nós possamos ridicularizar algo sem misericórdia enquanto mantemos um lugar especial em nossos corações para aquilo também. Nenhum dos filmes que eu resenho no final das edições são realmente “bons filmes” – eles se colocam à margem de outros filmes de ação mais ou menos por terem uma estética excêntrica e um estado de espírito extravagante da luta livre neles – e aquilo, penso eu, é tanto uma experiência de ligação com outros fãs de kaijus quanto é uma experiência estética de assistir os filmes.

E, é claro: qual é o seu filme favorito de kaijus, e por quê?

Eu tenho muitos favoritos. Eu na verdade amo All Monsters Attack/A Vingança de Godzilla, que é o último absoluto na lista para a maioria dos fãs de kaijus. É basicamente um programa com um clipe de filmes anteriores do Godzilla, centrado em torno de uma trama na qual um menino sonha que está ele mesmo na Ilha Monstro. Mas eu e meus colegas de estúdio temos um dia vendo filmes de monstro com as crianças de vez em quando, e eu digo: aquele filme é um sucesso com os menores de 10 anos. Um monte de lutas ridículas, um enredo do mundo real estranhamente atraente, toneladas de pastelão, e basicamente a galeria completa de vilões do Godzilla.

Meu outro principal favorito é a série Ultra. Ultraman e Ultraseven, as duas primeiras séries dos anos 60, são do meu gosto; têm ritmo acelerado, são bobas, extravagantes, e com um ótimo design de monstros. Uma encarnação muito posterior, Ultraman Mebius, realmente me fisgou; havia muito de humor consigo mesma e uma emoção estranha que realmente me manteve assistindo.

Capa de Kaijumax Season Two #1. Arte de Zander Cannon.
Capa de Kaijumax Season Two #1. Arte de Zander Cannon.

Por outro lado, há filmes e séries de prisão que têm uma influência óbvia na primeira temporada. É um outro gênero que você consume de forma pesada, por exemplo?

Filmes de prisão são muito como os filmes de monstro para mim. Eu gosto deles, mas eu não assistiria-os tanto assim se eu não estivesse tentando roubar todas as ideias deles. Eu assisti toda a OZ da HBO, e Orange is the New Black, e uma série de outros filmes, assim como li alguns livros de memórias de prisão e assisti alguns documentários. Em certa altura, eu precisei meio que aliviar as coisas de prisões do mundo real, porque é simplesmente deprimente demais. Eu sou um cara de esquerda politicamente, então ver história após história de como o sistema falhou com aquela pessoa, ou como esse cara pegou prisão perpétua por traficar drogas, ou alguém que se tornou um matador ou um viciado assim que foram mandados para a prisão é desolador, apenas.

Com a segunda temporada, há essa mudança e essa visão que podemos ter desse mundo que antes estava apenas nos diálogos da primeira temporada de Kaijumax. Poderia falar para nós a respeito dessas instâncias de construção do universo na Season Two?

Um dos meus instintos como escritor, infelizmente, é de exagerar na construção de universos. Eu tinha o hábito de me encurralar sozinho ao escrever, fazendo com que as histórias pregressas fossem tão complexas e interconectadas que a história que eu estava tentando escrever não tinha nenhum espaço para respirar. Com Kaijumax, eu estou intencionalmente fazendo o oposto a isso. Eu estou me certificando de que toda história tem um ponto de entrada fácil, que a história pregressa é uma coisa que pode ser meio que presumida e que é apenas referenciada por pontos cruciais no enredo. Porque eu gosto tanto de fazer a construção de universos que eu descobri que posso fazer muito disso enquanto escrevo; eu posso fazer o mundo fazer sentido o suficiente e deixar certas coisas abertas, de forma que eu posso tomar a decisão no dia em que eu escrevo a cena e fazer ela funcionar da melhor forma para aquele momento. Basicamente, eu gosto da ideia de que a Season One tem um corte tão aproximado de uma narrativa de prisão que quaisquer pequenas lacunas na lógica podem ser preenchidas com o que você souber sobre dramas de prisão. Com a Season Two, é mais sobre procedimentos policiais e dramas de máfia e histórias sobre crimes, como The Wire. Obviamente, a ideia de misturar coisas como os monstros e robôs com drogas e gangues é humorística, mas por conta desses gêneros de crime serem tão familiares para nós isso faz a maior parte do trabalho em termos do que você espera e assume, e me previne de ter personagens explicando tudo em profundidade.

Untitled 5

Há outros gêneros que você deseje misturar em quadrinhos algum dia?

Oh, absolutamente. Eu tenho muito amor por coisas de ficção de polpa, como vocês podem provavelmente dizer ao lerem Heck, e eu esperava fazer uma história tipo Conan, O Bárbaro em um futuro próximo, assim como um projeto completamente diferente que é mais como He-Man. E é claro, tendo crescido lendo quadrinhos na América do Norte, eu gostaria realmente de um dia fazer minha abordagem perfeita dos super-heróis. Eu amo super-heróis, mas eu não amo o que as editoras mainstream produzem com eles sempre.

Você tem algum trabalho favorito seu em mais de 20 anos produzindo quadrinhos?

Meu projeto atual é sempre o meu favorito, mas eu teria que dizer que aquele que significa mais para mim é Heck. Eu escrevi e desenhei ele no meu tempo livre enquanto fazia uma centena de outros projetos nos quais trabalhava por contrato, e foi a primeira vez que eu produzi algo que era só meus sentimentos puros na página. É segurado por uma premissa de ficção de polpa, mas todo o coração da história veio do fato de que aquilo foi quando a minha esposa e eu estávamos adotando nosso filho. Então subitamente esse cara com uma escopeta e sua parceira múmia tinham uma relação de pai e filho e o livro se torna um lugar para mim colocar todas as minhas ansiedades sobre a paternidade e mágoa e perda. É certamente meu trabalho menos polido, mas ainda hoje é o que eu amo mais.

Comente

Clique para comentar

2 × 1 =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com