[Editorial] Primeiros passos

Ontem, 30 de junho, um desenho animado clássico do Pateta completou 66 anos. Originalmente intitulado Motor Mania, ele ficou conhecido no Brasil como Sr. Volante. Ele conta a história de Mr. Walker (Sr. Andante, na dublagem clássica), um pacato cidadão de bem que, quando atrás do volante de seu automóvel, se transforma em Mr. Wheeler (ou Sr. Volante), pronto a desrespeitar tudo e todos, graças ao poder adquirido em seu possante veículo. Confira o desenho e acompanhe os passos do personagem, com a dublagem atual, antes de prosseguir.

É incrível como este desenho, dirigido pelo vencedor do Oscar Jack Kinney, prossegue atual. Pessoas que são plenamente educadas e gentis, enquanto caminham a seu lado, podem se tornar verdadeiros monstros por trás de um volante. O carro, nesta história, tem um efeito similar ao da poção ingerida pelo Dr. Jekyll na famosa novela de Robert Louis Stevenson, transformando Pateta numa espécie de Sr. Hyde moderno.

Mas as pessoas não precisam ter um carro para serem como o Sr. Volante. Muitas coisas podem fazer o papel deste objeto. Atualmente, basta um computador conectado à internet para que este fenômeno se atualize.

E a grande verdade é que muitos, muitos mesmo, decidem ser monstros, agindo como touros ensandecidos ante uma capa vermelha, quando tremulada diante deles. Ainda que os touros enxerguem em preto-e-branco. Mas, às vezes, mesmo as pessoas veem cores onde elas não existem.

Muuuuuuuu!
Muuuuuuuu!

Na edição 94 da revista da Turma da Mônica Jovem (TMJ), a roteirista Petra Leão introduz mais uma questão – das várias já colocadas pela autora desde que ela começou a produzir roteiros para a publicação – que diz respeito à condição de valorização das mulheres perante os grupos sociais a que pertencem. E a elas mesmas. Já voltaremos a isto.

O trabalho de Petra é importante para os adolescentes, público-alvo direto da revista. Não apenas para as garotas, que se sentem representadas por personagens femininas fortes e determinadas, mas também para os garotos, que têm a oportunidade de perceber que o mundo machista no qual eles possivelmente foram criados está mudando, rapidamente, e, assim, aprendendo que há como homens e mulheres se relacionarem de modo muito mais saudável.

Um exemplo disto ocorre na edição 69 da revista, publicada em 2014. A protagonista Mônica é pressionada por amigos e relações sociais a se decidir por continuar com Cebola, seu crush de infância, ou apostar em um novo amor, muito bem resolvido em relação à liberdade feminina: Do Contra. Os impactos da decisão reverberam até hoje, fazendo com que estes personagens e a turma a seu redor continuem seu processo de evolução, partindo da adolescência para uma vida adulta mais consciente das responsabilidades de cada um.

Capa da edição 69 de Turma da Mônica Jovem. Arte: Zazo Aguiar.
Capa da edição 69 de Turma da Mônica Jovem. Arte: Zazo Aguiar.

A adolescência é uma fase de descobertas e conflitos. Essencialmente, é na adolescência que descobrimos a essência de quem somos e de quem seremos, ainda que boa parte dos adultos pareça fazer questão de se esquecer desta fase da vida e suas próprias descobertas.

O que cada um descobre sobre si é sempre algo muito particular, eis aqui uma obviedade. O que os jovens fazem destes anos agridoces é com cada um. Mas o que deve haver, e nem sempre há, é respeito pelas decisões tomadas. Porque a verdade é que, à parte dos caminhos que decidamos trilhar, somos pessoas, sem nada a mais ou a menos do que qualquer um.

Mas sabemos como são as coisas numa escola. Adolescentes têm o seu sistema social, que ainda persiste. Valentões talvez discordem do que estou dizendo. Ou jovens mais abastados. Ou ainda os campeões de popularidade. Não é algo que se vença do dia para a noite. Mas também não é algo que tenha de se manter imutável eternamente.

Petra Leão fornece para os jovens armas e escudos sociais, para que possam tanto lutar como se defender do que é oposto ao respeito, ao bem-estar social, aos direitos que cada jovem sabe ter. Expondo grandes temas no quadrinho adolescente mais popular da história editorial brasileira, ela se torna relevante e faz com que TMJ se torne uma revista única, que escapa da água-com-açúcar que poderia ser previsível para este título. Isto, claro, também (e principalmente) é obra de um planejamento editorial dedicado, que sabe dosar tais temas com a diversão e o humor que sempre fizeram parte das publicações comandadas por Mauricio de Sousa.

Pois.

Na edição 94 de TMJ, Mônica se vê diante de um conflito social formado em torno de seus dentes. Ou melhor dizendo, do debate acalorado entre seus amigos e colegas, todos opinando se ela deve ou não usar um aparelho ortodôntico.

Em determinado momento, ela pede para que todos se calem porque, nas palavras dela mesma: “Meu corpo, minhas regras”. É mais uma frase de afirmação feminina: em suma, não é o círculo social que deve ser responsável pelas decisões de uma pessoa, mas, sim, a própria pessoa.

Excerto de Turma da Mônica Jovem 94.
Excerto de Turma da Mônica Jovem 94.

Após a publicação desta revista, em uma postagem na página oficial da TMJ no Facebook, datada de 18 de junho, a imagem acima, fora do contexto, foi colocada em um post com o texto “Mônica rainha, o resto nadinha” e hashtags femininas positivas, como #DonasDaRua, #EmpoderamentoFeminino e #TimeMônica.

Neste post, o perfil oficial esclarece em um comentário que

“meu corpo, minhas regras” é uma das principais frases dos movimentos da luta dos direitos das mulheres :) não é uma patada, rs

Mas comentários posteriores na mesma postagem, de pessoas que aparentam não serem nem leitores da publicação, nem mesmo o público-alvo da revista e que não tiveram acesso ao contexto da revista, associaram erroneamente a questão apresentada na revista à questão do aborto, que em momento algum foi colocada naquela edição de TMJ.

O problema foi quando começaram as ameaças, o desrespeito e a difamação à roteirista Petra Leão, em seus perfis do Facebook e do Twitter, por pessoas que se decidiram por uma interpretação equivocada dos fatos e que, também, acreditam que o linchamento público é um ato social válido para este tipo de situação.

Versões modernas do Sr. Volante, ou de touros bravos em uma arena, ou ainda do monstruoso Sr. Hyde, essas pessoas se valem de uma pretensa segurança para desfilarem uma espécie de poder que elas acreditam possuir, baseado na intimidação e no constrangimento.

Sr. Hyde 1931 passos
É bonito ser feito, Sr. Hyde?

Obviamente, este tipo de situação é constrangedora para a roteirista. Mas, curiosamente, não o foi para Marcelo Cassaro, que também assina os roteiros da edição. Em qualquer momento ele foi interpelado ou constrangido, mesmo estando creditado com ela no expediente da publicação. O que também configura, além da covardia da ação intimidatória, um ato de machismo, ainda que cometido tanto por homens como por mulheres. Algo que foi denunciado pelo próprio Cassaro.

Em julho de 2011, em uma entrevista para o fansite TMJMania, Petra Leão descreveu o processo de produção de uma história para a revista:

O trabalho é feito em casa mesmo, e enviado para avaliação do Mauricio, Marina e Alice por email. Eu escrevo a história e envio para o Cassaro, que faz o storyboard (rascunho das páginas). Só assim para dar conta de 120 páginas por mês! Em compensação, temos que ficar conectados o dia inteiro! Só vamos à MSP [Mauricio de Sousa Produções] quando temos reuniões com assuntos longos e complicados demais para resolver pela internet (risos).

Mesmo sendo um processo que envolve decisões certamente pensadas dentro de um planejamento editorial, e mesmo que o discurso de ódio seja completamente errôneo, ela foi escolhida como alvo único por pessoas que utilizam uma espécie de lógica distorcida que Nico Fagundes, criador do icônico programa gaudério Galpão Crioulo, um dia ousou explicar.

Profissionais dos quadrinhos, indistintamente de sexo ou ideologias, saíram em defesa da roteirista e de seu trabalho nos últimos dias, bem como se posicionaram contra o ataque insensato sofrido por Petra Leão. Também é isto que o Terra Zero faz, neste momento.

Sabemos que existe espaço para críticas. O trabalho de ninguém é infalível. Apenas acreditamos que todo debate e pensamento crítico deva ser feito com argumentos reais, baseados em fatos concretos, não em factoides, palpites, achismos ou convicções pessoais que, por mais sinceros que sejam, nada tenham a ver com a obra a ser criticada.

Por mais que nossos arredores pareçam estar cada vez mais cheios de Senhores Volantes (por que eles buzinam mais? por que eles gritam mais no trânsito? por que eles acham que o carro deles é mais possante?), a verdade é que o mundo está mudando, ficando mais igualitário, justo, ainda que alguns não queiram.

Aqueles que escolhem dar os primeiros passos em direção a esta simples observação também voltam a caminhar, a ser Senhores Andantes. Renasce o respeito pela opinião alheia (mesmo que haja discordância) e o bom senso. Ressurge um horizonte impossível de se apreciar em velocidade bestial. Principalmente, retorna-se a perceber a individualidade, a pluralidade, a diversidade.

Na vida de cada um, ninguém mais deve impor regras.

1 Comentário

Clique para comentar

3 × três =

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com