[Review] Civil War II #1, de Brian Michael Bendis e David Marquez

O mundo conheceu as origens do Inumano Ulysses na edição zero de Civil War II, publicada no final do mês passado. Naquela oportunidade, o autor Brian Michael Bendis também destacou as principais peças que dão início ao novo conflito super heroico do universo Marvel. Agora, começa de fato o maior evento Marvel do ano de 2016.

Confirmando a enorme quantidade de boatos ventilados previamente a respeito do roteiro da saga, aqui descobrimos que o jovem Ulysses é um Inumano com a capacidade de prever eventos futuros com certa precisão. Isso fica demonstrado na primeira parte desta edição – que é basicamente um daqueles “todos os heróis Marvel contra uma ameaça gigante em Nova York”. Após a vitória, Ulysses é apresentado à comunidade super heroica e a natureza de seus poderes divide opiniões. Mas não é só isso: Para deixar a coisa ainda mais dramática, duas mortes de personagens queridos acentuam ainda mais as divergências entre os dois lados. O conflito maniqueísta de Bendis aqui é representado pela Capitã Marvel, partidária de utilizar o poder do Inumano para prevenir eventos futuros e, do outro lado, o Homem de Ferro, receoso em combater ameaças que ainda não surgiram.

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O roteiro de Brian Bendis é estruturalmente bem simples: Uma grande cena de batalha, seguida de uma grande reunião com praticamente todos os heróis da Marvel e em seguida a tragédia que culmina no “racha” entre os super heróis. O ponto forte do autor continua sendo sua capacidade para escrever diálogos casuais convincentes e humanos, dando vozes distintas para um grande elenco e humanizando bastante este início de trama. Além disso, temos um ritmo narrativo muito fluido e as quase 40 páginas de história podem ser lidas com muita facilidade. Por outro lado, ao focar demais no aspecto humano através de diálogos e piadinhas, o escritor falha em estabelecer motivações antagônicas convincentes para ambos lados do conflito.

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Ainda não se sabe muito sobre Ulysses. Esta falta de informação, somada à personalidade insegura deste personagem, não são suficientes para convencer o público de que aquilo que ele prevê é de fato algo certeiro. A falta de uma sustentação mais concreta deste aspecto da premissa torna as atitudes da Capitã Marvel bastante imprudentes e impulsivas, e nos faz automaticamente simpatizar com Stark. Outra falha gravíssima é banalizar a morte de dois personagens emblemáticos da Marvel. Sem uma sequência heroica para valorizar seu sacrifício, os dois supostos “mártires” ganham facilmente a função de meras ferramentas narrativas para pôr a história em movimento. As páginas gastas inicialmente em um conflito completamente genérico com uma ameaça Celestial (que tiveram muito pouca serventia, na prática) poderiam muito bem ser usadas para dar um final digno para estes dois ícones da Marvel.

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Assim como o roteiro de Bendis, a arte de David Marquez em Civil War II é irregular e por vezes se apresenta com aspecto meio apressado. Repare que em qualquer cena de ação com mais de cinco personagens por quadros (e são muitas, principalmente no início) o nível de detalhe em caracterização diminui drasticamente em relação às cenas com menos personagens ou com closes em um único indivíduo. Com isso, aquelas cenas de batalhas super heroicas, que serviriam ao menos para agradar o público que não se importa muito com conteúdo de roteiro, ganham uma apresentação muito abaixo do esperado para uma saga deste tipo. Em outras cenas mas íntimas e com menos ação, no entanto, Marquez faz um trabalho de fato muito bonito, com expressões faciais extremamente convincentes e toda a carga dramática que o roteiro pede. Isso mostra claramente que o artista tem potencial para realizar este tipo de apresentação de forma satisfatória, dadas as condições de trabalho adequadas. Entretanto, no geral, Civil War II #1 tem muito menos impacto visual do que deveria, tendo em vista a magnitude da trama proposta e a presença de personagens tão marcantes.

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Aos primeiros anúncios de Civil War II, o corpo editorial da Marvel deixou claro em entrevistas que a saga teve um tempo um pouco mais curto de planejamento em comparação com outros eventos desta natureza. Isso fica evidente na primeira edição do arco. Apesar das 36 páginas desta revista, o formato de roteiro apresentado por Brian Bendis não dá motivações uniformes para os dois lados do conflito, não estabelece uma figura central que seja motivo suficiente para o embate e desmerece o sacrifício de dois personagens queridos da editora. A arte de David Marquez não fica atrás e é um festival de irregularidades, com cenas muito bonitas em momentos, mas em geral muitas páginas inexpressivas ou mesmo apresentadas de maneira apressada.

Edições de estreia, principalmente se tratando de “mega eventos” e mais ainda continuações de histórias de sucesso, como é o caso aqui, têm a obrigação de igualar ou superar o trabalho de origem para evitar comparações. Bendis e Marquez aqui não chegam nem próximos da primeira edição produzida pela dupla Mark Millar e Steve McNiven na Guerra Civil original (que também não é lá essas coisas). Apesar desta nova Guerra Civil ter um mote interessante, bons diálogos e ainda ter muita lenha para queimar nos próximos meses, a estreia apresentada desta forma torna-se um pouco desmotivadora.

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