[Jab] Nighthawk #1, de David F. Walker e Ramon Villalobos

Dos novos títulos Marvel pós-Guerras Secretas, talvez os mais dificeis de lidar e, consequentemente, conquistar uma audiência sejam os relacionados ao elenco da equipe multiversal agora denominada Esquadrão Supremo. Seja no caso do título homônimo da equipe, escrito pelo veterano James Robinson, ou no recente Hyperion, de Chuck Wendig, há uma certa apatia do público por estes personagens, que comumente são descritos de maneira pejorativa como “cópias” de franquias da editora concorrente.

De fato, o elenco de Esquadrão Supremo por muitos anos serviu como um reflexo meio distorcido de bastiões da DC Comics dentro do multiverso Marvel. Entretanto, os anos se passaram, a proposta editorial da empresa teoricamente avançou nestas linhas narrativas e agora temos o elenco de personagens oriundos de encarnações do Esquadrão Supremo se integrando ao grande mosaico da editora. Portanto, a tarefa dos bravos David F. Walker e Ramon Villalobos em Nighthawk #1 é tão árdua, arriscada e ingrata quanto a do próprio personagem com o qual trabalham nesta estreia.

Nighthawk-1

O principal obstáculo a ser superado por qualquer roteirista em Nighthawk é desassociar o personagem de comparativos com o maior vigilante noturno da editora concorrente (você sabe de quem estou falando). Kyle Richmond (atualmente usando a identidade de Raymond Kane) é a clássica figura do milionário obcecado por justiça após sofrer uma tragédia pessoal irreparável. Usando codinome Falcão Noturno, com um avançado treinamento de combate e investigação, além de um arsenal de traquitanas a ser favor, o vigilante originalmente oriundo da Terra-31916 do Multiverso Marvel pré-Guerras Secretas agora patrulha as ruas da violenta Chicago da Terra Prime da editora.

David Walker escreve uma primeira edição extremamente eficiente, tanto para apresentar o personagem para o público quanto para definir núcleos narrativos e linhas de histórias a serem traçadas daqui para frente. O Falcão Noturno (e, por consequência, sua identidade secreta) aqui é um dos personagens mais sérios, tácitos, violentos e pragmáticos da Marvel atualmente. Essa postura fica clara nas primeiras cenas. O contraste entre a personalidade amarga de Richmond é estabelecido através do apoio tático do herói, aqui na figura da jovem Tilda Johnson – sem sua presença a história toda tenderia às cenas de ação sem diálogo algum, pois a diretiva de Richmond é bater (e bater duro) em criminosos, e não conversar. Adicionalmente, Walker estabelece um mistério investigativo interessante, além de um desafio para seu protagonista no âmbito pessoal.

Nighthawk-2

Por mais que gostemos de uma boa história de investigação urbana, um personagem violento fazendo justiça com as próprias mãos, uma caçada a um assassino serial sádico e cenas de um personagem negro empoderado enfiando a porrada em criminosos adeptos da supremacia branca norte-americana, esta primeira edição de Nighthawk dificilmente vai surpreender alguém. Tudo aqui escrito e planejado por Walker é feito com esmero, noção de tempo narrativo e pontuado com diálogos muito humanos. Entretanto, todo este esforço e qualidade no roteiro talvez não sejam suficientes para diferenciar o Falcão Noturno de qualquer outro vigilante noturno publicado no mercado. As cenas de ação, as passagens mostrando o trabalho policial na cidade de Chicago, a interação do protagonista com seu apoio tático, as cenas de seu alter-ego e principalmente os flashbacks familiares reforçam demais todos aqueles clichês que nós lemos há milhares de anos em gibis deste tipo. Por mais que esta seja uma história acelerada e muito bem escrita do Falcão Noturno, o personagem ainda sofre e vai sofrer com o estigma de vigilante noturno urbano. Não é esta estreia que vai mudar isso.

A arte de Ramon Villalobos em Nighthawk é extremamente eficiente. O estilo caricaturesco do artista lembra muito o atual traço de Steve Scroce e também tem um “quê” de Frank Quitely na caracterização do elenco. No entanto, apesar da apresentação similar, a fotografia de Villalobos é simplesmente impelente nas cenas de ação, certeira nas doses de violência, impactantes nos pontos cruciais de diálogos e muito funcional com o roteiro de Walker. O entrosamento roteiro / arte fica evidente principalmente nas cenas de investigação na cena do crime, que normalmente são mais paradas e direcionadas para o diálogo. Nestas, Villalobos usa a linguagem corporal e posicionamento sutil de câmera para dar dinamismo e enriquecer o conteúdo do roteirista. Nas cenas de ação, portanto, o ilustrador nos dá o cartão de visitas do Falcão Noturno – violência inclemente e brutalidade extrema, tudo fotografado e caracterizado da maneira mais clara possível, para que não haja dúvida sobre quem está agredindo quem e como está fazendo isso. Uma apresentação das mais distintas da linha de quadrinhos da Marvel atualmente que contribui muito para dar identidade a esta publicação.

Nighthawk 3

Nighthawk sofre do mal do vigilante noturno amargurado. Apesar de um roteiro muito consistente e honesto, do ótimo ritmo e dos diálogos muito bem feitos, todos os elementos presentes em histórias de vigilantes urbanos estão ali martelando na cabeça do leitor o tempo todo que isto aqui não tem absolutamente nada de novo no gênero. Todavia, para quem curte um bom gibi criminal com ação, violência, investigação e roteiro elétrico, talvez Nighthawk seja uma das melhores estreias de títulos desse gênero no mercado nos tempos recentes. Com uma arte que fica impressa na cabeça do leitor e um personagem bastante marcante na Marvel, esta publicação pode agradar quem estiver disposto a encarar a proposta dos autores.

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