[Editorial] Viés

No último final de semana, a imprensa nacional e internacional deu destaque a um caso de estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro. Este caso suscitou as mais diferentes reações, inclusive do governo interino da nação. Nas redes sociais, é claro, vimos mais um exemplo claro da estética do confronto, assunto que já foi tema de editorial do Terra Zero, em 2015. Vale uma releitura naquele texto antes de você seguir em frente. Vai lá, depois clique no backspace do seu teclado (é bom conhecer as teclas de atalho!) e volte aqui.

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Pode ir, temos tempo. Não é o fim do mundo.

A questão é que, pouco mais de um ano depois, as questões nacionais se exacerbaram de tal modo que as guerras se tornaram palpáveis no mundo real, extremadas e, para cada lado envolvido, plenamente justificadas. Notadamente a política tem sido protagonista – ou, melhor colocando, antagonista – nesta história viva na qual estamos todos envolvidos, em tempo real.

O embate entre ideologias, que assume cores definidas no espectro que vai da ultradireita à extrema esquerda, surge em quaisquer exposições de ideias, de modo pouco ou munito incisivo, com argumentos pontuais ou opiniões pouco embasadas, conectando universos aparentemente irrelacionáveis. No caso do estupro coletivo no Rio, um fato que tem conotações policiais e sociais acabou se conectando, por exemplo, ao campo dos quadrinhos, devido à declaração do artista Allan Goldman no Facebook sobre o assunto.

A culpabilização da vítima do estupro por parte de autoridades policiais cariocas é apenas um exemplo do tipo de coação que ocorre nesses casos. Começamos a prestar atenção a tal tipo de reação há muito tempo, mas o componente conservador da sociedade vem sendo contestado, de modo enfático, apenas nas últimas décadas, muito devido às novas interações sociais promovidas pela internet. Um dos casos mais emblemáticos, no Brasil, foi a hostilização da então estudante de turismo Geisy Arruda, devido ao seu vestido considerado curto demais por parte dos alunos.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=d6Gd62q3DOQ[/youtube]

O que aconteceu com a paulista de Diadema no dia 22 de outubro de 2009, hoje, incendiaria as redes sociais de modo muito mais enfático do que à época. Mas ficar do lado de Geisy Arruda, bem como tomar partido a favor de outras questões sociais como, por exemplo, a igualdade ou a identidade de gênero, direitos civis, o multiculturalismo e, por que não, o politicamente correto e o progresso social, pode parecer lógico nos tempos em que vivemos. Mas não para todos.

Em 2011, a comunidade gamer se viu envolvida em uma controvérsia acerca do sexismo e do progressismo nos jogos eletrônicos, iniciada pelo lançamento do jogo independente Depression Quest, criado por Zöe Quinn. Conhecido por GamerGate, o episódio, que envolveu acusações de misoginia e racismo no mundo gamer, bem como ações de cyberbullying, marcou o início do uso negativo do termo “social justice warriors” (em português, “guerreiros da justiça social”), que se acentuou durante a ação do grupo intitulado Sad Puppies para manipular a seleção dos indicados ao Prêmio Hugo de Ficção Científica, em 2015.

Este termo, amplamente divulgado entre os defensores das políticas do espectro da direita, chega aos quadrinhos brasileiros, graças à declaração de Allan Goldman sobre o rompimento de seu contrato com a agência Chiaroscuro, que o representava nos EUA junto a algumas editoras, publicada no jornal O Globo e reproduzida pelo Terra Zero. Este caso, é bom que se diga, não é o tema deste editorial.

Porém, para fins ilustrativos, este texto tomará, como exemplo, a expressão utilizada por Goldman: “social justice warriors”.

Uma das questões está na raiz do uso negativo do termo, iniciado no caso GamerGate. Originalmente, o termo foi historicamente utilizado para designar personagens notórios que lutaram por direitos humanos e civis, como o estadunidense Martin Luther King, Jr. e o indiano Mohandas Gandhi. Já o principal ponto para a mudança de conotação do termo no século 21 está no fato de que os seus utilizadores defendiam que tais “guerreiros” fariam a defesa de posições sociais não por qualquer convicção arraigada, mas para promoção pessoal.

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Um guerreiro da justiça social, segundo a definição original do termo.

Porém, em pouco tempo, a expressão se tornou indiscriminadamente utilizada por pessoas alinhadas à direita do espectro político – e geralmente ligadas a algum ramo cultural – para descrever ou atacar, muitas vezes pejorativamente, ativistas sociais contrários às posições delas.

Há um problema intrínseco no uso do termo e este, sim, é o cerne do assunto deste editorial. É o mesmo problema que existe na utilização de outros termos tornados (ou criados intencionalmente para serem) pejorativos, como feminazi, petralha, coxinha, tucanalha, entre tantos outros que poderiam ser elencados aqui: eles são rótulos. E, como todo rótulo, ele traz embutido, dentro de si, não uma opinião ou uma definição, mas um viés.

Segundo o dicionário Priberam, viés é definido como “distorção ou tortuosidade na maneira de observar, de julgar ou de agir”. No caso dos rótulos, o viés é um julgamento distorcido em relação à realidade factual, inferindo conotações reducionistas a quem (ou o que) é rotulado.

rótula
Eu disse rótulo, não rótula!

Qualquer análise crítica sobre episódios que envolvam questões sociais, de identidade, de gênero e multiculturais deve ser, na opinião do Terra Zero, feita do modo mais racional possível. Procuramos manter este direcionamento em nossa prática jornalística, isolando o factual da opinião, justamente para não contaminarmos nossos textos com vieses de nenhum tipo.

brain cérebro
Em caso de dúvida, use o cérebro

Do mesmo modo, pessoalmente, cada um dos integrantes do site possui suas opiniões sobre todos os assuntos, dentro e fora do mundo dos quadrinhos. Não há homogeneidade entre nós e, sim, acreditamos que a pluralidade de pensamento é uma das grandes forças do Terra Zero, pois há sempre debates importantes entre a equipe sobre todos os assuntos que estejam na pauta do dia, sejam relacionados aos quadrinhos ou não.

Já nos manifestamos, em editoriais, acerca da nossa crença na multiversidade, na liberdade intrínseca do amor e também sobre a valorização do fato acima de qualquer crença pessoal. Acreditamos nisso porque percebemos as mudanças, cada vez mais rápidas, não só nos quadrinhos, como também no mundo. Bem como observamos as reações contrárias a estas mudanças, cada vez mais incisivas. Estaremos atentos a tudo, conscientes de que o que se pode ser apurado, factualmente, sempre será mais importante do que confrontos baseados em divergências poucas vezes racionais.

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