[#Pitaco] Arqueiro Verde e sua relevância para o cenário social brasileiro

Depois de manter no mercado brasileiro duas revistas mensais do Arqueiro Verde, publicadas entre 2013 e 2016, a Panini Comics cancelou o título e resolveu investir em Esquadrão Suicida e Arlequina, que estarão no cinema em agosto deste ano. Isso, é claro, não está impedindo a editora de investir em Oliver Queen. Pelo contrário.

A fim de manter no mercado publicações com o astro do seriado Arrow, a Panini resolveu publicar algumas de suas novas histórias em um encadernado bem acessível e de acabamento aprimorado. Arqueiro Verde: Pássaros da Noite contém as aventuras publicadas originalmente em Sneak Peek: Green ArrowGreen Arrow #41-44Green Arrow Annual 1.

Capa do encadernado Arqueiro Verde: Pássaros da Noite. Arte de Patrick Zircher.
Capa do encadernado Arqueiro Verde: Pássaros da Noite. Arte de Patrick Zircher.

Para este Pitaco, porém, nem todas essas histórias serão levadas em consideração. Na verdade, apenas as três primeiras importam, escritas por Benjamin Percy e desenhadas por Patrick Zircher.

Zircher é um artista veterano e já trabalhou nas maiores editoras dos Estados Unidos; Percy, por sua vez, é bem novo no mercado e, em termos de publicações no Brasil, começou a ser conhecido pelos fãs através do quadrinho Convergência: Flash e a Força de Aceleração, publicado recentemente pela Panini. Lá fora, o trabalho de Percy em Arqueiro Verde deu tão certo que a nova revista do personagem, estrelada pelo herói e pela Canário Negro, está sendo escrita pelo autor e vendeu cerca de 90 mil cópias em sua primeira impressão. Uma segunda tiragem já foi confirmada pela DC.

Dito isso, é importante destacar como o Arqueiro Verde é um personagem que, a partir de determinado ponto de sua história, sempre se relacionou com movimentos sociais e refletiu aspectos sociopolíticos de seu tempo. Isso aconteceu principalmente entre os anos 1960 e 1970, quando Dennis O’Neil e Neal Adams fizeram histórias do personagem vagando pelos Estados Unidos ao lado do Lanterna Verde da época, Hal Jordan, vendo de perto as mazelas das minorias do país. Aquelas histórias continham uma série de críticas sociais e se tornaram um dos melhores documentos de protesto publicados pela DC contra o racismo e a desigualdade social.

Página de Lanterna Verde/Arqueiro Verde de Dennis O'Neil e Neal Adams.
Página de Lanterna Verde/Arqueiro Verde de Dennis O’Neil e Neal Adams.

Há algum tempo, porém, o Arqueiro Verde não estava se relacionando tanto com assuntos assim. Ainda que ele lute contra o crime e a desigualdade em Seattle desde que a DC instituiu seu novo universo cronológico com o selo Novos 52, em 2011, foram essas recentes histórias de Percy que trouxeram o mesmo aprofundamento social visto nas histórias de O’Neil e Adams, há mais de 40 anos.

O mais interessante dessas novas histórias é notar como elas podem ser relacionadas à recente realidade brasileira. Porém, é importante deixar claro para você, Zeronauta, antes de essas ideias serem melhor desenvolvidas, que este não é um manifesto político, tampouco um texto defendendo ou acusando determinada vertente política. Trata-se da comparação entre o que é mostrado em um quadrinho recém lançado e a realidade que o país vive atualmente.

Na história do encadernado, o Arqueiro Verde se vê obrigado a enfrentar uma força policial tecnológica chamada Panóptico, que são robôs com inteligência artificial capazes de reconhecer criminosos à distância. O nome veio de um conceito homônimo criado pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham. Sua ideia era criar o sistema penitenciário perfeito, no qual uma torre central observaria os prisioneiros espalhados por toda a penitenciária. Além disso, através do tal panóptico, o prisioneiro se sentiria tão vigiado que nem precisaria ver os guardas para saber que estavam de olho nele.

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Panóptico mata criança que roubou para comer.

O Panóptico apresentado na HQ é uma tecnologia de inteligência artificial oferecida a empresas de segurança e às próprias forças de segurança pública, a fim de pegar criminosos em flagrante ou, mesmo, ladrões em potencial. Aaron Zimm, criador da tecnologia, tem seus próprios objetivos com isso, já que ele mesmo se define como um supremacista, um homem que quer ver apenas “as pessoas de bem” sobrevivendo perante o lâmina destemida – e, nesse caso, completamente cega e equivocada – da justiça. Ao lado dele está Pássaro da Noite, o racista branco que dá nome a esse encadernado.

Os ataques dos Panópticos, guiados pelas diretrizes oferecidas por Zimm e Pássaro da Noite, acabam complicando a já injusta situação social de Seattle. Durante suas ações, são mortos negros, crianças abandonadas que roubaram comida devido à fome e, principalmente, moradores de Pennytown, um bairro de periferia abandonado e esquecido pela sociedade e pelo poder público.

A brutalidade da máquina para com a uma criança (ilustrada acima) serve como reflexo do dia a dia da realidade brasileira. Recentemente, um garoto de dez anos foi morto pela Polícia Militar na Zona Sul da cidade de São Paulo durante uma perseguição e o caso chocou o país. Defendendo-se, ao alegar que houve disparos do carro em que a criança estava, os policiais viram na manhã de quinta-feira (09) peritos divulgarem que a cena do crime foi alterada, indicando que a PM simplesmente assassinou a criança. Tamanha brutalidade é o que Aaron Zimm e Pássaro da Noite querem implantar na sociedade na história de Percy e Zircher.

Minorias de Pennytown finalmente são vista, protestando por igualdade.
Minorias de Pennytown finalmente são vistas, protestando por igualdade.

 

Negro morto na história do Arqueiro Verde.
Negro morto na história do Arqueiro Verde.

Com tantos negros sendo mortos em Pennytown, o bairro começa a ser visto pela mídia e o povo de lá começa um processo de mudança: os pacíficos se levantam, se revoltam e protestam. Por igualdade, por justiça, ou simplesmente para serem vistos como seres humanos. No Brasil, há uma sequência de protestos iniciados em 2013, pelos mais diversos motivos e com as mais diversas agendas políticas. Nem grandes nomes da mídia têm escapado desses protestos.

O caso mais recente e mais importante a ser destacado é o caso de estupro coletivo em uma menina de 16 anos no Rio de Janeiro. Ele gerou movimentação do público nas redes sociais e nas ruas, o que finalmente fez a sociedade entender melhor o que é a cultura do estupro e como as mulheres sofrem regularmente com assédios de todos os tipos. Ou seja: como na HQ, foi necessária uma tragédia para a maior parte da população se movimentar pelo bem de todos os grupos sociais.

Outro detalhe interessante de se notar é que, frente ao constante levante de extrema-direita visto no cenário político brasileiro, é importante saber destacar o que Aaron Zimm define como “ser supremacista” e o que se vê no Brasil. São coisas diferentes, ainda que haja semelhanças.

Segundo o filósofo Renato Janine Ribeiro, da USP, em palestra dada em 2015, a extrema-direita brasileira tem adotado uma agenda baseada em costumes, atacando em cheio os direitos humanos em favor de suas ideias. Portanto, o objetivo de políticos dessa vertente tem sido conseguir popularidade se valendo de discursos que defendam ideias compartilhadas por grupos sociais homogêneos, utilizando-se, para isso, de um reducionismo do discurso (recurso enfocado em nosso último editorial).

Observar tudo isso é fundamental para se ter uma compreensão melhor desse arco de histórias do Arqueiro Verde. Ainda que ele tenha sido escrito por um autor estadunidense e seja baseado na cultura dos EUA, a história de Percy e Zircher tem muito a ver com a ascensão da extrema-direita vista não apenas aqui, mas também em alguns países europeus.

Enquanto o Pássaro da Noite é racista e quer eliminar os negros, Zimm tem uma visão mais política. Seu desejo é eliminar qualquer cidadão que destoe do que ele considera ideal para a sociedade. Ou seja, ele quer matar pessoas que tenham costumes diferentes ou que estejam em posições sociais diferentes das que são de seu interesse. Branco e empresário de sucesso, Zimm é o arquétipo do homem de negócios que apoia diretrizes sociopolíticas benéficas apenas para os pequenos grupos privilegiados da sociedade.

Tal perfil tem sido visto com frequência no Brasil e, claro, nos Estados Unidos, com a candidatura republicana de Donald Trump se consolidando há um bom tempo. A ascensão de extrema-direta retratada na história é semelhante, dadas as devidas proporções, ao que vem acontecendo, por exemplo, na Áustria, que, não custa lembrar, é a terra natal de Adolf Hitler.

O Panóptico é apresentado para a polícia na HQ do Arqueiro Verde.
O Panóptico é apresentado para a polícia na HQ do Arqueiro Verde.

A falta de acerto de contas com o passado, é o que apreendemos, só causará problemas no futuro. Logo, Oliver Queen pode ser um empresário de sucesso, mas é também alguém inconformado com o status quo. Diante do Panóptico e das ações descabidas de Zimm e do Pássaro da Noite, o herói admite seus erros (sua empresa foi uma das financiadoras dessa tecnologia), faz as pazes com o presente e busca melhorar o futuro. Para todos.

Oliver Queen representa todo homem e mulher que levanta a cabeça no meio da multidão e clama por justiça e igualdade, sem preconceitos.

O final da história é catártico e certamente fará qualquer leitor de senso crítico refletir um pouco sobre o que leu e o vê diariamente nos jornais e na TV.

No fim das contas, o mais impressionante é notar como um arco de histórias de apenas três capítulos tenha tanto a dizer, ainda mais em uma época em que os quadrinhos de super-heróis pouco refletem as mazelas da modernidade. Benjamin Percy, claramente, é um autor que entende o Arqueiro Verde como poucos, sendo capaz de capturar os elementos mais interessantes da versão do personagem vista atualmente na série de TV Arrow e do social justice warrior (no sentido original do termo) dos anos 1970 estabelecido por O’Neil e Adams.

Arqueiro Verde – Pássaros da Noite é um excelente quadrinho, como diversão e como material de reflexão.

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