[#Review] DC Universe: Rebirth #1

DC Universe: Rebirth #1 chegou à meia-noite de hoje às comic-shops norte-americanas e nas plataformas digitais de quadrinhos. O que parece ser a despedida do escritor Geoff Johns das HQs (pelo menos por um tempo) tinha como função reconectar os leitores a antigos conceitos do Universo DC, trazendo de volta algumas tradições que foram abandonadas quando o selo Novos 52 foi instituído em 2011. A decisão, aliás, ainda hoje é vista com controvérsia e Johns, que a princípio não gostou da iniciativa, não deixou de tocar no assunto enquanto narrava os eventos de DC Universe: Rebirth.

Rebirth, a nova iniciativa da DC que dará origem a um renovado universo ficcional, começa em junho nos Estados Unidos, com novos títulos mensais e quinzenais e novas equipes criativas. Mas o que Johns fez de verdade nessa edição introdutória? Por que houve tanto burburinho sobre ela no último final de semana? É hora de descobrir as respostas, Zeronauta. E atenção: há spoilers!

alerta-spoiler

Quem narra a história é Wally West. O antigo, ruivo, criado em The Flash #110, de dezembro de 1959, por John Broome e Carmine Infantino como o primeiro Kid Flash. Não tinha como ser diferente. Todas as grandes mudanças editoriais da DC desde a saga Crise nas Infinitas Terras, publicada em 1985, têm relação direta com algum velocista. Para quem não se lembra, nessa história, Barry Allen dá a vida para enfrentar o Anti-Monitor e impedir que todo o Multiverso seja destruído. Na época, Wally, seu sobrinho, assumiu o manto do Flash e se manteve assim até 2011, com alguns percalços no meio do caminho.

Desde então a DC fez outras sagas que mudaram seu universo, mas a mais importante desde a Crise foi Ponto de Ignição (Flashpoint), de 2011. Nela, todo o Universo DC muda graças a uma alteração no rumo das coisas causada por Barry (que ressuscitou na saga Flash: Renascimento, de 2009). Essa história, também escrita por Geoff Johns, fez a ponte entre o velho Universo DC e a instituição dos Novos 52. A arte de Andy Kubert (abaixo) ilustra bem o momento da transição entre o velho e o novo universo:

Página dupla de Ponto de Ignição por Andy Kubert.
Página dupla de Ponto de Ignição por Andy Kubert.

Agora chegou a hora de abandonar os Novos 52 e trazer velhos conceitos de volta. Em DC Universe: Rebirth tudo é contado por ele em primeira pessoa por Wally. O leitor é convidado a acompanhar toda sua trajetória de retorno ao Universo DC, enquanto presencia momentos que lembram as cronologias pré e pós-Novos 52. O que Wally precisa é que algum personagem se lembre de sua existência para que ele seja puxado para fora da Força de Aceleração e se torne real. Ele está lá desde Flashpoint, e alega que começou suas tentativas assim que Darkseid foi morto pelo Anti-Monitor em Darkseid War, última saga da Liga da Justiça, também finalizada hoje em Justice League #50, também escrita por Johns. Barry Allen, seu tio, é quem finalmente o reconhece, depois de Wally pedir ajuda para vários outros super-heróis – inclusive o Batman.

Vale lembrar que enquanto essa aventura se desenrola, Johns pontua diversas críticas ao que foram os Novos 52, deixando claro que DC Universe: Rebirth é mais que um renascimento – é um resgate de conceitos pelo qual os leitores clamavam desde 2011.

Arte promocional de DC Universe Rebirth por Ivan Reis.
Arte promocional de DC Universe Rebirth por Ivan Reis.

Tudo foi feito pelo roteirista com muito esmero. O cuidado dele ao caracterizar personagens e mostrar o retorno de ideias abandonadas no reboot 2011 é muito grande e respeitoso. Acompanhado de grandes artistas da DC como Ivan Reis, Joe Prado, Gary Frank, Ethan Van Sciver e Phil Jimenez, Johns fez sua declaração de amor definitiva ao Universo DC em um conto repleto de nostalgia e reviravoltas interessantes. Mais que isso, o autor deixou um campo aberto para que seus sucessores no Universo DC injetem novas ideias em velhos e queridos personagens.

Obviamente, um trabalho deste calibre não viria sem polêmica. Geoff Johns inseriu algumas ideias que causaram controvérsia, em especial a utilização de conceitos oriundos de Watchmen, o seminal quadrinho desconstrutor do gênero de super-heróis criado por Alan Moore e Dave Gibbons nos anos 1980. Fica claro que o criador do Universo DC pós-Novos 52 foi o Dr. Manhattan, com Johns explicitando que isso foi fruto da visão cínica dada por Watchmen ao universo dos super-heróis. O Dr. Manhattan literalmente roubou dez anos de cronologia e, pondo em prática a teoria do caos (assim como no quadrinho de Moore e Gibbons), isso desencadeou o surgimento de um novo universo influenciado pela sua forma de ver o mundo.
dcrebirth4

Portanto, o que Wally West faz ao voltar ao mundo é diluir o cinismo, substituindo-o pelo otimismo e pela esperança características do Universo DC pré-Novos 52. Cada tentativa dele de voltar para a realidade causava novas mudanças na cronologia do UDC, e Johns e os artistas da revista ilustram isso muito bem ao fazerem metáforas com relógios e o passar do tempo, tal qual Moore e Gibbons fizeram em Watchmen. Aliás, o retorno da esperança e o sumiço do cinismo fez o clássico “relógio do fim do mundo” de Watchmen recuar, deixando claro aos fãs que eles estão diante de um universo restruturado, onde o fim do mundo está mais distante.

Fora isso, há alguns detalhes importantes, como o conceito de “legado” ser aplicado ao Coringa, por exemplo. A história deixa claro que houve mais de um Coringa em ação da mesma forma que já houve mais de um Batman, de um Superman etc. Claro que o Coringa não é o primeiro vilão da DC a ter esse conceito – vide Capitão Bumerangue, por exemplo – mas certamente é o mais importante.

Agora há também dois Wally West. O afro-americano, que também está na série de TV do Flash, tem parentesco com Barry. Na verdade, o chamado “Wally dos Novos 52” é filho de Daniel West e é primo de Barry Allen. Já o “velho Wally” é filho de Rudy West. A família West estava desmembrada e os filhos de Daniel e Rudy acabaram ganhando o nome do avô (Wallace West). Como será a dinâmica da Família Flash a partir de agora ainda é um mistério. Mas já foi revelado pela DC que o “velho Wally” fará parte dos Titãs, um grupo de super-heróis mais jovens que a Liga da Justiça e que foi formado em uma minissérie intitulada Titans Hunt (de Dan Abnett e artistas como Paulo Siqueira e Paul Pelletier).

Wally West está de volta! Arte de Brett Booth e Norm Rapmund.
Wally West está de volta! Arte de Brett Booth e Norm Rapmund.

Por fim, vale destacar o retorno do Superman clássico, visto na minissérie Lois & Clark (de Dan Jurgens). Este Superman é o pré-Novos 52, ou seja, é aquele que se casou com Lois Lane, que morreu e ressuscitou após uma sangrenta batalha contra o monstro Apocalypse no centro de Metrópolis. O Superman dos Novos 52 morreu. Agora, Clark e Lois têm um filho e ele será um super-herói integrante do grupo Novos Titãs, os mais jovens heróis do Universo DC, que agirão sob a liderança de Damian Wayne, o filho do Batman – que também conta com o “novo Wally” ao qual fomos apresentados nas revistas do Flash dos Novos 52.

Há também vários outros sub-plots em DC Universe: Rebirth que certamente serão explorados por outros quadrinistas nas vindouras novas publicações da editora: a verdadeira origem do escaravelho do Besouro Azul Jaime Reyes; o status da Legião dos Super-Heróis; um possível retorno da Sociedade da Justiça da América; entre outros. A verdade é que, por um bom tempo, essa é a despedida de Geoff Johns dos quadrinhos da DC e ele não podia ter feito nada mais grandioso do que essa história. Nela, há tudo que os fãs da DC mais gostam e, no fim, é isso que realmente importa.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com