[Pitaco] Angeli e o Caminho do Artista

O cartunista Bill Waterson (Calvin & Haroldo) disse que uma tira de quadrinhos bem feita teria lugar em qualquer museu do mundo, podendo ser comparada às grandes artes sem perder nada para estas. Issso sugere que Waterson via os grandes autores de quadrinhos como grandes artistas. E estes, reciprocamente, como grandes contadores de histórias.

Scott McCloud falou sobre as diferentes linguagens que quadrinistas usam para produzir seus trabalhos, estendendo suas análises desde o fotorrealismo até a abstração completa e a representação não pictográfica. Para fazer esta categorização, McCloud também usa as obras de artistas plásticos clássicos e modernos como parâmetros de comparação e como material didático. Assim, traz exemplos via trabalhos universalmente reconhecidos características que compõem a linguagem dos quadrinhos.

2014061795125902-495x278

Esta aproximação entre arte e quadrinhos, celebrada por alguns, mas odiada por outros – que veem na manutenção da distância entre essas um distintivo de honra para os quadrinhos –, se coloca carregada de sentidos. Danilo Beyruth (Astronauta Bando de Dois), diz não gostar da palavra artista. “Acho que por trás de todo artista de quadrinhos existe um artesão”, diz o autor. Para Beyruth, o ofício dos quadrinhos é um trabalho que se assemelha mais ao de um pedreiro: todos os dias um novo pedaço da obra é construído. Às vezes é preciso desmanchar e fazer de novo, mas sempre está-se montando o trabalho, está-se fazendo uma nova parte. Até que se para. Assim como uma casa, uma história em quadrinhos nunca está pronta. O autor, de certa forma, abandona a sua obra e abre mão da perfeição em função da completude.

ang2011-11-14

Mas não poderia ser uma obra da construção civil tão bela e significativa quanto uma pintura? Não poderia ser a casa construída pelo próprio dono motivo de tanto orgulho quanto foi para, por exemplo, Waterson terminar os seus 10 anos de tiras diárias contínuas?

As linhas que unem e que separam estas instâncias são borradas por natureza, mas talvez sejam ainda mais (quicá sequer existam) quanto falamos das pessoas que transformaram o meio e ressignificaram a maneira como lidamos com quadrinhos. Entre estas, Angeli é nome certo.

chicletecombanana-fim
Última tira de Chiclete com Banana, veiculada na edição de Folha de S. Paulo do dia 06/05/2016.

O cartunista anunciou na semana passada o fim de sua tira diária Chiclete com Banana, publicada há 33 anos no caderno Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo. O motivo, segundo o próprio, foi questão de saúde. Ele enfrenta uma pesada depressão atualmente e a pressão de produzir tiras diárias não estava ajudando o tratamento. Angeli segue fazendo os cartuns políticos e colaborando com Luis Gê, Laerte e Rafael Coutinho no quadrão publicado no caderno de cultura às segundas-feiras.

Ainda assim, o fim do Chiclete com Banana marca o fim de uma era dos quadrinhos nacionais que subverteu a forma, saltou das páginas e entrou para a cultura pop brasileira. Não por acaso, esta, a cultura pop tupiniquim, foi também um dos alimentos de Angeli e sua turma na construção das tiras que marcariam primeiro os anos 80 e, logo depois, a própria identidade nacional. Afinal de contas, as inspirações para a Chiclete vieram dos quadrinhos da contracultura norte-americana, de bandas psicodélicas (Grateful Dead), do punk (Ramones), do rock (Beatles e Rolling Stones), da Tropicália, e de publicações como a MAD, da antiga revista nacional O Grilo e do Pasquim; ou seja, de toda sorte de produções culturais.

De muitas maneiras, a Chiclete era a nova versão daquela sátira à Pasquim que, em meados dos anos 80, já não fazia sentido em sua forma tradicional. Esta nova maneira de tratar o humor e de corromper os fatos e costumes da sociedade – maneira esta não mais cinzelada pelos limites da censura ditatorial – encontrou especial ressonância entre os jovens e quem também sentia que velhas amarras não funcionariam com as novas roupas verde amarelas. A Chiclete com Banana soube captar aquele espírito libertário que tomava conta do Brasil, bem como as confusões econômicas que acompanharam o país, e traduzir tudo isso em personagens, matérias satíricas, tiras e histórias em quadrinhos. No melhor estilo brasileiro antropofágico, Angeli cooptou as influências estrangeiras e produziu material nacional que tinha tanto de Sex Pistols quanto de Raul Seixas. Tanto de Lou Reed quanto de Mutantes, tanto de Crumb quanto de Leminski e Millôr Fernandes.

Chiclete Com Banana 21

A revista terminou no início dos anos 90 e Angeli voltou com o título para as tiras de jornal, onde não parou de experimentar. Antes da autobiografia existencialista se tornar um gênero consagrado das HQs, Angeli em Crise já indicava um caminho para além da crítica social, sem perder o humor. Nos últimos tempos, a tira deixou de ser tira e passou a apresentar cartuns de arte horizontal. Mais uma vez, o artista se expressando. O artesão trabalhando. Tudo junto num único homem que conseguiu se tornar um dos mais conhecidos nomes do quadrinho nacional.

O tom de elegia com o fim do Chiclete com Banana se tornou unânime na comunidade de quadrinistas. Esta, que mais do que entende a força desta tira para o quadrinho nacional, é também composta hoje por muita gente que foi influenciada pelo trabalho de Angeli no jornal e por tudo o que este representou ao longo dos seus mais de trinta anos de existência. Os textos sobre a última tira, fúnebres em sua maioria, resgatam o que foi a Chiclete com Banana e apontam para uma expectativa coletiva a respeito do que virá a seguir.

O meu pitaco é que a seguir virão mais trabalhos. Que o artesão continuará martelando sua prancheta para ela lhe dê o que ele quer. Independente da forma que estes trabalhos terão, Angeli ainda tem muito o que dizer. Para seus leitores, para si mesmo e sobre estes dois.

Comente

Clique para comentar

um × quatro =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com