[Jab] Renato Jones: The One % #1

Em geral, grande parte das pessoas é extremamente descontente com desigualdade social e má divisão de renda global. Pouca gente de fato concorda com a ideia de uma distribuição de riqueza nas mãos de uma minoria privilegiada. Mas mesmo os mais fervorosos ativistas não chegam aos pés do que Kaare Kyle Andrews propõe em Renato Jones: The One %, publicada pela Image Comics.

Escrita, ilustrada, finalizada e colorizada por Andrews (mais conhecido por seu trabalho recente em Punho de Ferro: A Arma Viva); The One Percent nos apresenta o protagonista, Renato Jones. Um traumatizado órfão, que sofreu não só uma, mas DUAS tragédias íntimas na infância em decorrência de dinheiro, ganância e ambição. Resumidamente, Jones se torna uma espécie de Justiceiro elitizado, mirando em alvos criminosos de alto escalão e fazendo a elite (que no mundo real, muitas vezes não paga por seus crimes) pagar… Pagar muito caro.

Renato Jones - The One Percent #1 (2016) - Page 32

O roteiro de Andrews é bastante simples de entender. Apesar de alternar constantemente entre acontecimentos passados e presentes de seu protagonista, fica fácil acompanhar a trajetória de Renato e os acontecimentos que o levaram a seu estado atual. Andrews, no entanto não é um contador de histórias nato, e seu trabalho aqui não é nem um pouco elegante em se tratando de condução de roteiro. Toda a paixão e o ódio injetado pelo autor nesta primeira edição transbordam a cada pedaço de diálogo e, estruturalmente, isso quase que deforma a história em benefício de uma violenta campanha de difamação. Isso não quer dizer que o roteiro de Renato Jones seja mal escrito.

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Os excessos de Andrews tornam tudo bastante bruto e íntimo, e são uma prova irrefutável do comprometimento do autor com este tema e o universo proposto em seu trabalho. Esse ódio todo se reflete perfeitamente no primeiro alvo de Renato, o bilionário Douglas Bradley. O autor vai até os cantos mais imundos da mente humana para ter certeza de que o leitor despreze este personagem. E, aos trancos e barrancos, isso funciona. O jeito rude e deselegante de contar esta história é parte intrínseca do sentimento do autor pelo tema. E isso é algo a se respeitar nos dias de hoje.

Visualmente, Kaare Andrews tem um dos estilos mais distintos nos quadrinhos modernos e, sem amarra criativa alguma em Renato Jones, o ilustrador dá um verdadeiro show de versatilidade e ideias bem executadas. Desde enquadramentos simples com colorização fosca, passando por páginas moldadas através de palavras, cenas dramáticas em preto e branco gritante, e as inesperadas foto-propagandas no meio da história. Tudo aqui é histérico, dramático, gloriosamente estilizado e de um impacto visual equivalente a um soco na boca do estômago. Andrews aqui mostra toda a influência que Frank Miller deixou em trabalhos como Sin City. Todavia, a gama de técnicas de ilustração e colorização utilizadas em Renato Jones é tão abrangente que mesmo esta homenagem não soa forçada, mas sim um momento passional do artista.

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Renato Jones: The One % é uma estreia sem medo de errar, sem vergonha de exagerar e sem receio de não ser compreendida. Kaare Andrews coloca muita paixão nestas páginas. Isto chega ao ponto de torcer a narrativa e os diálogos em alguns momentos, mas ao mesmo tempo deixa todo o trabalho extremamente sincero e íntimo. O visual da revista é diversificado, detalhado, dramático, louco e embasbacante. Um trabalho que, a princípio, pode não chamar a atenção do grande público, mas que estreia com muita personalidade e promete evoluir nas edições que seguirem.

 

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