[#Entrevista] José Aguiar e Coisas De Adornar Paredes

O artista José Aguiar, ou só Zé Aguiar, vem se credenciando como uma das vozes fortes do quadrinho nacional. Autor conhecido pelo seu trabalho em tiras ccomo Nada Com Coisa Alguma, lançou no fim do ano passado a webcomic A Infância do Brasil. Além de estar em seu currículo os conceituados trabalhos em Folheteen e Vigor Mortis. Entretanto, Aguiar segue incansável e, em 2016, já lançou a HQ Coisas De Adornar Paredes.

Coisas De Adornar Paredes é um quadrinho que demorou a chegar ao mercado. Ele já havia utilizado o título duas vezes em outras oportunidades, porém percebeu que poderia experimentar e ir além em seu novo trabalho. A HQ contém oito contos sobre peças que adornam paredes: quadros, imagem de santos, rachaduras e até o nada. As narrativas são interligadas pelo protagonista Chico, que está se esforçando para lançar sua arte sequencial e acaba encontrando vários dilemas na vida.

O Terra Zero aproveitou o recente lançamento de Coisas de Adornar Paredes e bateu um papo com Zé Aguiar sobre paredes, adornos, materialismo, fé e Zack Snyder(?).


Terra Zero: Zé, Coisas de Adornar Paredes é um projeto velho seu. Como é retornar a esse trabalho?

José Aguiar: Existem ideias que parecem fluir já prontas. Outras tem a  hora e o lugar certo para acontecerem. Este é o caso deste projeto, que nasceu em 1999 na revista independente Almanaque Entropya. Foram duas HQs curtas que deram o tom do tipo de história que iria perseguir. Você pode lê-las aqui, inclusive: http://coisasdeadornarparedes.blogspot.com.br/p/o-projeto.html

O resultado me deixou com vontade de levar a ideia adiante, mas ela foi ultrapassada por outros projetos que viraram prioridade. Ao longo dos anos fui anotando ideias, algumas como contos, para manter viva a vontade de fazer um livro a partir de “coisas”. Cheguei a apresentar o conceito para alguns editores, mas sabe como funciona o mercado nacional: salvo casos raros, se você não tem um projeto pronto em mãos, dificilmente terá apoio para publica-lo. O que eram ideias soltas começou a tomar forma quando apresentei o projeto para uma lei de incentivo: o Mecenato Municipal de Curitiba. Assim, publiquei o livro pelo meu próprio selo (Quadrinhofilia) neste ano. Foi um longo caminho  sem largar a ideia, mas que valeu a pena. O legal é que depois de tanto tempo de “maturação”, a execução do livro fluiu numa velocidade que me surpreendeu. Para uma ideia tão antiga é uma baita vitória ver o livro hoje nas livrarias e comic shops.

TZ: A HQ é recheada com oito contos sobre enfeites, quadros, rachaduras de paredes, de onde parte essa inspiração?

JA: Os objetos e elementos cotidianos são os temas, ou melhor, pretextos para falar das pessoas que voluntariamente, ou não, os colocaram nas paredes. Afinal, a maneira como tomamos posse dos espaços em que vivemos fala muito sobre nós mesmos. É nossa maneira desajeitada de nos tornarmos momentaneamente “imortais” ao “tomar posse” de um espaço. Tornar paredes acolhedoras é um anseio primitivo nosso, que remonta as cavernas adornadas com pinturas rupestres.  Os temas de cada conto são coisas que observei em minha cidade (Curitiba) mas que são universais. Eu não queria que fosse um livro turístico, mas que, a partir do meu universo particular, eu pudesse extrapolar para histórias que fossem possíveis de identificação em qualquer lugar.  Coisas que eu vejo quando passeio por aí ou quando visito alguém. Então, cuidado ao me convidar para uma visita. Eu vou reparar na bagunça.

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TZ: Coisas de Adornar Paredes é uma grande história que mistura vários elementos, onde você pode experimentar na sua narrativa. Como é trabalhar em histórias mais longas depois de você ser um profissional reconhecido por suas tiras?

JA: Eu me considero um autor irrequieto. Se você colocar meus livros lado a lado, vai notar que gosto de me aventurar dentro da linguagem dos quadrinhos. Alguns me conhecem mais pelas tiras do Nada Com Coisa Alguma, onde já busco subverter o espaço “limitado” da tira. Ou talvez pela webcomic A Infância do Brasil (www.ainfanciadobrasil.com.br) que, além de uma narrativa longa, é minha aventura mais “épica”, ao contar a nossa história pela perspectiva da infância desde o século XVI para podermos refletir o presente. Outros podem me conhecer por trabalhos com a graphic Folheteen – direto ao ponto ou Vigor Mortis Comics. HQs muito diferentes entre si, seja na proposta ou no traço.

Eu comecei publicando tiras com16 anos e nunca parei de experimentar gêneros, formatos e técnicas de ilustração nas minhas histórias. Eu os amo os quadrinhos em todas as suas variantes e, como autor,  busco fugir de uma “zona de conforto”. Quero estar sempre me reinventando e me impondo novos desafios. Coisas de Adornar Paredes, que foi feito quase que simultaneamente, é o total oposto de A Infância do Brasil: projeto virtual, inclusive com recursos interativos. “Coisas” é meu primeiro trabalho só com pincel e nanquim aguado. Ilustrar essa história numa “aquarela” PB foi muito libertador. Valorizar a mancha, o ruído do papel e abrir mão do perfeccionismo da linha  me  fez muito bem. E acho que essa estética casou com o texto da maneira que eu precisava para dar força à narrativa. As tiras me ensinaram a a ser mais direto, sem enrolação. As narrativas longas me dão espaço para desenvolver ideias que não caberiam em uma tira. Mas no fim, toda história longa não é uma série de pequenas situações que se somam para chegar num objetivo maior? O que varia é a “metragem” da história que quero contar. A habilidade de narrar deve ser a mesma.

TZ: Muitos dos contos são diretamente ligado a fé e obsessão das pessoas pelos adornos. Você está denunciando um problema da nossa sociedade? Fala do materialismo?

JA: Eu ando numa fase de muita reflexão pessoal sobre como nossa sociedade tem evoluído, ou não. Em A Infância do Brasil a pergunta que paira sobre toda essa narrativa é: “O que mudou e o que não mudou em mais de 500 anos ?”. Em face dos acontecimentos políticos dos últimos anos, é assustador ver como tendemos a nos repetir. A insistir nos mesmo erros e a abandonar avanços sociais conquistados árdua e lentamente em troca de conservadorismo. Uma falsa sensação de segurança criada a partir de ódio mesquinho e preconceito com outras formas de ser e pensar. Sentimentos que, pouco tempo atrás, pareciam distantes. Coisas que acreditávamos ter deixado para trás, mas que voltaram a nos assombrar com uma violência inacreditável.

Cada conto do meu Coisas de Adornar Paredes fala um pouco disso também. Os personagens são pessoas limitadas por suas perspectivas individualistas.  Não há heroísmos, mas pessoas falhas como nós. Apaixonadas, egoístas, esperançosas, ingênuas, ruins… Mas o nível de “denúncia” fica por conta do grau de identificação que o leitor encontra com essas histórias. Afinal, nem todas se passam num mundo “real”, o que pode ser ainda mais revelador numa segunda leitura. E sobre a fé? Por ser um artista eu tenho que ter fé. Mesmo que minhas HQs recentes tenham um tom mais severo, ainda sou uma pessoa otimista. Pode não ser que minha fé não seja exatamente a do leitor. Mas tenho fé que vai respeitar a minha, expressa nas entrelinhas da minha HQ.

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TZ: Esse materialismo nosso na sua opinião se deve a que?

JA: Nós crescemos num mundo onde somos ensinados a consumir. Um exemplo pessoal: até três anos atrás eu não tinha carro. Nunca me incomodei de pegar ônibus ou táxi quando não podia pedalar para chegar onde queria. Nunca dei bola para carro. Mal sei como funciona um motor. Mas com filho pequeno e com livros para carregar (afinal, sou um editor independente) acabei comprando um carrinho usado.

As pessoas ao meu redor passaram a me cumprimentar por esse feito. Era como se eu tivesse ascendido socialmente. Agora o José era um cidadão pleno para os vizinhos, parentes e amigos! Que barbaridade! Claro que não há maldade em ficar feliz por alguém. Mas as pessoas não pensam muito que o automóvel é um ótimo exemplo do que erroneamente valorizamos na vida: objetos que são signos de status. Medimos o valor das pessoas pelo que elas ostentam. São nossos certificados de “bem-sucedidos na vida”. Por isso é tão fácil manipula-las, através do medo de perder esses objetos. Não à toa tanta gente não se incomodou quando o governo provisório de Michel Temer (escrevo isso menos de duas semanas depois da sua posse) quis acabar com o MinC. Se as pessoas puderem ter um veículo em vez de cultura, não pensarão duas vezes. E isso me assusta. Talvez por isso meus trabalhos tem sempre algo crítico, mesmo que não panfletário, com relação a nossa sociedade.

TZ: Você usa como ligação entre os contos alguns diálogos entre o criador dos contos, José, e alguns amigos. Eles tem muitas falas que ouvimos diariamente no meio artístico brasileiro de quadrinhos. Como é relatar essa ideia?

JA: Notou que você formulou sua pergunta usando o meu nome em vez do nome do personagem, que se chama Chico? Ele de certa forma é mesmo um alter-ego meu e dos meus colegas quadrinistas e escritores. Essas páginas fazem parte de um processo particular de auto reflexão como autor, editor e produtor cultural.  Desde 2013, tenho me auto-publicado num ritmo frenético e acabo de sair de dois mega projetos pessoais de quadrinhos. Neste começo de ano, o Cena HQ, projeto de leituras de HQ no teatro, cancelado por falta de patrocínio; e a Gibicon, evento que ajudei a criar, também deixou de existir, se tornando outro projeto, sem minha participação. Então tenho tido muito em que pensar sobre meu papel no meio dos quadrinhos. Sobre minhas realizações, frustrações e reais anseios.

Os personagens Chico, Ana e Caio na verdade sou eu me questionando e dialogando com a realidade editorial que vivemos. Tentando entender, através de suas discussões sobre os contos, o quanto esse universo molda o que eu e meus colegas autores fazemos. Esses “intervalos” na verdade são a história maior que os contos ilustram metaforicamente. Uma forma arriscada de construir o livro, que, espero, irá agradar aos leitores. Sejam autores, editores ou não.

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TZ: A história Nada é a que considero de maior qualidade aqui, porque ela mistura o real com irreal, em um texto que expressa muito bem as vontades e os desejos dos jovens. Você também acha que estamos em busca de segurança?

JA: Obrigado! Se para você a última parte é o ponto alto, fico mais que lisonjeado! Acredite, esse final estava escrito antes do livro ter sido formatado e ficou anos na gaveta com os contos avulsos que escrevi enquanto não chegava a hora certa do livro ser feito. O Chico ainda nem existia e, claro, adaptei o texto original para que esse conceito pudesse sintetizar tudo o que o leitor acompanhou durante a narrativa.

O problema aqui é como comentar sem dar “spoilers” para quem não leu o livro ainda…  Então falemos da busca sobre a segurança. Sim, concordo que nascemos com essa preocupação em mente. Quanto mais a idade avança, você se arrisca menos e se permite resignar para não perder o que já fora conquistado. Cresci com muita gente assim ao meu redor, o que me entristece muito ao pensar em como poderia ter sido suas vidas se tivessem se arriscado um pouco mais de vez em quando. Mas cada história pessoal tem seus motivos, e não se deve julgar ninguém por ser mais ou menos ousado.

Eu acredito que tenho me aventurado e levado muitas pessoas comigo nessa jornada de, assim como o Chico, ser um autor. Não é uma jornada segura. Mas é um ideal que me motiva e acaba inspirando outros também. No fim, ninguém é de fato seguro. Tudo pode mudar a todo momento. Precisamos de âncoras que nos permitam ter uma referência, que nos permitam ter forças para o próximo passo. Mas é bom que elas estejam prontas para serem içadas! Às vezes pode ser bom andar no escuro. Claro que,  se você tem preparo, e já carrega no bolso um mapa e uma lanterna, pode ser que vá ainda mais longe. O importante é não criar obstáculos onde eles não existem de fato. Se eu visse só os obstáculos, eu jamais teria optado por ser artista. Ainda mais autor de quadrinhos.

TZ: Para finalizar, quais memórias você gosta de adornar na sua parede?

JA: Minhas paredes andam meio amorfas atualmente. Reflexo da minha fase de reflexão? O escritório anda sem pôsteres, mas as caixas e estantes (vida de editor) ocupam todo meu espaço de trabalho. No resto da casa, ainda devo colocar fotos importantes. Coisas de família. Sem pressa. Um dia, quando for a hora, se eu não trocar a segurança deste lar por outro. Assim, minha foto autografada do Lou Ferrigno, que há anos espera por um cantinho, talvez demore mais tempo para achar sua parede querida.

Ando mesmo é adornando minhas parentes mentais com imagens do que quero realizar daqui por diante. Das novas HQs que quero criar, dos lugares que quero conhecer, das pessoas que amo.

TZ: Deixe um recado para os leitores do Terra Zero e explique para eles aonde eles conseguem encontrar suas HQs e seus outros trabalhos

JA: Um recado? Acreditem, pode não parecer, mas fui feito por quadrinhos de super-heróis e não aceito bem a ideia de que os Novos 52 podem ser criação do Dr. Manhattan. Dói na alma deste nerd veterano e calejado de tantos reboots… Mas se ainda há esperança, Zack Snyder deixará em breve o comando dos filmes da DC. Recitem comigo: “Na noite mais fria, na treva mais densa, Zequisnaidi sucumbirá ante minha presença!”

Eu, que acompanhava o ComicPod desde quando eram apenas um reduto Decenauta, adorei quando (redatores e leitores) expandiram seu universo e abraçaram outras HQs! Principalmente a produção nacional, que ganhou mais um espaço importante de divulgação. Ganhamos todos com isso!

Aqui em Curitiba, apresento mensalmente o Ciclo de Quadrinhos, onde os nossos super-seres são pauta quente e polêmica.  Para quem quiser ler minhas HQs online, pode acompanhar meu perfil do Facebook, onde posto as novidades. Tem também o meu site www.quadrinhofilia.com.br, que em breve terá loja online e outras novidades.

Reforço também que A Infância do Brasil é gratuita e está disponível completa no seu site www.ainfanciafobrasil.com.br, que traz muito conteúdo extra, incluindo uma versão comentada em cada capítulo. Convido a todos a lerem e divulgarem essa HQ para, juntos, refletirmos sobre nós mesmos!

Obrigado Pablo, pela sua leitura e pela oportunidade de estar aqui com vocês no Terra Zero!