[Editorial] Uma semana de perdas

A última semana não foi fácil. De uma calmaria inexistente, passamos a uma tensão que se deve temer. No meio desse torvelinho, o mundo dos quadrinhos teve a sua cota de perdas que, é lógico crer, serão sentidas por algum tempo.

Uma delas não é exatamente uma perda, mas uma mudança ainda a ser melhor explicada, envolvendo a nomenclatura do principal evento exclusivamente dedicado aos quadrinhos de 2016 no Brasil. Aquela que antes era chamada de Gibicon é, agora, chamada de Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Esta alteração, que aparentemente não é apenas estética, talvez seja mais uma peça no quebra-cabeças da atualidade, no qual todos estamos fazendo novos beta testes com o conceito de progresso.

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Já os quadrinhos nacionais tiveram, no início da semana passada, uma de suas aposentadorias mais comentadas, se não a mais. Com o encerramento da carreira de Angeli no mundo das tiras diárias de quadrinhos, devido a uma depressão pouco levada a sério no início, agora resta apenas Laerte para carregar a batuta do maior trio de quadrinistas que nosso país já viu, e que nos acostumamos a chamar de “Os Três Amigos”. Há um alívio, no entanto: ainda continuaremos a ver o trabalho sempre pontual e corrosivo de Angeli em suas charges, recanto do ideário gráfico em que ele produz, há mais de uma década, seus melhores trabalhos.

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O mesmo não irá acontecer, no entanto, com Darwyn Cooke. Apaixonado pelo design clássico de tempos mais simples do século passado e dono de um traço arrojado, que abusava das linhas claras e da expressividade, o canadense marcou algumas gerações de fãs, iniciando o sucesso desta trajetória com as animações feitas para as já clássicas séries animadas para o Batman nos anos 1990 – em especial, para a série Batman do Futuro.

Cooke surgiu no mundo dos quadrinhos com uma HQ que, quando publicada no Brasil pela primeira vez, chamou a atenção de poucos: Batman: Ego (Mythos). Nela, o morcego mascarado se defronta com aquele que parece ser o seu pior inimigo: ele mesmo. Os enquadramentos cinematográficos, o jogo de luz e sombras e a narrativa intrincada e impactante, fruto não apenas de seus anos no mundo da animação, mas também de seu período extenso de trabalho como diretor de arte e designer gráfico para publicações e publicidade, alçaram, em pouco tempo, a artista e escritor aos mais altos degraus de reconhecimento.

Cena de Batman: Ego, de Darwyn Cooke
Cena de Batman: Ego, de Darwyn Cooke

Vencedor dos prestigiosos prêmios Eisner e Joe Shuster, Darwyn Cooke faleceu após ser vítima de um tipo agressivo de câncer. Na DC Comics, será lembrado por seus trabalhos com Spirit, criação do lendário Will Eisner, e com os personagens do elenco de apoio do Batman, em especial Slam Bradley e a Mulher-Gato. Além, é claro, de A Nova Fronteira, que é, desde então, um dos melhores pontos de entrada para qualquer pessoa que queria começar a ler quadrinhos se apaixonando por seus personagens e conceitos.

Com Darwyn Cooke, Carol Ferris não se ferra em A Nova Fronteira.
Com Darwyn Cooke, Carol Ferris não se ferra em A Nova Fronteira.

Porém, o maior trunfo do criador canadense não se deu na gigante americana e, sim, na inovadora IDW. Foi lá que teve a chance de publicar sua obra de maior impacto: a Tetralogia Parker, baseada nos livros de Richard Stark, pseudônimo do prolífico escritor policial Donald Westlake. Levando ao máximo a elegância do seu traço, sua narrativa impecável e sua ambientação primorosa, os quatro álbuns da série (que teve apenas uma edição publicada no Brasil, em 2015, pela Devir) e a edição especial The Man with the Getaway Face são, reunidas, a melhor adaptação de literatura policial em quadrinhos de que se tem notícia.

Página de Parker: The Hunter, de Darwyn Cooke
Página de Parker: The Hunter, de Darwyn Cooke

De personalidade tão marcante como seu trabalho, Cooke estava certo de ter deixado sua marca no mundo. Em entrevista dada ao The Comics Journal em 2007, o artista disse, numa sequência de perguntas sobre seu estilo muito próprio de desenho, que

Na verdade, você pode aprender muito com material realmente ruim, ou material que é quase bom. Quando você olha para algo que é brilhante, isso apenas diminui você e faz você ficar pensando: “Ah, de que adianta?”

Pensamentos como esse, fora da caixa, fizeram com que o artista se tornasse um iconoclasta. Por isso mesmo, sua perda está sendo muito sentida. É também icônico que sua morte fosse anunciada por um dos poucos artistas da mesma geração tão únicos como Cooke, o amigo Mike Allred. São pessoas que, com sua obra, moldam vidas, personalidades e destinos de modo ímpar, primeiramente na ficção e, depois, da vida real, em seus leitores que, agora, ficam sem esta importante referência.

Perdas são muito importantes. Elas revelam a real importância e relevância daquilo que foi perdido. Nesta semana, tivemos um pequeno gosto destas perdas. A Gibicon, como originalmente concebida, as tiras de Angeli e Darwyn Cooke serão lembrados pelo que foram, pelo legado que deixaram e sobreviverão em boas memórias de quem foi marcado por eles. Que o futuro ultrapasse a semana passada deste modo, com um senso de legado, com a memória boa do que está sendo deixado para trás. Pois, quando isso não acontece, quando não damos valor ao que perdemos, aí sim nós todos temos muito o que temer.

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