[Editorial] Toalhas e Bandeiras

Dia 25 de maio é a data em que a comunidade nerd, há muitos anos, comemora o Dia da Toalha. Em todo o mundo, toalhas são utilizadas com orgulho e empunhadas como bandeiras. É, provavelmente, a mais recente das tradições literárias reconhecidas mundialmente, tendo alcançado uma posição, ao mesmo tempo, cult e pop, algo raro para qualquer tradição.

A efeméride reúne diversos fandoms desde que começou a ser comemorada, em 2001, duas semanas após a morte de Douglas Adams, criador de O Guia do Mochileiro das Galáxias, livro no qual ele descreve a importância e a utilidade de uma toalha nas mais diversas situações. Os fãs da série literária Discworld, do também falecido Terry Pratchett, abraçaram a data por ela ser importante na obra. E os entusiastas de Star Wars não se esqueceram de que foi em um dia 25 de maio que o filme que um dia conhecemos como Guerra nas Estrelas estreou nos cinemas dos EUA, em 1977.

Se estiver limpa, você pode até secar o seu corpo com ela!
Se estiver limpa, você pode até secar o seu corpo com ela!

Uma das coisas importantes sobre o Dia da Toalha é que ele estabelece o fato de que a comunidade nerd é importante, se mobiliza, é mundial e que não pode ser ignorada ou ridicularizada, como foi no passado recente. É mais um dos pontos positivos da porteira que um dia se abriu, quando as pessoas ainda navegavam pela internet por meio de fóruns obscuros, navegadores primários e salas de chat básicas.

Quinze anos se passaram desde a comemoração original, em 2001. E algumas coisas mudaram. Em 2016, você vê os nerds de raiz, moleques, que estavam lá quando tudo era mato, ainda comemorando o Dia da Toalha com a mesma sinceridade que antes, de braços abertos para aqueles que, como eles, não tinham com quem compartilhar seus gostos por quadrinhos, ficção científica, jogos de tabuleiro, RPG e outros elementos típicos da cultura nerd. Mas você também vê pessoas e empresas que, até pouco tempo, ridicularizavam, desdenhavam ou ignoravam essa cultura, tentando agora se apropriar dela. Para estes, não existe toalha, mas oportunidades de se capitalizar em cima de um novo público. O dia foi, inclusive, rebatizado pelo comércio e por parte da imprensa: para estes, hoje é o Dia do Orgulho Nerd.

Então, precisamos falar um pouco sobre apropriação cultural.

Funciona basicamente assim. Inicialmente, um nicho cultural desenvolve toda uma cultura específica, que envolve hábitos, modos de agir e pensar, vestuário, elementos de música e literatura, até mesmo linguagens e crenças. Quando este nicho consegue repercussão na cultura de massa, seus elementos culturais começam a ser apropriados pela própria cultura de massa, que os tiram dos contextos originais, os ressignificam (muitas vezes com significâncias divergentes e até mesmo opostas às originais) e os massificam.

Alguém se lembra do punk de butique?
Alguém se lembra do punk de butique?

Em um mundo cada vez mais globalizado, este parece ser um processo de fagocitação irreversível. Aconteceu com a cultura hippie nos anos 1970, com a cultura punk nos anos 1980 e com as cenas grunge e alternativa nos anos 1990. Os primeiros eleitos do século 21, é fácil perceber, são os nerds. E isso traz consequências.

Falar em “orgulho nerd”, no contexto atual, para qualquer pessoa que convive com tal cultura há pelo menos quinze anos, chega a causar estranheza. Qual seria este contexto atual, ao qual me refiro? O consumista. Para você demonstrar o seu “orgulho” de ser um nerd, você tem de consumir produtos nerds, mesmo que você não se identifique com eles. Comprar livros, mesmo que não vá lê-los. Consumir jogos de computador, apenas porque estão sendo comentados. Adotar um código de vestuário específico, pelo mesmo motivo. Tudo isso de modo superficial, ou seja, porque é moda.

Repare, no dia de hoje, nas empresas que venderam o conceito de “orgulho nerd” para você. Olhe nas redes sociais, repare. Perceba também há quanto tempo elas estão nessa. Repare, é claro, em quem lembrou do Dia da Toalha, como originalmente ele foi concebido. É um bom debate. É também um bom indicativo das posturas pessoais e empresariais quem embalam este nicho, que tem, incluso nele, os fãs de quadrinhos, como somos todos nós.

Isto posto, temos de falar sobre o grande evento dos quadrinhos que ocorreu justamente hoje: o início do Rebirth, ou Renascimento, da DC Entertainment. Uma nova marca, teoricamente mais retrô, acompanhada de uma edição com 80 páginas que tem um objetivo claro, que é o de recuperar as vendas em constante queda da pioneira estadunidense dos quadrinhos super-heroicos.

Ampulhetas, relógios... Onde está o Homem-Hora quando se precisa dele?
Ampulhetas, relógios… Onde está o Homem-Hora quando se precisa dele?

A roupagem com que o evento foi vendido é clara. No Dia da Toalha, o retorno ao papel de ideias e ideais que todo fã de carteirinha dos quadrinhos DC queria de volta desde o advento dos famigerados Novos 52. Não apenas isso: o retorno do personagem mais querido dentre todos aqueles que foram simplesmente limados na iniciativa fracassada da Editora das Lendas apenas atesta o quanto a tentativa de se retomar os anos 1990 nos quadrinhos não era, realmente, uma boa ideia. Hoje, a DC retoma o que é mais importante para os fãs: o legado de sua história e sua história de legados. Mas isto foi feito para o fã?

Não se engane: isto foi feito para os bolsos da editora. Isso tudo é comércio, na essência mais básica de todas. Alguém (ou mais de uma pessoa) na DC percebeu que os rumos tomados há mais ou menos cinco anos não foram os corretos para a saúde financeira da empresa e, portanto, outro rumo deveria ser tomado. Tentaram com o DC You, mas era necessária mais atitude. Se com os Novos 52 os fãs tradicionais da editora se sentiram, em boa parte, ultrajados com a renovação e com o rejuvenescimento forçado de seus ídolos de papel, desta vez eles aparentam ter uma boa vontade maior com a DC em seu Rebirth, já que, em boa parte, seus desejos foram atendidos e o legado está de volta às páginas decenautas oficiais.

Tal convergência de interesses, no entanto, diz mais sobre as ações de tentativa e erro do mercado editorial dos EUA nos últimos quinze anos do que, de fato, sobre o respeito de uma editora com seu maior patrimônio, que não são suas propriedades intelectuais, mas, sim, seus leitores. Ainda assim, conectar este lançamento ao dia 25 de maio é simbólico para os fãs e, para a empresa, uma jogada de marketing ambiciosa e certeira.

Não foi só a Silk Spectre que tomou um susto. Não é mesmo?
Não foi só a Silk Spectre que tomou um susto. Não é mesmo?

Nem tudo são flores, no entanto. Para este movimento, a DC resolveu dar prosseguimento a um universo criado como uma Zona Autônoma Temporal (antes mesmo da invenção do termo) por Alan Moore nos anos 1980: a continuidade que envolve os personagens de Watchmen, único quadrinho na lista das melhores obras em língua inglesa do século passado, segundo a revista Time. Tal mudança não é nem de longe uma unanimidade entre os fãs de quadrinhos e ainda vai dar muito pano para manga.

Mas até que ponto a imutabilidade é um fator positivo? Basta imaginar os fãs de Star Wars sem o seu universo expandido, por exemplo. A integração deste universo à cronologia da DC ainda vai provocar muitas discussões, mas a grande verdade é que, quando os personagens que amamos são bem utilizados, os fãs abraçam tal utilização. Ser nerd tem dessas. Manter a mente aberta a mudanças é fator básico. Alan Moore está errado em querer preservar seus personagens imutáveis? Talvez apenas se debatermos fatores legais (e eles existem). Mas, criativamente, é um contrassenso dele mesmo, se pensarmos em obras como Lost Girls, Terra Obscura e A Liga Extraordinária, nas quais ele toma para si personagens alheios e amplifica suas histórias. Bons personagens não merecem isso?

Estes personagens não tinham dado o que tinham de dar? Pois é, Alan Moore, pois é...
Estes personagens não tinham dado o que tinham de dar? Pois é, Alan Moore, pois é…

Esse nível de discussão, sim, é que faz parte das rodas nerds. É o papo de bar de quem gosta de quadrinhos, séries, livros de fantasia e ficção científica. Esse, sim, é o verdadeiro orgulho de um nerd. A bandeira a ser agitada em dias como hoje. É também para isso que servem as toalhas: para nos lembrarmos do que é ser um nerd. E isso não significa ser melhor que ninguém. Significa apenas que existem lugares e existem pessoas que se identificam com uma cultura específica, que ainda é olhada torta por muitos, inclusive por uma parcela que tenta apenas capitalizar em cima de fãs sem realmente se envolver com eles.

Nós, do Terra Zero, não somos orgulhosos, mas temos orgulho em sermos nerds. E você sabe que isso não é papo de vendedor, Zeronauta.

Minha toalha é uma arma pra te conquistar, Zeronauta! Feliz Dia da Toalha!
Minha toalha é uma arma pra te conquistar, Zeronauta! Feliz Dia da Toalha!

5 Comentários

Clique para comentar

dezessete + oito =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com