[Pitaco] Tem horas que vale a pena

O Terra Zero publicou ainda hoje uma resenha de Lovely Complex, escrita por este redator. É um mangá shoujo; ou seja, focado no público feminino adolescente. Assim sendo, como vocês podem conferir, vi muitas qualidades e me identifiquei com a obra. Eu gostei. E isso nunca poderia ter acontecido se eu não tivesse recebido o mangá, como cortesia, da Panini.

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Vocês provavelmente não gostaram desta última frase. “Seus vendidos!” “Prefiro o MdM!” “Venderam resenha de BvS pra Warner também?” Eu posso ouvir suas mentes neste momento. Mas não é bem assim. Nós recebemos gibis por cortesia de editora? Sim, muitas vezes ganhamos. Eu mesmo também sou interpelado por autores que querem me enviar seus trabalhos. O que não quer dizer nem que vai ter resenha, quanto mais texto favorável, caso exista.

Por que resenhar?

Andei pensando muito nisso. Até achava que, se a obra não é boa, para que perder meu tempo escrevendo? Outros resenhadores e/ou sites terão seus próprios pensamentos a respeito do que deve ser avaliado, se deve ou não ter nota, do que vale a pena ter uma resenha produzida ou não. Eu confesso que há quadrinhos e livros sobre os quais há o que ser dito e que há outros que não. Se não há o que ser dito de relevante ou diferente, mesmo que seja ótimo, não escrevo.

Bem, isso é o Grisa, este pândego gordo deitão que está no Terra Zero há apenas um ano e poucos meses. Cada um tem suas preferências.

O Wesley Samp, cujo Catarse ajudamos a divulgar com matéria por acharmos relevante, se dispôs a me enviar o seu livro. Eu aceitei. O que não quer dizer que deixei de criticar o que achei que deveria ser criticado, mesmo gostando de seu trabalho e, do pouco que conheci, de sua pessoa. Um outro autor, por sua vez, me enviou igualmente seu livro, e eu preferi não escrever nada, porque não havia o que me instigasse a isso.

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Essa estrutura de escolhas pode, sim, ser permeada pela benevolência das editoras. E se você quiser, como o MdM, abdicar de receber qualquer tipo de material, é uma escolha válida. Tão válida quanto receber esse mesmo material. Aliás, se você quiser ser chapa-branca e sair elogiando tudo, sem falar nada de ruim, isto é um problema só seu. Para este redator, jornalista de formação, não é uma opção, porque é algo que acaba se revelando quando as pessoas leem, pensam e comparam com a obra. Ou a chapa-branquice reflete-se em argumentos muito rasos, ou numa visão completamente irreal do produto.

Amores Complexos

Falando especificamente sobre Lovely Complex, foi um acaso tremendo. O Morcelli recebeu o material, via assessoria de imprensa da Panini, e repassou este mangá, junto com outros, pelos Correios. Deixei para o final, mas, como foi enviado (e a garota na capa me pareceu bem legal), fui ler, sendo positivamente surpreendido. Sabem quando eu iria ler esse mangá se eu precisasse comprá-lo? Provavelmente nunca.

Neil Gaiman, no vídeo acima, fala sobre pirataria, mas o conceito também se aplica aqui. Ninguém descobre seus autores, ou até obras favoritas, comprando-as numa banca, loja de quadrinhos ou livraria. Alguém nos empresta, ou outra pessoa nos presenteia, ou um terceiro pode recomendar bastante (vulgo “encher o saco sobre como é bom”), ou ainda o título pode atraí-lo em uma biblioteca pública ou da escola onde você estuda…

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Há inclusive maneiras criminosas em servidores romenos que não recomendamos…

Ou então você recebe uma cópia grátis do primeiro número, da editora que a publica no Brasil. Eu pessoalmente prefiro ganhar essa cópia de graça e recomendar a vocês, leitores e leitoras, porque eu gostei, e acho que pelo menos alguns de vocês podem acabar gostando. É parte do nosso papel, além das notícias, dizer o que importa – e você tem todo o direito de discordar.

Aliás, estava falando com o Morcelli sobre essas coisas, e ele lembrou de algo:

Meu escritor favorito é o Stephen King e eu só descobri o trabalho dele pegando livro de graça na biblioteca da minha cidade uns quinze anos atrás, sabe. O incentivo à leitura oferecido por comunidades locais ou serviços governamentais – pelo menos em cidades como a minha – ainda ajuda o pessoal a descobrir gosto pela leitura e refiná-lo. Lá na minha cidade, aliás, uma escola estadual recebeu uma cópia do meu livro do Superman (Fazendo o Homem Acreditar) e é um dos livros mais locados de lá. O acesso gratuito à leitura ainda é fundamental.

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Então, eu vou continuar lendo Lovely Complex e comprando os próximos números, porque achei que vale a pena, sim. A Panini não me pagou para eu dizer isso: se nos pagassem, a gente não precisaria nem pedir para vocês usarem nossos links da Amazon para comprar o que quiserem, já que não precisaríamos dessa grana para pagar o servidor do Terra Zero. Acabou até saindo bem barato para a Panini, não acham? Mas isso é assunto para outra ocasião.

Ninguém me daria mangás shoujo porque sabem que, tirando Sakura Card Captors, não é do meu gosto. Quem conhece o Grisa, este homem que fala em terceira pessoa de si mesmo no último parágrafo de um Pitaco, daria a ele algo relativo ao Grant Morrison, por exemplo! Ninguém daria nada do John Byrne pro Brunão, para dar outro exemplo. Se eu dou uma chance para uma obra sair aqui, no Terra Zero, para o que quer que eu tenha lido, é porque vale a pena, nem que o que valha seja incomodar-se com a obra.

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