[Jab] Moon Knight #1, de Jeff Lemire e Greg Smallwood

Uma das interpretações mais inovadores e divertidas do Cavaleiro da Lua foi proposta pelo autor Brian Michael Bendis em 2011. Naquele volume de Moon Knight, ilustrado por Alex Maleev, o universo Marvel foi apresentado a uma faceta ainda não conhecida da personalidade de Marc Spector: a esquizofrenia. De lá para cá, esse conceito rendeu frutos extremamente saborosos pelas mãos de autores consagrados como Warrens Ellis e Brian Wood no último volume do gibi do personagem.

Cortemos para 2016; graças à iniciativa All-New, All-Different, a Marvel lança em abril um novo volume de Moon Knight com roteiros de Jeff Lemire (Sweet Tooth, Homem Animal, Liga da Justiça Unida, Gavião Arqueiro), ilustrações de Greg Smallwood (Dream Thief e do volume anterior da própria Moon Knight) e colorização de Jordie Bellaire (Injection, Magneto, Gavião Arqueiro entre muitos outros).

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Na primeira edição desta Moon Knight, Jeff Lemire se apropria com autoridade do conceito da esquizofrenia de Marc Spector e nos transporta para uma hostil instituição para tratamento de doentes mentais na qual o personagem está internado. Se valendo do recente “rearranjo” ocorrido neste novo universo Marvel, o autor brinca com as noções estabelecidas sobre o personagem e mantém o leitor sempre no limite da incerteza. Por enquanto não sabemos o quanto do que Spector pensa ou tem como verdade é devaneio ou realidade de fato. Isso torna a primeira edição dinâmica, curiosa e divertida. Enxergar o mundo sob a ótica deste personagem é de fato prazeroso e Lemire consegue dar combustível ao roteiro do primeiro arco se valendo da confusa e deliciosa relação entre o Cavaleiro da Lua e a divindade egípcia Konshu, em diálogos que transitam entre o pessoal e o insano com muita naturalidade.

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Apesar de Lemire estabelecer um pequeno e marcante elenco de apoio nesta estreia, o roteiro do gibi é basicamente focado na relação entre Spector e Konshu e na louca interpretação da realidade pelo protagonista. Existem algumas sutis referências à temas místicos (repare no nome do primeiro paciente que interage com Spector) e logicamente tudo culmina nas clássicas cenas de ação em manicômios. Afinal, após uma sessão de maus tratos com os residentes, todos nós queremos ver o Cavaleiro da Lua “loucão” chutando algumas bundas. E Lemire não decepciona neste quesito.

O roteiro te força a torcer pelo personagem e o conflito ao seu final é satisfatório, apesar de previsível. O gancho do roteiro revela algumas possibilidades interessantes para este arco, mas não chega a chocar. Para quem estava acostumado com o formato de histórias mais contidas do volume anterior, aqui temos uma mudança e o retorno a arcos de mais de uma edição. Nada que tire o impacto do roteiro que tem boa cadência e diálogos bem fluídos, apesar de não revolucionar em termos de apresentação e formato.

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Greg Smallwood ainda não é propriamente um artista de renome na indústria de quadrinhos. Porém lembrem deste nome, pois isto está prestes a mudar se o ilustrador mantiver o nível de apresentação gráfica mostrado nesta estreia. A colaboração do ilustrador com a requisitada colorista Jordie Bellaire é surpreendentemente rica. A arte em Moon Knight tem uma ambiência fortíssima. Os traços semi-hachurados combinados à técnica de colorização intencionalmente fosca dão ao gibi uma enorme carga de insanidade meio suja e grosseira que enriquecem demais o roteiro de Lemire.

Smallwood e Bellaire por vezes na mesma página (e até no mesmo quadro) usam duas ou três técnicas distintas de ilustração e fazem tudo parecer homogêneo. O layout de páginas de Smallwood tem sacadas brilhantes e sutis para o leitor mais atento – repare como a ausência de linhas dividindo os quadros nas cenas iniciais deixa toda a revista com um clima etéreo e entorpecente. Enfim, um trabalho tão cuidadoso, detalhado e cheio de referências visuais, tanto em design quanto em fotografia e cenários, que é possível passar um bom tempo analisando as técnicas nas páginas.

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O Cavaleiro da Lua tem um dos uniformes mais legais do universo Marvel. Fato. No entanto, após as loucas e geniais interpretações de Declan Shalvey da indumentária do herói no volume anterior, fica muito difícil surpreender o leitor com o visual do personagem, mas, vejam só, até nisso Smalwood é bem sucedido. O novo visual “pinel” do Cavaleiro da Lua é um clássico instantâneo. A essência do personagem está ali – místico, artesanal, louco e icônico. Um visual que com certeza vai marcar a história desta franquia como uma das ideias mais legais na bibliografia do personagem.

A proposta inicial de Jeff Lemire para este novo volume de Moon Knight é fortemente calcada em dois conceitos: insanidade e confinamento. Apesar do primeiro não ser uma inovação propriamente dita, quando associado ao segundo da forma como é feito nesta estreia resulta em um produto incomum e divertidíssimo. Se valendo de um roteiro correto e dinâmico, mas sem inovações e uma arte linda, extremamente cuidadosa e impactante, esta equipe criativa leva toda a loucura do Cavaleiro da Lua a novos e interessantes patamares.

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