[Entrevista] João Lucas apresenta seus Rastros no Catarse

Com quase 60% da meta alcançada no Catarse em apenas 12 dias de campanha, Rastros, uma narrativa em quadrinhos com roteiro e arte do jovem João Lucas, de 19 anos, precisa de R$ 5 mil para ser lançada. A iniciativa tem o apoio do coletivo Bananazebra, do qual Lucas faz parte, e do estúdio Inspiratório. Caso seja bem-sucedido, a previsão de lançamento para os apoiadores da obra via financiamento coletivo no final do mês de julho.

A história passada em uma distopia de animais antropomórficos acompanha a busca do coelho-monge Nikolai por Kunah, o seu mestre macaco. O velho símio, ao alcançar o nirvana e descobrir uma palavra que o mundo esqueceu, acabou atraindo a atenção de muitos, dado o seu poder perante esta sociedade e seus exércitos instintivos. Que rastros deixará Nikolai nessa busca, enquanto tenta se livrar de seu passado? A HQ, como veremos busca deixar seus rastros no autor e em nós, potenciais leitores.

Os valores para apoiar Rastros variam de R$ 10 a R$ 200. A recompensa mínima é receber uma cópia em arquivo .pdf do quadrinho e ter seu nome nos agradecimentos da obra. O álbum impresso será enviado àqueles que pagarem a partir de R$ 25 – o que inclui um marca-páginas temático. Outras recompensas incluem cartões postais, cartazes, toyart, camisetas, caneca, bottom, uma pulseira de contas baseadas nas que Nikolai usa, sketches e páginas originais, a transformação do apoiador em um animal antropomórfico e brindes dos parceiros dos parceiros de João Lucas na Bananazebra – a HQ Luz Picada, de JP Nakashima (roteiro), Felipe Sato (arte) e Felipe da Silva (cores) e/ou uma camiseta especial do coletivo.

Com esses e o próprio João Lucas, o incipiente Bananazebra conta com uma equipe total de nove pessoas, com Guilherme Nakashima (dedsenhista/arte-finalista), Nilton Frederico Teixeira (roteirista), Caio Felipe dos Santos (editor), Guilherme Grassi (colorista) e Lívia Lourenço (administradora).

As muitas influências, como o budismo, Bruce Lee e Paul Pope, deixaram rastros que levaram o Terra Zero até João Lucas. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a obra e muito mais. Confira:

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Terra Zero: Como surgiu a ideia de Rastros?

João Lucas: Rastros, acima de tudo, começou com uma vontade de desenhar animais e escrever uma boa e velha aventura. Mas com o passar do tempo, esses conceitos, que já existiam de maneira muito forte dentro de mim, foram se aflorando e deixando cada vez mais clara minha vontade de passar uma mensagem pros leitores: Ubuntu, teoria da racionalidade, conceitos budistas… Todas essas coisas saíram quase que como cuspidas enquanto eu escrevia o roteiro. E, assim, eu vi Rastros ir tomando forma diante de meus olhos! [risos]

Ótimo. Já ia chegar nestes conceitos budistas… No vídeo de apresentação, você fala sobre a filosofia do seu avô, por exemplo. Como a filosofia budista entrou na tua vida? É algo mais recente ou tem a ver com a tua criação…

Então… Não sou budista. Nem tenho uma forte influência por perto. Apenas me identifico muito com o conceito e aplicar ele me faz bem. Quando eu tinha doze anos, meu avô me deu esse livro, chamado If You Meet the Buddha on the Road, Kill Him!A tradução literal seria Se Encontrar o Buda na Estrada, Mate-o!. O livro usa conceitos budistas para falar como matar o que te dá forças é a última etapa na estrada da evolução interna. Se livrar daquilo que sempre foi seu maior conforto e inspiração. A coisa mais dolorosa a se fazer, porém a mais necessária para evoluir.

Esse livro me encantou de cara. Foi uma grande inspiração pra criação da HQ e, por incrível que pareça, o conceito se aplicou diversas vezes a minha vida. Um exemplo disso: Rastros é um presente para meu avô. Desde o inicio, sempre foi assim. Ele sempre me incentivou no mundo dos desenhos e sempre quis ver algo meu publicado. Coincidentemente, ele faleceu uma semana antes da campanha entrar ao ar no Catarse. Eu até pensei em desistir, mas enfim, isso só me deu mais forças no fim das contas.

Oh… Meus pêsames, João.

Obrigado.

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Mas isso dá todo um novo sentido ao que você diz no vídeo. Estes conceitos se aplicam a uma arte que parece bem peculiar. Uma influência a la Paul Pope, quem sabe. Tem artistas nos quais se inspira, ou que goste muito e que procura acompanhar?

Sim, tenho meus artistas favoritos. Lá fora, os caras que mais me inspiram são o próprio Paul Pope (sem dúvidas meu autor favorito), um artista chamado Andrew MacLean e o canadense Bryan Lee O’Malley, autor do meu quadrinho favorito, Scott Pilgrim Contra O Mundo.

Mas, no fim das contas, quem acaba me influenciando mais diretamente são os autores brasileiros mesmo. Felipe Nunes, Magenta King e Camilo Solano são meus favoritos, tanto no Brasil como no universo. Os caras tem uma sensibilidade sensacional, e uma compreensão da nona arte que me deixa bobo. Além de serem muito legais. [risos]

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Além disso, outro aspecto importante é estar em meio a um coletivo como o Bananazebra. Além da divulgação, há algum outro apoio da parte dos seus colegas de lá? E essa convivência com outros autores influencia no seu trabalho também de alguma forma?

Essa é uma pergunta interessante. Eu tento fazer quadrinhos desde os 7 anos. Sempre desenhei, mas o meu lance mesmo é contar histórias e tudo mais. E eu sempre fiz isso sozinho. Até que conheci o pessoal do Bananazebra e foi amor à primeira vista. É importante ressaltar que, acima de autores que trabalham juntos, somos amigos. Melhores amigos. Desses que fazem um bom churrasco e bebem cerveja aos fins de semana, enquanto tocam músicas bregas no violão – eu sou uma exceção, pois não bebo. [risos] E cantam em um tom desafinado.

Eles me ajudam e influenciam de todas as formas possíveis. Sou fã de cada um deles. Eles não tiveram MUITO envolvimento com esse projeto específico, pelo motivo dito antes. É um presente pro meu avô, precisava ser feito 100% por mim. Mas meu próximo trabalho, por exemplo, será escrito por um outro membro e desenhado por mim.

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Mais duas perguntas. Uma é sobre o próprio Nikolai e seus trejeitos de coelho Bruce Lee. Como você o define?

É legal você falar do Bruce Lee porque é um ícone no qual eu me apoio muito. Inclusive tem muitas homenagens a ele no decorrer da trama de Rastros. Mas, enfim, o Nikolai tem muitas faces. Ora se mostra forte e impiedoso, ora é apenas uma criança com medo de perder o pouco que lhe resta. No fim das contas, cada um de nós tem um pouco de Nikolai dentro de si, e é isso que mais me atrai no personagem.

Por último… O que são histórias em quadrinhos?

Histórias em quadrinhos são sonhos impressos. A libertação de vontades contidas e tentativas frustadas. Contar histórias e ouvir histórias. Isso é mágico. E os quadrinhos sintetizam essa essência em uma experiência inesquecível. Os desenhos e as ilustrações conversando em silencio enquanto os olhos percorrem os quadros e os dedos mudam as páginas.

Alguns dizem que quadrinhos são coisas de crianças. E devem ser mesmo, pois é necessário ter a sensibilidade de uma pra perceber o quão magnífica é essa mídia. Histórias em quadrinhos são diversão.

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