[Clarim Terra-8] Pantera Negra: Herói, Vingador, Monarca

T’Challa é um dos personagens mais queridos do universo Marvel. Afinal, quem não simpatiza com a ideia de um monarca negro, com poderes oriundos de divindades africanas e ainda por cima líder da nação mais avançada do universo Marvel?

Ironicamente, o personagem também entra naquela categoria de heróis que as pessoas tem menos intimidade. Pergunte por alguma história clássica do Pantera Negra a algum leitor e você frequentemente verá uma expressão de dúvida.

O intuito do artigo é justamente traçar um panorama sucinto sobre a história editorial do Pantera Negra e sua evolução de um mero coadjuvante nas histórias do Quarteto Fantástico até sua consolidação como um dos ícones negros mais proeminentes da mitologia dos quadrinhos estadunidenses. Afinal, 2016 é o ano em que o personagem completa 50 anos de criação e nada mais justo que uma homenagem.

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Capa alternativa da novíssima ‘Black Panther’. Arte: Alex Ross.

Estereótipos e paradoxos…

O Pantera Negra é umas das muitas criações de Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel na Era de Prata dos quadrinhos estadunidenses. A primeira aparição do personagem se deu em Fantastic Four Vol.1 #52 de Julho de 1966. Isso faz de T’Challa o primeiro super herói negro no quadrinhos mainstream estadunidenses, precedendo seus companheiros de editora Falcão e Luke Cage.

Logo no primeiro quadro da primeira história com participação do Pantera já esbarramos no estereótipo do personagem africano quando Benjamin Grim , o Coisa se refere ao monarca de Wakanda como “refugo de filme de Tarzan”, questionando como um personagem africano poderia “por as mãos” em uma aeronave com uma tecnologia tão avançada. Na mesma edição, em páginas posteriores, um embasbacado Johnny Storm faz o mesmo tipo de questionamento sobre a natureza do veículo “Wakandano”.

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O questionamento do Coisa na primeira aparição do Pantera Negra. Arte: Jack Kirby.

Ao final daquele arco, os autores revelam que não só os veículos são de tecnologia de Wakanda como foram projetados pelo próprio T’Challa. Ali o personagem é estabelecido como uma das mentes mais brilhantes da Marvel, astuto o suficiente para enganar e quase derrotar o Quarteto Fantástico inteiro sem muita dificuldade.

Lee e Kirby, dois judeus de meia idade na década de 1960, inicialmente reforçam os estereótipos de povos selvagens africanos através da visão simplória dos membros do Quarteto. Entretanto em seguida, os autores esmagam as noções estabelecidas revelando que Wakanda, representada pelo seu governante, está muito longe de ser um nação de meros selvagens africanos.

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T’Challa superando com facilidade o Coisa e o Tocha Humana. Arte: Jack Kirby.

O retrato de Wakanda pintado por Lee e Kirby é recheado de paradoxos. Ao mesmo tempo em que a nação mantém tradições arcaicas e vínculos religiosos extremamente clichê em termos de povos africanos, o país nunca foi colonizado, é a nação mais avançada do planeta no universo Marvel (possuindo a única reserva mundial do raríssimo metal conhecido como Vibranium) e aparentemente vivem em reclusão, escondidos do resto do mundo. Desta forma, o Pantera e Wakanda são concebidos como uma estranha mistura das noções ocidentais preconceituosas sobre nações africanas na época e um pouco de ficção em quadrinhos.

Contextualizando, a década de 1960 nos Estados Unidos é marcada pelo movimento dos direitos civis e a criação do Pantera Negra e de toda a mitologia Wakandana parece ser uma resposta à violência sofrida por americanos descendentes de africanos na época. Inteligentemente, ao situar o herói em outro continente, a Marvel desvia das polêmicas sociais da época nos Estados Unidos e ainda consegue atender o mercado com uma franquia que representa um novo nicho étnico ainda não explorado.

De Coadjuvante a protagonista…

Apesar de Lee e Kirby plantarem os alicerces para toda a mitologia de Wakanda, (incluindo a traumática relação entre a família real de Wakanda e Ulisses Klaw, o Garra Sônica) até o início da década de 1960 T’Challa é frequentemente usado pelos autores da Marvel como um personagem coadjuvante em outras histórias, ou com o intuito de fazer comentários superficiais sobre questões raciais e sociais da época.

A Marvel no final da década de 1960 / início da década de 1970 vivia um dilema editorial em relação ao movimento dos direitos civis nos EUA. O Pantera refletia isso nitidamente em suas aparições neste período – apesar do personagem ser usado como uma ferramenta válida de comentário sobre questões como o Apartheid, ao mesmo tempo a empresa demonstrava receio em associá-lo à organização política extraparlamentar afro-americana conhecida como O Partido dos Panteras Negras, chegando ao ponto de mudar brevemente o nome do personagem de Pantera Negra para Leopardo Negro.

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T’Challa justifica a mudança de codinome para “Leopardo Negro” em “Fantastic Four”#119. Arte: John Buscema.

Em 1973 o Pantera Negra virou protagonista de seu próprio destino com a republicação de uma história do personagem de 1969 (The Avengers Vol.1 #62) na quinta edição do título Jungle Action e o subsequente início da primeira fase de histórias próprias do herói escritas pelo autor Don McGregor para a mesma revista.

A trilogia de histórias escritas por McGregor (intituladas Panther’s Rage, Panther’s Prey e Panther’s Quest) dão uma imensa profundidade ao personagem e a todo a nação que ele governa sem dissociá-lo das pertinentes questões raciais da época. McGregor equilibra com maestria os dilemas pessoais de T’Challa como líder da nação mais evoluída da Marvel, explora tópicos como xenofobia, preconceito e ódio racial, e mostra o homem por trás do monarca através de questões do relacionamento amoroso do herói com a música norte-americana Monica Lynne.

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T’Challa, Monica Lynne e os dilemas de um monarca em “Jungle Action” #15. Arte: Billy Graham.

Na fase de McGregor fica estabelecido um dos pontos cruciais para se entender o Pantera, o dilema entre governar uma nação que vive um regime isolacionista por se considerar de fato “melhor” que o resto do mundo e sua relação pessoal com o restante do mundo através de sua persona de super-herói. Este tema se tornou, dali em diante, recorrente nas histórias do personagem. O mote ‘homem versus rei’ pode ser observado em diversas fases do Pantera e em sagas da Marvel nas quais ele participa. A trilogia de McGregor ainda tem o mérito de retratar um elenco quase que totalmente negro e contar histórias ambientadas quase que em sua totalidade na nação de Wakanda, em oposição às histórias anteriores do Pantera em que ele era o “personagem africano” nos Estados Unidos em meio a um amontoados de super heróis e coadjuvantes brancos.

A ascensão do estrategista político…

É incontestável que roteiristas como Don McGregor, Peter B. Gillis e Denys Cowan tranformaram um coadjuvante super heróico em um personagem com uma personalidade marcante e dilemas extremamente válidos, além de enriquecerem demais toda sua rica mitologia. No entanto, para entender como o Pantera Negra se consolida como um dos maiores estrategistas políticos da Marvel e um herói respeitado mundialmente é necessário falar da fase escrita pelo homem chamado Christopher Priest.

Chistopher Priest, um dos primeiros roteiristas negros a escrever para uma grande editora estadunidense, assume o terceiro volume do gibi solo do Pantera Negra no ano de 1998. Sua fase no título é composta de 62 edições nas quais o autor responde a toda a suposta condescendência com a qual a Marvel trata o personagem desde sua criação. Na fase escrita por Priest, o Pantera se torna um verdadeiro líder político de Wakanda e os pormenores de suas ações como super herói global são frequentemente relacionados a uma agenda pessoal que preconiza a soberania e o bem estar de seu povo.

Nesta oportunidade, o gibi do Pantera ganha fortes contornos de thriller político super heróico e finalmente é ressaltada toda a importância de T’Challa e Wakanda para o universo Marvel. O que os autores da década de 1970-80 fizeram pela personalidade de T’Challa, Priest faz pelo seu papel no contexto global super heróico da Marvel. Um exemplo claríssimo é a (já clássica) revelação de que o Pantera se associou aos Vingadores não por altruísmo, mas com intuito de espioná-los por considerá-los um grupo com poder grande demais no planeta.

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O Pantera revela suas motivações ao se unir aos Vingadores. Arte: Joe Jusko.

Nesta fase, que tem final no início da década de 2000, o Pantera Negra se consolida como um dos pesos-pesados da Marvel, não exatamente em escala de poder, mas sim em influência nos acontecimentos deste universo. Isto tem a função de pavimentar o caminho traçado para o personagem em suas histórias dali para frente tendo reflexos no trabalho de todos os roteiristas que tocaram o personagem até hoje.

O Pantera moderno…

A partir da passagem de Christopher Priest pelo Pantera Negra, o personagem fica definido tanto como um homem divido entre um governante e um herói quanto um grande estrategista político e uma personalidade pragmática em ocasiões.

Hoje T’Challa é um sujeito em um dilema constante que é capaz de em um momento se apaixonar pela mutante Ororo Munroe e de fato se casar com ela, usar este casamento como evento diplomático para tentar acabar com a Guerra Civil super heróica e em outro momento se separar da personagem de forma extremamente abrupta e fria por conta de sua associação com o mutante e governante Atlante, Namor, que na época havia atacado Wakanda durante a saga Vingadores vs X-Men.

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O casamento de Tempestade e Pantera Negra durante a Guerra Civil super heróica da Marvel… Arte: Frank Cho.
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… e o anulamento do casamento após os ataques mutantes a Wakanda em “Vingadores vs X-Men”. Arte: Adam Kubert.

Decisões editoriais a parte, o fato é que nas décadas de 2000 e 2010 o papel do Pantera Negra só cresceu no contexto geral da Marvel. Sua participação nas histórias do Quarteto Fantástico de Jonathan Hickman estão a anos-luz de distância de suas primeiras aparições no gibi da primeira família da Marvel.

O T’Challa de 2016 é uma figura extremamente respeitada (e até temida) pela comunidade super heroica Marvel e valorizado pelo corpo editorial da empresa, sendo frequentemente usado como um dos protagonistas chave em grandes eventos como a recente saga Guerras Secretas. Em tempo, seu papel durante toda a excelente passagem de Jonathan Hickman pelo título New Avengers é crucial para a construção do universo Marvel como conhecemos hoje. Dilemas existenciais complexos, adversários de peso e decisões que afetam todo o multiverso da editora atualmente são coisas que o personagem “come no café da manhã”.

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O Pantera Negra protagoniza um dos momentos chave em “Guerras Secretas”. Arte: Esad Ribic.

Portanto, a decisão editorial de contratar o aclamado novelista e jornalista Ta-Nehise Coates para escrever o mais novo volume de histórias do Pantera Negra, além de sua inclusão no universo cinematográfico da Marvel no vindouro filme Capitão América: Guerra Civil e em um longa metragem solo só demonstra o cuidado, respeito e carinho com o qual a empresa atualmente trata este personagem. Para os fãs, já havia passado o tempo de um dos governantes mais importantes da Marvel ser finalmente ser tratado pela empresa como o herói, vingador e o monarca que ele é de fato.

 

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