[#CasoBerganza] A repercussão sobre abusadores no meio editorial

A demissão de Shelly Bond, como já falamos mais cedo, virou o ponto de partida para o retorno das acusações de assédio sexual perpetrados pelo editor da linha Superman, Eddie Berganza, em 2011. Agora, traremos algumas das repercussões a respeito dele e de outros supostos abusabores, cujos nomes agora estão sendo citados em voz alta.

Os primeiros que falaram sobre o assunto foram o jornalista Nick Hanover e a editora Janelle Asselin. Ela está diretamente envolvida com o caso de Eddie Berganza: ela foi uma das funcionárias da DC a colocar uma ação judicial contra a empresa em 2010, juntamente com outras criadoras. Seguem abaixo os tuítes de Janelle:

Asselin, baseada em sua experiência pessoal na DC, não têm muita esperança de que a situação mude, apesar de agora mais pessoas estarem dando nomes aos abusadores. Ela lembra que tem amigas que ficaram com stress pós-traumático por conta de pessoas como Berganza, e que todo o caso deixou-a próxima do suicídio. Segundo a profissional, a DC fez sua escolha há muito tempo, ao mantê-lo e promover seu trabalho. Felizmente, Janelle lembrou-se que, em 2010, quando ela e outras funcionárias da editora colocaram uma ação judicial contra a organização, muitos colegas homens também se posicionaram a favor das vítimas como testemunhas.

Outras criadoras se posicionaram, mostrando como o caso Berganza afastou e afasta muitas mulheres da editora, impedindo uma maior participação delas na DC. A colorista Jordie Bellaire (The Manhattan Projects, Cavaleiro da Lua, Quantum & Woody), ao recusar-se a trabalhar com Berganza, teria perdido outro trabalho dentro da editora. A artista Sophie Campbell (Jem and The Holograms, Tartarugas Ninja), por sua vez, escolheu nem começar a desenhar para a editora apenas por medo do conhecido abusador.

Katie Schenkel, do site The Mary Sue, apontou, confirmando as histórias, como a presença de Berganza tem a forma de um sinal de “mantenha-se longe” para as mulheres que desejam trabalhar com quadrinhos da DC Comics. Ela também deu pistas sobre outros abusadores, sem querer entrar nos nomes em si. Um deles teria escrito pelo menos algum título na DC desde o começo dos Novos 52 – e continuará tendo trabalho em Rebirth. O outro é relacionado à Red Wolf, uma das primeiras revistas do All-New, All-Different Marvel Universe a ter sido cancelada. Seria o escritor Nathan Edmonson?

Nick Hanover, do Loser City, falou bastante a respeito. Ele primeiro refutou que as acusações contra Berganza sejam infudadas, falando que há informações “sólidas e verificadas” sobre fatos desta natureza de autoria do editor da DC. Slott tentava retirar o crédito das acusações utilizando a alegação de que seria um factoide, pois a demissão de Shelly Bond não apresenta ligação direta com o caso Berganza.

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Mais tarde, o jornalista Matt Santori Griffith, do Comicoscity, apontou mais nomes. Nathan Edmonson, de Red Wolf, aparece aqui novamente. Alex De Campi, no ano passado, falava em pelo menos cinco escritores e editores conhecidos por serem assediadores de mulheres. Será que há mais deles?

Segundo a organizadora da Lady’s Night Anthology, Caitlin Rosberg, um fanzine apenas composto por quadrinistas femininas, o próprio Dan Slott estaria entre essas pessoas, o que daria um bom motivo para o escritor querer que a questão deixe de ser comentada ou seja ridicularizada. Ela também apontou que não se pode falar somente de um abusador, mas sim de todos os inseridos na indústria, uma vez que, do contrário, isso aumentaria as chances da questão do abuso de criadoras nas grandes editoras ser esquecida assim que seja aplicada alguma punição a Berganza, caso ocorra.

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Gillen é conhecido por seu apoio na militância a favor das mulheres. Deu destaque à matéria mais atual do Bleeding Cool sobre o caso, dando apoio ao combate de forma tímida, porém pontual. Controlar as bases de fãs/leitores é uma tarefa bem mais difícil que educar a conduta pessoal, exigindo muito mais tempo para a conscientização de grupos. Aqui no Brasil, sites como o Melhores do Mundo tiveram repetidos casos de seus leitores invadindo outros sites que se utilizam do sistema Disqus de comentários, causando inúmeros problemas à equipe do MdM até algum tempo atrás.

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A escritora Gail Simone (Sexteto Secreto, Aves de Rapina, Deadpool) levantou o problema também, em sua página no Facebook. Para ela, esta questão não é sobre uma editora, uma editoria, ou mesmo um editor, pois estaria arraigada em vários aspectos da comunidade de criadores e consumidores de histórias em quadrinhos. “O que eu estou dizendo é simplesmente que podemos fazer melhor. E seria legal termos profissionais simplesmente dizerem que assédio é errado e não tem espaço em nossa indústria.”

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Depois do episódio de assédio na WonderCon, Berganza foi proibido pela DC de aparecer em convenções e foi rebaixado de editor-executivo para editor apenas da linha Superman, onde, segundo relatos, houve tempos em que nenhuma mulher poderia trabalhar para que não houvesse risco de descontroles por parte do editor. O departamento de Recursos Humanos da editora também mandou-o para tratar-se da tendência.

Nick Hanover também apontou a lentidão de muitos sites em acompanhar a questão – todos com muito mais estrutura que o Terra Zero, diga-se de passagem – como o Comic Book Resources (CBR) e o Newsarama. Citou a Paste Magazine, um veículo de abrangência cultural muito mais abrangente, que falou da questão muito antes destes. O Comics Alliance cobriu a questão de forma tímida, com direito a correção em um comentário de Rich Johnston, editor do Bleeding Cool – um dos poucos a comentar sobre o caso Berganza ainda em 2012. Importante relembrar que o Comics Alliance emprega o já citado Chris Sims, conhecido por ser o perpetrador de ataques de cyberbullying contra a escritora e editora Valerie D’Orazio, entre 2007 e 2010.

Alguns outros sites ainda trataram a questão por outros viés, vindo a ser retuitados por criadores como Dan Slott (Espetacular Homem-Aranha) – levando uma imediata bronca do vice-presidente executivo da Marvel Comics, Tom Breevort, depois dos comentários e discussões acaloradas com outros internautas.

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Em contato com este redator, Caitlin Rosberg relatou que, quando começou a escrever resenhas em seu blog pessoal, foi alertada de que, se mencionasse Dan Slott, ele próprio poderia aparecer e dizer coisas nojentas. Ele teria feito justamente isso em alguns de seus posts. A criadora ainda apontou que, entre dez vezes que ouve falar em assédios dentro da Marvel, nove estariam associadas a Slott ou Breevort. Segundo Rosberg, em geral, a atitude de Kieron Gillen (Uber, Darth Vader, The Wicked + The Divine) sobre críticas ao trabalho dele tem também seria bastante prejudicial, porque tais atitudes fariam com que a base de fãs do autor teria justificativas para atos como, por exemplo, maltratar mulheres.

O CBR, apesar de destacar que a DC nunca admitiu publicamente os abusos de Berganza contra funcionárias da empresa (mesmo sem apresentar fotos do editor, peça central na questão), teve todos os posts de seu fórum dedicado que falavam sobre Eddie Berganza como abusador retirados do ar por cerca de uma hora. Mais tarde, um dos editores do site, Albert Ching, refutou que a ação tenha partido do editorial do site, apesar das suspeitas fundadas no fato de que a DC Comics tem o costume de anunciar no CBR.

Martin Pasko no forum do CBR, tópico apagado

Em um desses posts, o veterano editor Martin Pasko sustenta que o assédio e abuso constantes às criadoras de quadrinhos só irá se dissipar quando a questão se tornar permanente nas discussões que envolvem o meio editorial dos quadrinhos.

hasDC

Nesse sentido, o site The Outhousers, conhecido por sua postura mais irreverente e suas críticas às editoras, resetou, indefinidamente, o contador de “Quantos Dias Fazem Desde que a DC Comics Fez Algo Estúpido“, estimulando a discussão de forma mais perene – pelo menos a respeito do caso Berganza. O instrumento foi instituído em 2012, quando múltiplos criativos deixaram a DC depois de uma série de decisões editoriais aplicadas de cima para baixo em vários títulos. De acordo com o site, o contador somente voltará a subir acima de zero quando a DC se manifestar publicamente e resolver a questão, deixando isso claro, em destaque, logo abaixo da contagem.

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