[#Review] Nós vimos: Batman vs Superman – A Origem da Justiça (sem spoilers)

Após nada menos que quase três anos de produção (Homem de Aço estreou em junho de 2013), Batman vs Superman – A Origem da Justiça chegou aos cinemas. As primeiras sessões no Brasil acontecerão amanhã antes da meia-noite e exibições para a imprensa e convidados do estúdio vêm ocorrendo desde o final da semana passada no mundo todo. Como se tornou comum no mundo dos super-heróis, este filme gerou polêmica, desde a escolha do elenco – como o novo Batman ser Ben Affleck, por exemplo – até o fato de existir um Homem-Morcego em um filme que, a princípio, seria uma continuação do filme do Superman.

Não se trata de um Homem de Aço 2. Porém, isso não diminui a importância do personagem na trama. Na verdade, A Origem da Justiça jamais existiria sem ele. O “Superman” não está no título do filme apenas para chamar o público apelando para uma batalha entre ele e o Batman; há substância na trama, há significado neste Superman.

Henry Cavill é Superman em Batman vs Superman - A Origem da Justiça. Reprodução.
Henry Cavill é Superman em Batman vs Superman – A Origem da Justiça. Reprodução.

Como prometido no título da nota, este artigo não terá spoilers. De qualquer forma, algumas coisas precisam ser ditas, em especial para aqueles que estão com expectativas equivocadas sobre o filme. A Origem da Justiça é um grande filme, mas não é para todos os públicos, tampouco um divertimento de algumas horas para levar os amigos e se divertir. Trata-se de um filme complicado, com trama e caracterizações densas, que exigem do espectador paciência e força para lidar com a sensação de desconforto que o primeiro ato traz. Esta sensação desconfortável vem da demora para o filme entregar o que prometeu nos trailers e da densidade do roteiro.

Falando nisso, Chris Terrio foi um grande acerto do estúdio. Roteirista do premiado filme Argo (2012), Terrio teve liberdade para lidar com temas complexos na narrativa. Ainda que o filme tenha alguns vícios de linguagem visual típicos da carreira de Zack Snyder (diretor), a mão de Terrio é pesada e se faz ser vista o tempo todo. Mesmo no terceiro ato, quando o filme parte para as lutas entre protagonistas e antagonista, existe emoção. Há um sentido para aqueles personagens usarem os punhos controlados pelo coração. Todos ali lutam pelo que acreditam, por algo maior que suas próprias vidas.

Ben Affleck é Batman em Batman vs Superman - A Origem da Justiça. Reprodução.
Ben Affleck é Batman em Batman vs Superman – A Origem da Justiça. Reprodução.

Em termos de interpretação e dinâmica, todos estão muito bem em seus papéis. Nessa parte, aliás, todos entregam muito do que está nos trailers. Henry Cavill está muito à vontade como Clark Kent, assim como Ben Affleck encarnou Bruce Wayne com tranquilidade. É bem provável que os atores tenham feito as melhores performances destes dois personagens no cinema. seus alter egos, porém, gerarão discussões. Ainda que ambos deem o sangue para serem as mais atualizadas e importantes versões dos dois icônicos heróis, o material que lhes foi dado certamente não será aceito por muitos fãs. Como o filme é denso, Terrio fez algumas escolhas como roteirista que podem deixar fãs de nariz torcido. O que é normal, claro, mas gerará discussões, de qualquer forma.

Gal Gadot não dá um show, mas faz bem seu papel, principalmente quando está como Mulher-Maravilha. A atriz conseguiu tirar tudo que tinha de si para dar vida à maior guerreira dos quadrinhos e conseguiu. Seu tempo de tela é pequeno, mas valioso. Quem esperou anos para ver a Trindade da DC em ação terá regozijos ao ver como a dinâmica dos três é natural e bem construída.

Gal Gadot é Mulher-Maravilha em Batman vs Superman - A Origem da Justiça. Reprodução.
Gal Gadot é Mulher-Maravilha em Batman vs Superman – A Origem da Justiça. Reprodução.

O terceiro ato de A Origem da Justiça dificilmente gerará divergência. De natureza catártica, este trecho do filme deve ter sido construído por Terrio com muita meticulosidade. O autor foi cuidadoso ao mostrar as motivações de Lex Luthor, um show à parte no filme. Quem ficou incomodado com o jeito pirado de Jesse Eisenberg viver o arqui-inimigo do Superman nos trailers terá uma grata supresao ao assitir ao filme. Há vários plot-twists envolvendo todos os personagens, muitos deles causados por Lex, o que torna esta nova versão do personagem uma das mais significativas já feitas. Nem mesmo o Batman, com toda sua inteligência e sagacidade consegue escapar do pensamento infinitamente superior do vilão.

Dito isso, é importante deixar claro que a intensidade do terceiro ato é muito grande. As reviravoltas são surpreendentes e mostram o caminho que a DC/Warner escolheu para seus próximos filmes. Batman, Superman e Mulher-Maravilha não são super-heróis. São analogias de deuses mitológicos e, como tais, estão suscetíveis a falhas que geram perigosas consequências. Quanto mais próximo do fim o filme chegar, mais intenso fica o roteiro. Neste ponto há de se dar o braço a torcer para Snyder. Mesmo com todos os defeitos que sua direção tem, o diretor conseguiu transpor muito bem o roteiro para as telonas.

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Ficou claro por que o estúdio fez de tudo para guardar segredo sobre a trama do filme. Na mesa também estão as cartas para a formação da Liga da Justiça. Agora tudo está claro e não há mais volta.

Se para definir o filme em poucas palavras fazendo um balanço entre o que foi prometido e o que foi entregue, somando ainda a experiência audiovisual e o que ele deixa em aberto para o futuro, Batman vs Superman merece ser definido com adjetivos como catártico; forte; pesado; complexo. A Warner conseguiu fazer algo diferente de tudo que existe neste meio e, para o bem ou para o mal, estabeleceu no mercado uma nova forma de se fazer filmes de quadrinhos.

Em Rocky Balboa, o sexto da franquia cinematográfica de Sylvester Stallone, há uma cena em que Rocky fala para seu filho o quanto viver é triste e pesado, como deve-se enfrentar seus desafios para viver. Há um trecho dela que define muito bem como é a experiência de assistir a Batman vs Superman – A Origem da Justiça:

(…) O mundo não é um arco-íris e um amanhecer, na verdade é um lugar ruim e asqueroso. E não importa o tão durão você seja, apanhará e ficará de joelhos. (…)

Batman vs Superman – A Origem da Justiça te deixará de joelhos, mas não para pedir clemência; é para se levantar, para você, espectador, mostrar que aguenta e que está preparado para mais.

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