[Pitaco] A piada mais mortal é que Alan Moore tem razão

O Terra Zero já falou extensamente sobre a Batgirl há um ano, em março de 2015. O tema exato era não só Barbara Gordon enquanto personagem, mas a relação dela com A Piada Mortal, uma das graphic novels mais famosas da segunda metade dos anos 80, escrita por Alan Moore e desenhada por Brian Bolland.

Por isso, neste março de 2016, é curiosa a forma como a edição #49, lançada no último dia 2, causou polêmica. Nela, é revelado que um antagonista implantou uma série de memórias na encarnação da Batgirl que surgiu n’Os Novos 52. Dentre as partes da vida da heroína que ficam sob suspeição, está nada menos que o seu encontro fatídico com o Coringa, que a teria deixado paralítica por bastante tempo, no qual ela atuou como Oráculo. Ela então era a maior conhecedora dos super-heróis da DC Comics, atuando com o Esquadrão Suicida em sua primeira revista, além da Liga da Justiça em algumas de suas formações.

Batgirl #49. Arte de Babs Tarr. Para quem não notou, são as imagens maiores à esquerda e direita, fazendo referência direta À Piada Mortal.
Batgirl #49. Arte de Babs Tarr. Para quem não notou, são as imagens maiores à esquerda e direita, fazendo referência direta À Piada Mortal.

Há muitos comentários nas redes sociais sobre a aparente leniência da DC para com a equipe da revista, que tem roteiros de Cameron Stewart e Brenden Fletcher, além de arte de Babs Tarr, desde a edição #35. Estariam eles brincando com a cronologia, apenas para agradar “guerreiros da justiça social”, que seriam apenas uma minoria vocal que não tem interesse nenhum em comprar quadrinhos?

Provavelmente não.

Como e Porque

Existem muitos motivos para não ir direto para uma reação furiosa a respeito do caso. O primeiro deles é que este arco de histórias nem mesmo foi finalizado. E se esta visão de eventos “mentirosos” na cronologia de Barbara Gordon for tão somente uma ilusão, para fazê-la questionar-se e acabar com sua determinação por algum motivo? E se apenas alguns dos fatos demonstrados forem inverdades? O dano na coluna que a levou a ser cadeirante pode não ter sido mentira, e assim somente o motivo para tal consequência: um acidente de carro, uma queda em uma outra aventura como Batgirl… Pode-se pensar em diversas hipóteses. Nenhuma delas, entretanto, confirmada.

Capa alternativa de Batgirl #41 rejeitada em março de 2015. Arte de Rafael Albuquerque.
Capa alternativa de Batgirl #41 rejeitada em março de 2015. Arte de Rafael Albuquerque.

Afinal, é apenas uma página com imagens – não há diálogos na edição que informem categoricamente que os eventos de A Piada Mortal são construtos inseridos na mente da heroína. Até mesmo Cameron Stewart atentou a isso em sua conta no Twitter:

É possível também aferir que os eventos foram, sim, alterados a partir de Flashpoint – como, aliás, muita coisa na cronologia pós-Crise nas Infinitas Terras. Essa alteração para que esta época tenha sido algo fabricado na cabeça da Batgirl é bem esquisito, sem dúvida. Mas reunir os Titãs originais, que não se lembram mais que já foram os Titãs, como em Titans Hunt, de Dan Abnett (texto) e Paulo Siqueira (arte), também é bizarro, não concordam? Ninguém está reclamando por conta disso, até onde este redator tenha lido.

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Os fãs da atual fase da personagem simplesmente não gostam de A Piada Mortal. Eles e elas, que compram em bancas e em edições digitais a personagem todos os meses, em sua maioria devem estar em par de igualdade demográfica (mesma faixa etária, poder aquisitivo, etc) com as pessoas que manifestam no Twitter a respeito. Uma empresa de comércio de bens digitais como a Comixology, ainda mais ligada ao grupo Amazon, muito provavelmente tem esses dados sobre os públicos de cada título em seu catálogo, o que dá margem para o editorial e o marketing darem mais ou menos liberdade criativa para a equipe. Logo, se jogar favorecendo essa galera dá dinheiro para a DC Comics, não há motivo para não ser feito.

Não é algo que “machuca a liberdade dos artistas”, porque eles mesmos, ao se manifestarem contra a fatídica capa alternativa de Rafael Albuquerque em 2015, já mostraram que essa desconsideração está de acordo com o que eles pensam. A Batgirl de 2015, queira você ou não, não ganha nada enquanto personagem ao ficar se lembrando e remoendo o período que passou em uma cadeira de rodas depois de levar um tiro do Coringa. A revista poderia simplesmente ignorar isso, porque ninguém que lê Batgirl hoje deveria precisar ler uma história de 28 anos atrás. O problema é que constantemente A Piada Mortal continua a ser incluída em listas de graphic novels mais vendidas de veículos como o The New York Times. Logo, se faz necessária uma proposição, dentro da revista, que represente melhor seu público atual.

O que Sílvio de Abreu, Aguinaldo Silva e Manoel Carlos têm em comum com os autores da DC?
O que Sílvio de Abreu, Aguinaldo Silva e Manoel Carlos têm em comum com os autores da DC?

A rotina de produção de uma história em quadrinhos nos universos compartilhados da DC, ao contrário do que muitos dos que defendem a liberdade criativa pensam, é muito mais próxima da de um escritor de novelas, apesar de não precisar ser alterada com tanta agilidade. Se alguém escreve um arco e ele é muito criticado, ou vende muito mal, essa pessoa, se pensa em se manter na revista, ou mesmo na editora, pensará em maneiras de atrair mais público/públicos diferentes/outros públicos. Além disso, outra estratégia válida é a de empregar técnicas de narrativa, tanto textual quanto visual (estas passadas ao desenhista, que também aplicará sua visão, obviamente), enveredando por novas histórias e formas de contá-las. E se tudo der errado…

Mude uma vez e, depois, mude de novo

Estamos falando de histórias em quadrinhos. Rebirth chega em junho, e com ele, uma nova mexida na cronologia. Isso pode causar, sim, uma revisão de qualquer coisa feita por Fletcher, Stewart & Tarr em suas 17 edições de Batgirl, da #35 até a #52, em maio. Porque é assim que reboots e retcons funcionam, correto? Muitas coisas, inclusive, demoram a ser plenamente explicadas depois de eventos como a Crise nas Infinitas Terras ou as recentes Guerras Secretas da Marvel. São mundos renovados, contando novas histórias, contorcendo os universos compartilhados de novas maneiras, para se manter, se renovar ou ampliar o interesse do público.

Oráculo interpela pela primeira vez, à distância, a diretora da Força-Tarefa X, Amanda Waller. Arte de Len Wein.
Oráculo interpela pela primeira vez, à distância, a diretora da Força-Tarefa X, Amanda Waller. Desenho de Luke McDonell e arta-final de Karl Kesel.

A própria Piada Mortal foi alterada quando da sua inserção no cânone da Bat-família. Ela foi criada por Alan Moore como uma história fora da cronologia, e só no momento da sua publicação, em 1988 (já no pós-Crise, portanto) que ela começou a ser considerada verdadeira na Terra unificada da DC, sendo referenciada com a aparição da filha do comissário, já no papel de Oráculo, no Esquadrão Suicida de John Ostrander (roteiro). Tanto que, por isso, a teoria de que a última cena entre Coringa e Batman resulte na morte do vilão é bastante refutada: claro, se a história não fosse canônica, não precisaria haver discussão, já que o final, sutil como é, deixa a cena sujeita a diferentes interpretações.

Dado o fato de que o trio de criadores estará na próxima ImageEXPO, e diz-se que Barbara Gordon deixará Burnside, por onde fixou residência durante a passagem deles pela obra, com a chegada de Rebirth, é bem possível que eles não estejam envolvidos nem na nova Batgirl nem em Batgirl And The Birds of Prey, revistas confirmadas na lista já divulgada pela DC das revistas da nova linha.

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Se tudo mudar novamente, para nunca mais ser como antes…

E daí?

Não haverá, assim como agora, nada de errado com isso. São negócios. É a DC, não a Image, na qual há controle total das equipes criadoras. É um mundo criado por um comitê. Por mais que, do ponto de vista artístico, possa ser excelente, se as pessoas não compram, nada feito. Se você não gosta do direcionamento, o que você pode fazer para mostrar que discorda? Não compre.

Por que revistas como Red Hood/Arsenal, escrita antes como Red Hood & The Outlaws, está nas mãos de Scott Lobdell, assim como a revista dos Titãs até não muito tempo atrás, apesar da qualidade duvidosa do escritor? Elas vendem. Apenas Red Hood/Arsenal #22 vendeu, conjurando um pleonasmo, mais de 22 mil unidades em fevereiro de 2016, em 89º lugar no ranking da Diamond. Vendeu mais que, por exemplo, Arqueiro Verde #49, que ficou cinco posições abaixo. Uma revista como essa não vai trocar de escritor.

Um pedaço dos anos 90 conjurado por Lobdell. Mas vende, então está aí. Capa variante de Jonboy Meyers.
Um pedaço dos anos 90 conjurado por Lobdell. Mas vende, então está aí. Capa variante de Jonboy Meyers.

Finalmente, há uma questão levantada por Cameron Stewart e recortada da publicação de O Que Aconteceu com o Homem do Amanhã por Rich Johnston, do Bleeding Cool. No texto de abertura da clássica história do Superman, escrita também por Alan Moore, o autor britânico aponta que estas histórias, enquanto sujeitas a diferentes interpretações, são imaginárias – simulacros, portanto – e estão sujeitas às interpretações das mais diversas mentes. Grosso modo, “pense o que quiser sobre o que está na página”.

Este redator vai um passo além. Por serem ficções em si, constituídas de discurso, e não a matéria com a qual temos contato (mesmo que indireto, através dos sentidos) aqui, na nossa Terra-33, as cronologias estão mais vivas que o planeta no qual habitamos. São tão vivas quanto as pessoas que habitam aqueles mundos. Mudanças no espaço-tempo ocorrem mais rápido, e o universo compartilhado pode ser o que você, como escritor, quiser que seja, desde que todos os envolvidos concordem – nem que eles te deixem lá no seu canto, como a Liga da Justiça do Geoff Johns.

Talvez esta seja a piada mais mortal do velho barbudo de Northampton: ele tem razão. Neste site, em que assumidamente há muitos fãs de um certo careca escocês, há uma especial ironia nisto. E quem sabe, se eles pelo menos não desdenhassem um do outro, pelo menos concordariam neste ponto. Afinal…

"Esta é uma história imaginária... Não são todas?" - Texto de Alan Moore.
“Esta é uma história imaginária… Não são todas?” – Texto de Alan Moore.
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