[Clarim Terra-8] Demolidor, Elektra, Justiceiro – o Triângulo Mortal

O Demolidor é um dos personagens urbanos mais queridos da Marvel. Sua cruzada por justiça, seus muitos (e conturbados) amores, sua história de superação como deficiente que se tornou o advogado combatente do crime e sua relação de idas e vindas com a lei fazem deste universo um prato cheio para qualquer roteirista que seja designado para trabalhar com o personagem.

Demolidor - Segunda temporada
John Bernthal, Charlie Cox e Élodi Yung formam o triângulo mortal na nova temporada de “Demolidor” da Netflix.

Toda esta riqueza se reflete tanto nos gibis quanto na adaptação do universo do personagem para a sua bem sucedida série do Netflix. Agora, com uma segunda temporada cheia de novos elementos da mitologia urbana da Marvel como Elektra e Frank Castle, o Justiceiro, decidimos compilar aqui algumas histórias marcantes entre estes ambíguos personagens e analisar brevemente as relações entre este triângulo mortal da Casa das Ideias.

O Demolidor e Elektra

Um dos casais mais celebrados do Universo Marvel é, também, um dos relacionamentos mais tortos de sua bibliografia. Demolidor e Elektra sintetizam o “casal problema” no universo dos super-heróis urbanos. Ele, um vigilante mascarado de formação católica. Ela, uma ninja assassina de moral distorcida. Portanto, a relação entre os dois é explosiva, desde sua concepção. E o criador do casal já sabia disso desde o início…

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Demolidor e Elektra, um casal complicado. Arte: Frank Miller.

A relação inicial entre Elektra Natchios e o Homem Sem Medo foi brilhantemente estabelecida por Frank Miller quando a personagem foi introduzida pelo autor no universo Marvel em Daredevil #168, de 1981. Elektra é apresentada na ocasião como uma antiga namorada de Matt Murdock de seus tempos de faculdade de direito. Filha de um diplomata grego, a moça decide trilhar o caminho dos assassinos ninja, em busca de vingança após o violento assassinato de seus pais. Ao retornar à violenta cozinha do inferno na cidade de Nova York, Elektra se depara com seu antigo amor, agora como o Demolidor, o guardião da sombria vizinhança dominada pelo crime organizado.

Em um relativamente curto intervalo entre os anos de 1981 e 1982, Frank Miller costura, na mensal do Homem Sem Medo, uma das tramas policiais super-heroicas mais envolventes do universo urbano da editora. Em arcos curtos, mas interligados, Miller estabelece as encanações quintessenciais de dois dos vilões mais marcantes do Demônio da Cozinha do Inferno: O Rei do Crime e o Mercenário. O autor, de quebra, ainda nos apresenta aos conceitos por trás da organização criminosa japonesa conhecida como Tentáculo, assim como o irrepreensível personagem Stick, mestre de Matt Murdock em artes marciais.

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A assassina na arte de Bill Sienkiewicz.

As idas e vindas de Elektra no universo sombrio e sujo do Demolidor são retratadas como um misto de atração eletrizante e risco mortal. Apesar de improváveis aliados em ocasiões, os dois personagens tem dificuldade extrema em se acertar devido a suas naturezas conflitantes, motivações contrastantes e personalidades quase que incompatíveis. Nesta ocasião, a ninja é, de fato, consagrada como uma das personagens mais mortais e ambíguas da mitologia Marvel. A morte da assassina na edição 181 de Daredevil pelas mãos do aterrorizante Mercenário, ainda é um dos momentos mais icônicos e brutais da história dos quadrinhos e, até hoje, é reverenciado como um dos grandes marcos dos quadrinhos estadunidenses em todos os tempos.

Morte Elektra
A morte de Elektra é um marco nos quadrinhos da Marvel. Arte: Frank Miller.

Portanto, a relação entre Matt Murdock e Elektra pode ser facilmente compreendida com a leitura desta passagem específica de Frank Miller pelo Demolidor na década de 1980, publicada aqui no Brasil pela última vez na década de 200 nos quatro volumes dos encadernados da Panini intitulados Os maiores clássicos do Demolidor.

Pouco tempo depois, em 1986, devido à popularidade absurda da personagem entre os fãsl, Frank Miller retorna ao universo da assassina na mini-série em oito edições (publicada em quatro partes no país pela Abril na década de 1980) chamada Elektra Assassina. A história, que se passa alguns anos antes de sua reunião com o Demolidor, conta um pouco mais sobre o passado misterioso da personagem, mostrando toda a insanidade e feiura da mente de Elektra na belíssima arte aquarelada de Bill Sienkiewicz.

As missões da personagem ainda podem ser acompanhadas em duas séries regulares pela Marvel: uma publicada no início da década de 2000 (no Brasil compilada no título mensal Justiceiro e Elektra, da Panini), escrita por autores como Brian Michael Bendis, Greg Rucka e Robert Rodi; e outra mais recentemente, em 2014, escrita por Haden Blackman, com previsão de lançamento nacional para 2016. No entanto, apesar de satisfazer o apetite do leitor por boas histórias com a assassina, nenhuma destas séries define tão bem a relação do Demolidor com Elektra quanto a sua primeira aparição na década de 1980 nas histórias de Frank Miller.

O Demolidor e o Justiceiro

Matt Murdock e Frank Castle foram feitos para se enfrentar. O primeiro, um paladino da justiça tanto como vigilante ilegal quanto em sua profissão como advogado. O outro, uma máquina programada para matar quase que indiscriminadamente qualquer um que infrinja a sua própria lei.

Apesar da primeira aparição do Justiceiro na conturbada Nova York da Marvel ter se dado em 1974 em Amazing Spider-Man #129, seu primeiro encontro com um dos vigilantes mais atuantes da cidade só se deu quase que 10 anos depois, em Daredevil #183, de 1982 (publicada no Brasil na supracitada Os maiores clássicos do Demolidor).

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Demolidor encontra o Justiceiro pela primeira vez em combate. Arte: Frank Miller.

Assim como fez com Elektra, Frank Miller (na época coescrevendo o título do Demolidor com o escritor Roger McKenzie) estabelece uma dicotomia gritante entre o Homem Sem Medo e o Justiceiro, em uma trama em duas partes chamada História de criança. Na ocasião, o Demolidor e o Justiceiro se veem no encalço de um traficante, após uma jovem estudante morrer vítima de uma queda induzida pelas drogas. O Justiceiro, na época, ainda era um anti-herói em desenvolvimento na editora, e Miller aqui brilhantemente pavimenta o caminho para a formação da personalidade e modus operandi de Frank Castle, utilizando o senso de justiça do Demolidor como contraponto para a punição irracional do Justiceiro. Justiça com as próprias mãos versus Lei – uma premissa muito martelada, no entanto, executada de maneira impecável e sem pregação pelo autor neste primeiro encontro entre os dois personagens.

Seis anos desde seu explosivo primeiro encontro, o Justiceiro e o Demolidor se veem novamente perseguindo o mesmo criminoso (desde então isto torna-se um tema recorrente nas histórias envolvendo os dois personagens). Em Daredevil #257, de 1988, a escritora Ann Nocenti coloca os dois vigilantes em rota de colisão quando ambos procuram pelo levantador de pesos Alfred Coppersmith, que perdeu a sanidade após ser demitido. O diferencial da história é que Nocenti a conta pelo ponto de vista do criminoso e nos mostra o conflito entre os dois personagens sob a ótica do cidadão comum, pela primeira vez. A mesma história no entanto, é contada sob a perspectiva do Justiceiro posteriormente, desta vez com um tom muito mais brutal.

Justiceiro se entrega
O Justiceiro se entrega às autoridades para ajudar o encarcerado Demolidor. Arte: Michael Lark.

Quando fechou sua passagem nos gibis do Demolidor em meados da década de 2000, o roteirista Brian Michael Bendis deixou um dos ganchos narrativos mais fortuitos (ou ingratos) para o escritor que iria continuar no título: o Demolidor tem sua identidade exposta ao público e é encarcerado na ala de segurança máxima da Ilha Ryker. Felizmente, a revista do Atrevido foi assumida pelo genial Ed Brubaker que, com esta premissa iniciou uma das fases mais dramáticas e amargas da história do personagem. Aproveitando-se do gancho, Brubaker inicia um drama carcerário da melhor qualidade e insere o Justiceiro na história não como um adversário, mas como um valoroso aliado que se arrisca para livrar Matt Murdock da cadeia. Brubaker neste encontro dá novas tonalidades à relação entre os dois personagens e demonstra que, apesar de terem métodos diametralmente opostos, existe um respeito por parte de Castle em relação ao Demolidor.

Efeito Omega
Demolidor, Homem-Aranha, Rachel Cole-Alves e o Justiceiro em “Efeito Ômega”. Arte: Marco Chechetto.

O mais recente encontro dos dois personagens publicado no Brasil se deu na saga em três partes chamada Efeito Ômega, publicada pela Panini no encadernado Justiceiro – Volume 2 – Efeito Ômega, de 2013. A história, que é uma colaboração entre dois autores consagrados como Greg Rucka (na época escrevendo uma curta passagem pelo Justiceiro) e Mark Waid (em sua já aclamada fase a frente do Demolidor) gira em torno de um disco rígido de moléculas instáveis contendo informações sobre organizações criminosas como a IMA, Hidra, o Espectro Negro, a Agência Bizantina e o Império Secreto – de quebra, ainda envolve o Homem-Aranha. Apesar do roteiro gabaritado, o crossover não acrescenta muito à dinâmica complicada dos dois personagens, no entanto, apesar disso é notável o cuidado dos autores com a relação entre o Demolidor e a personagem Rachel Cole-Alves, que funciona como um reflexo distorcido dos primeiros dias do Justiceiro como vigilante na história.

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O explosivo e curto relacionamento entre Frank Castle e Elektra nos Thunderbolts. Arte: Steve Dillon.

Apesar de terem se esbarrado poucas vezes em sua história sangrenta, na última vez que Justiceiro e Elektra foram obrigados a trabalhar juntos e acabaram deixando sua marca no universo Marvel. Na mais recente encarnação dos Thunderbolts, em uma equipe liderada pelo Hulk Vermelho (o General ‘Thunderbolt’ Ross) composta ainda por Deadpool e por Flash Thompson (como Venom), Elektra e Frank Castle tiveram um pequeno lance durante suas missões na equipe.

A relação explosiva entre os dois personagens na passagem do roteirista Daniel Way pelo título torna-se complicada, principalmente devido a presença disruptiva de Deadpool na equipe, e não dura muito tempo.


Justiceiro e Elektra fazem parte do rico mosaico que é o universo urbano de Nova York na Marvel. Sua relação com o Guardião da Cozinha do Inferno é longa, violenta e conturbada e ajudou a cimentar toda uma mitologia em torno do personagem. Muito mais do que isso, há de fato uma estranha simbiose entre os três personagens que frequentemente quando se chocam causam algum tipo de repercussão no contexto em que estão inseridos. Assim como os dois ajudaram o Demolidor a se consolidar como um herói falho no universo Marvel, o Demônio da Cozinha do Inferno faz parte integral da construção da história dos dois assassinos.

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