[Clarim Terra-8] Capitão América: 75 anos de reflexões (3)

Sendo brutalmente franco, o Capitão América definitivamente não é o super-herói mais popular e/ou querido da Marvel, tampouco dos quadrinhos em geral. Excluindo, logicamente, os fãs mais ardorosos do Sentinela da Liberdade, todo mundo tem algum outro personagem em quadrinhos que entra na sua lista de favoritos antes de Steve Rogers. Isso é perfeitamente compreensível. Trata-se de um dos personagens dos mais antigos da indústria de quadrinhos ainda em atividade e, dadas as motivações de sua criação, é um pouco complicado manter o interesse do público no conceito do Supersoldado por tanto tempo. Com uma história editorial de altos e baixos, uma coisa sempre marcou as encarnações do personagem: de alguma forma (e dentro das limitações editoriais), os autores tentaram fazer do Capitão uma fotografia da indústria de gibis no período em que o escreviam e, por muitas vezes, um reflexo da sociedade que os cercava naquele determinado momento.

Captain America #1 comic book cover from Marvel Entertainment. Art by Steve McNiven. Original Filename: CAPAV2001_cov_col.tifvia Flatbed Web
Capitão América – um reflexo da indústria dos quadrinhos. Arte: Steve McNiven.

Aqui, o objetivo não é contar em detalhes a origem e a evolução do personagem em 75 anos de existência, mas, sim, relacionar suas diferentes versões ao contexto no qual aquelas histórias estavam inseridas e mostrar porque este personagem ainda é tão importante para a nossa querida indústria.


A Era Moderna

Apesar da era moderna dos quadrinhos (que frequentemente é associada ao ano de 1985) ter oferecido boas histórias para o Sentinela da Liberdade (um exemplo é a passagem de Mark Waid pelo título do personagem) o Capitão (e, de fato, toda a Marvel) penaram com as excentricidades super-heroicas que infestaram o mercado entre o final da década de 1980 até o início dos anos 2000.

A chamada era moderna dos quadrinhos começa em um clima de conteúdo “extremo” em publicações super-heroicas. Tudo no final dos 1980 e início dos 1990 era um pouco mais agressivo. Personagens como papéis anti-heroicos eram tendência e, de fato, não havia tanto espaço nas bancas para aquele visual clássico dos quadrinhos das décadas anteriores.

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O exoesqueleto de Steve Rogers durante a passagem de Mark Gruenwald pelo Capitão América. Arte: Dave Hoover.

Isso gerou um festival de atrocidades em muitos títulos Marvel e o Capitão América não conseguiu escapar disso: em uma história escrita por Mark Gruenwald em meados da década de 1990, após desmontar um laboratório de metanfetaminas, o soro do supersoldado é afetado pelo contato excessivo com as drogas do laboratório e isso causa uma reação no organismo do herói. Com isso, Steve Rogers não vê alternativa que não seja remover o soro de seu organismo. Isto piora sua condição. Fica definido que o soro não é mais uma droga e, sim, um organismo virótico que afetou o DNA do Capitão ao longo dos anos. Sem o soro, portanto, o corpo de Steve Rogers entra em processo de deterioração e o personagem recorre a diversos métodos para se manter vivo e atuante, incluindo o uso de um um exoesqueleto desenvolvido por Tony Stark e períodos de manutenção em animação suspensa. Por meio de uma transfusão de sangue do Caveira Vermelha (cuja mente, na época, habitava o corpo de um clone do Capitão América), a condição do Sentinela da Liberdade é estabilizada e ele volta a combater o crime normalmente ao lado dos Vingadores.

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O Capitão América de Rob Liefeld durante a iniciativa “Heróis Renascem”.

Os anos 1990 ainda foram palco da mais lamentável iniciativa já idealizada pela Marvel talvez em toda a sua história: Heróis Renascem. Após a aparente morte de seus principais personagens ao final da saga Massacre, a Marvel terceirizou a produção de seus principais títulos de super heróis para as equipes de sub-selos da Image Comics, chefiadas na época por Jim Lee e Rob Liefeld. Os times da Wildstorm chefiados por Lee assumiram os títulos do Quarteto Fantástico e Homem de Ferro enquanto o selo Extreme de Rob Liefeld ficou com os gibis dos Vingadores e Capitão América. No curso de Heróis Renascem, vimos versões alternativas dos personagens Marvel com uma proposta mais “extrema”, similar ao que era feito no época com os personagens da Image. A passagem de Liefeld pelo Capitão foi felizmente interrompida pela Marvel na sexta edição, devido a respostas negativa dos fãs e resultados ruins de vendas dos dois gibis. Os títulos de Liefeld, portanto, foram designados para a equipe da Wildstorm de Jim Lee e, felizmente, caíram nas mãos do roteirista James Robinson, que fez o possível para minimizar os danos causados ao Capitão naquelas seis tenebrosas edições. Robinson escreveu o final daquele volume até a décima terceira edição e, após o final de Heróis Renascem, o Capitão voltou para as mãos de Mark Waid, que já vinha fazendo um trabalho com boa aceitação dos fãs antes da iniciativa da Marvel.

O Capitão América no século 21

No início dos anos 2000 o título do Capitão América não era tão popular quanto alguns outros no Universo Marvel. Era uma época de mudanças e instabilidade nos quadrinhos em geral pois, enquanto ainda haviam influências e resquícios de decisões, estética e formato narrativo da década de 1990, novos autores surgiam com ideias ousadas para os principais títulos tanto na Marvel quanto na DC. Até que, subitamente, em uma manhã de setembro de 2001, o impensável aconteceu e os rumos dos títulos do Sentinela da Liberdade foram afetados para sempre.

Os atentados às torres do World Trade Center e ao quartel general do Pentágono, nos Estados Unidos, afetaram diretamente o tom das publicações Marvel no ano de 2002 e. com muito mais força. no título de seu principal líder, o Capitão América.

O primeiro arco do volume 4 do título do Capitão América, escrito por John Ney Rieber e ilustrado por John Cassaday e chamado de O novo pacto, logo na primeira edição coloca Steve Rogers no local dos ataques às Torres Gêmeas, fazendo de tudo para salvar os transeuntes e acalmar a população. A história se desenvolve em clima de conspiração terrorista e examina a questão do terrorismo de maneira razoável, apesar de se valer de um roteiro por vezes confuso e inconsistente. Neste arco, o Capitão América revela ao mundo sua identidade de Steve Rogers, com o intuito de prevenir retaliações aos Estados Unidos, após tirar a vida de um líder terrorista. O arco de Rieber explora tanto o sentimento antiterrorismo que explodiu na época e todo o ódio gerado contra os inimigos da nação, quanto o próprio comportamento do governo e do povo dos EUA acerca destas questões. Apesar de ser considerado por muitos como uma história que fracassou em retratar o período pós-onze de setembro de maneira equilibrada, esta torna-se um ótimo reflexo do que eram os Estados Unidos naquela época: puro medo e caos.

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O Capitão América revela sua identidade e assume autoria de uma morte em “O novo pacto”. Arte: John Cassaday.

Este verdadeiro choque de ordem implementado no arco de Rieber, somado à preocupação com a segurança nacional crescente no início da década passada, naturalmente tornou as histórias do Capitão durante a década de 2000 um pouco mais sérias e sombrias. Este tom direcionou o universo Marvel para a saga que afetou bastante a vida dos Vingadores na época: A queda.

A queda foi o evento que causou a separação e o fim da equipe principal dos Vingadores pelas mãos da então descontrolada Feiticeira Escarlate, além da aparente morte de aliados importantes, como o Gavião Arqueiro e o Visão. Reflexos do arco escrito por Brian Michael Bendis foram sentidos durante toda a década de 2000 na Marvel. E A queda torna-se o pontapé inicial para a criação da equipe chamada Novos Vingadores, que consistiu em uma revitalização da equipe com membros um pouco improváveis, como Homem-Aranha, Wolverine, Luke Cage, Echo e outros.

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Após “A queda”, o Capitão lidera os Novos Vingadores. Arte: David Finch.

No ano de 2002, o título do Sentinela da Liberdade começa a ser escrito por um dos autores que novamente redefiniram sua mitologia para os anos que se seguiram: Ed Brubaker. Brubaker, na época, introduz uma linha narrativa de extrema importância na história do Capitão deste momento em diante. Steve Rogers entra em contato com um fantasma de seu passado: seu ex-parceiro Bucky, agora na figura do Soldado Invernal.

Em um dos retcons mais bem sucedidos da história da Marvel: Ed Brubaker e Steve Epting contam as origens do Soldado Invernal e toda sua carreira como assassino desmemoriado a serviço da União Soviética, desde que James Buchanan Barnes desapareceu no final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Brubaker torna o Soldado Invernal uma figura carismática, dramática, sequelada e cheia de conflitos internos, sendo um reflexo distorcido do próprio Capitão América. A relação entre os dois amigos separados por anos de conflitos em lados opostos é tão icônica na década de 2000 na Marvel que inspirou o segundo longa metragem do Capitão, que tem o subtítulo Soldado Invernal. Bucky se torna, nos anos 2000, o garoto-propaganda das “segundas chances”, um novo estilo de anti-herói que é falho, duvida de suas atitudes e tem uma carga traumática enorme.

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Surge o Soldado Invernal. Arte: Steve Epting.

Após reencontrar Bucky, o Capitão tem mais um desafio na década de 2000. A lei de registro de super-humanos que culmina na Guerra Civil super-heroica da Marvel. O conflito coloca Steve Rogers contra seu velho aliado e amigo Tony Stark, em uma trama que gira em torno do registro de super-heróis. Enquanto Tony defende a posição do governo dos EUA de que qualquer tipo de herói ou vigilante deve se registrar e revelar sua identidade, o Capitão não concorda com o argumento e afirma que isso fere as liberdades civis da população. A Guerra Civil se escalona e gera muitos conflitos, e o Capitão se choca ao ver que a população comum acaba apoiando o registro. Com isso, o herói decide se entregar, entretanto é baleado por uma Sharon Carter controlada pelo Doutor Faustus. Esta é a aparente morte do Capitão América.

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A morte do Capitão América. Arte: Steve Epting.

Com a morte de Steve Rogers, Bucky assume o manto do Capitão América e auxilia os Vingadores durante sua ausência. Enquanto isso, é revelado que a arma que atingiu Steve verdadeiro não o matou, mas o colou em um “loop” temporal, revivendo várias passagens marcantes de sua história infinitamente. A morte do Capitão, na verdade, foi um plano orquestrado pelo Caveira Vermelha para tomar o corpo de Steve Rogers. O plano logicamente é frustrado e, em uma batalha mental com seu arqui-inimigo, Steve recupera seu corpo.

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Após a morte de Steve Rogers, Bucky assume o manto do Capitão América. Arte: John Romita Jr.

Após seu retorno, a vida não ficou nem um pouco monótona para Steve Rogers. O herói desde meados dos anos 2000 até o período mais recente, ocorreu uma de suas fases mais movimentadas. Este é um reflexo das constantes e cada vez mais rápidas mudanças no Universo Marvel nos tempos atuais. Atualmente, mudanças abruptas de direcionamento são a tendência no universo Marvel; portanto, tal diretiva da empresa acaba influenciando as histórias do herói.

Em pouco menos de cinco anos, Steve foi diretor da nova S.H.I.E.L.D. e líder do grupo chamado Vingadores Secretos – equipe tática preventiva formado por superseres escolhidos por Steve Rogers com o apoio da S.H.I.E.L.D. Logo em seguida, o herói reassume o escudo do Capitão América, após a aparente morte de Bucky durante a saga A Essência do medo.

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Steve Rogers lidera os Vingadores Secretos. Arte: Adi Granov.

Mais recentemente, em suas aventuras em um formato mais retrô na Dimensão Z de Arnim Zola, dois acontecimentos escritos pelo autor Rick Remender afetam de maneira muito profunda a vida de Steve Rogers e todo o universo Marvel. O primeiro é a aparição de seu filho adotivo Ian – criança adotada por Steve durante sua dura estadia na Dimensão Z. O segundo acontecimento é seu envelhecimento após uma batalha mortal na qual o Capitão perde, novamente, o soro do supersoldado. Incapaz de cumprir suas funções como Capitão América novamente, Steve Rogers é substituído por Sam Wilson, o atual Capitão América do Universo Marvel. A transição entre Rogers e seu antigo parceiro, Falcão marca o atual esforço da Marvel em promover a diversidade na sua linha de super-heróis principais. Wilson, atualmente, é um dos baluartes da diversidade étnica na editora e, em histórias recentes escritas pelo autor Nick Spencer, tem abordado temas polêmicos nos gibis do Capitão, como imigração ilegal para os Estados Unidos e vazamento de informações oficiais do governo.

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Sam Wilson, o atual Capitão América da Marvel. Arte: Stuart Immonen.

É lógico que, com as comemorações de 75 anos do Sentinela da Liberdade, a Marvel não perderia a oportunidade de trazer o bom e “jovem” Steve de volta. E é exatamente isso que o autor de Captain America: Sam Wilson, Nick Spencer pretende. Na novíssima saga Avengers Standoff Steve Rogers volta a juventude (novamente) e o universo Marvel terá dois Capitães América atuando, pela primeira vez simultaneamente.


Logicamente esta série de artigos não cobre com justiça a extensa bibliografia do Sentinela da Liberdade. Afinal são 75 anos de muitas histórias em quadrinhos. O intuito destes textos é o de relacionar os períodos históricos da indústria de quadrinhos a um de seus grandes ícones, mostrar como as encanações do Capitão América refletem o contexto no qual ele está inserido e incentivar a leitura deste personagem que é um dos maiores símbolos da Marvel há mais de sete décadas.

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