[Clarim Terra-8] Capitão América, 75 anos de reflexões (2)

Sendo brutalmente franco, o Capitão América definitivamente não é o super-herói mais popular e/ou querido da Marvel, tampouco dos quadrinhos em geral. Excluindo, logicamente, os fãs mais ardorosos do Sentinela da Liberdade, todo mundo tem algum outro personagem em quadrinhos que entra na sua lista de favoritos antes de Steve Rogers. Isso é perfeitamente compreensível. Trata-se de um dos personagens dos mais antigos da indústria de quadrinhos ainda em atividade e, dadas as motivações de sua criação, é um pouco complicado manter o interesse do público no conceito do Supersoldado por tanto tempo. Com uma história editorial de altos e baixos, uma coisa sempre marcou as encarnações do personagem: de alguma forma (e dentro das limitações editoriais), os autores tentaram fazer do Capitão uma fotografia da indústria de gibis no período em que o escreviam e, por muitas vezes, um reflexo da sociedade que os cercava naquele determinado momento.

Captain America #1 comic book cover from Marvel Entertainment. Art by Steve McNiven. Original Filename: CAPAV2001_cov_col.tifvia Flatbed Web
Capitão América – um reflexo da indústria dos quadrinhos. Arte: Steve McNiven.

Aqui, o objetivo não é contar em detalhes a origem e a evolução do personagem em 75 anos de existência, mas, sim, relacionar suas diferentes versões ao contexto no qual aquelas histórias estavam inseridas e mostrar porque este personagem ainda é tão importante para a nossa querida indústria.


A Era de Prata

A Era de Prata, para o Capitão América, tem início com o evento mais marcante de toda a sua carreira na Marvel: seu primeiro contato com os Vingadores, na quarta edição do título dos heróis mais poderosos da Terra, em março de 1964.

Apesar de ter chegado um pouco atrasado para a Era de Prata (que geralmente é atribuída aos quadrinhos publicados até o final da década de 1960), os anos 1960 e um pouco dos 1970 são um período de verdadeiro renascimento para o Capitão. Como na Marvel grande parte de seus super-heróis mais populares estreou na própria Era de Prata, o Capitão América acaba tendo uma posição muito singular neste período, pois carrega a tocha de alguns valores e temas da Era de Ouro para este novo universo que estava florescendo.

Por isso, apesar da inegável importância de Fantastic Four #1 e Amazing Fantasy #15 (as estreias do Quarteto Fantástico e do Homem Aranha respectivamente), o retorno de Steve Rogers aos tempos “modernos” talvez seja o fato mais marcante da Era de Prata nos quadrinhos da Marvel. Naturalmente, se este período é considerado por estudiosos como “o retorno dos heróis”, a volta de um dos personagens mais marcantes da Era de Ouro dos quadrinhos dos EUA é um verdadeiro marco na história desta indústria.

avengers-4
O Capitão retorna da criogenia na quarta edição de Vingadores de 1964. Um dos marcos da Era de Prata dos quadrinhos. Arte: Jack Kirby.

Na Era de Prata, há um resgate e desenvolvimento do personagem que de fato ganha a identidade do herói clássico e meio cafona deslocado no tempo e tentando se ajustar a um período que não compreende muito bem. Este conceito do “homem fora de seu tempo”, especificamente, é tão marcante que é utilizado até os dias de hoje em gibis, animações e produções cinematográficas associadas ao Capitão América. Adicionalmente à sua imediata associação aos Vingadores, várias histórias de seu período de guerra são recontadas de maneira brilhante nas páginas de seu título-solo, principalmente nas histórias escritas por Stan Lee.

O elenco de personagens coadjuvantes que conhecemos atualmente, como Bucky, o Falcão (um dos primeiros grandes super-heróis negros dos quadrinhos que não possui a palavra “black” em sua alcunha), Sharon Carter, Nick Fury entre muitos outros são introduzidos ou ganham muita profundidade nas páginas do título do Sentinela da Liberdade nos anos 1960. O gibi do Capitão nos anos 1960 e 1970 também é responsável pelo desenvolvimento e importância de organizações como a S.H.I.E.L.D., Hydra e I.M.A. (Ideias Mecânicas Avançadas) no contexto geral da Marvel a partir daquele momento.

Captain_America_Vol_1_117
A primeira aparição do Falcão. Arte: Gene Colan.

Apesar da Era de Prata ter sido bem curta para o Capitão, neste período são fixados muitos dos alicerces de sua mitologia clássica. Grande parte dos conceitos sobre seu passado como o conhecemos, sua relação com Bucky, Sam Wilson, Rick Jones e os Vingadores são desenvolvidos e estabelecidos durante este período. Posteriormente, todos estes fundamentos são expandidos em histórias futuras, nas eras que seguiram.

A Era de Bronze

Se na Era de Prata o Capitão retornou da criogenia, desfrutou de aventuras super-heroicas fantásticas, teve sua origem contada de maneira definitiva e foi consolidado como o maior líder super-heroico da Marvel, algo iria dar errado na Era de Bronze.

Nos final dos anos 1960 e início dos anos 1970 o Capitão América começa a enxergar que o mundo a sua volta é um lugar muito diferente dos anos 1940, no qual ele sabia quem era o inimigo. Este período de início de cinismo com as instituições governamentais culmina na edição 180 de Captain America, da aclamada passagem escrita por Steve Englehart e desenhada por Sal Buscema. A história, que é um reflexo direto dos acontecimentos do escândalo político de Watergate, mostra um Capitão desiludido ao descobrir que um oficial de alto escalão do governo estadunidense (na época sob administração do presidente Richard Nixon) é secretamente o líder da organização terrorista conhecida como o Império Secreto. Steve Rogers decide abandonar sua identidade como Capitão América e, a princípio, até suas atividades como herói, pois perde completamente a fé em tudo que representava. No entanto, um confronto com o Gavião Arqueiro (disfarçado) o faz perceber que, apesar de sua falta de fé nas instituições, ele não pode abdicar de seu compromisso com as atividades heroicas. Com isso, Rogers adota a alcunha de Nômade (que, para ele, significa “um homem sem um país”) e passa a trajar um uniforme azul e amarelo sem referências à bandeira americana. A identidade de Nômade, no entanto, tem vida curta: Rogers chega a conclusão. na edição 184 de Captain America, de que pode ser o Capitão América mesmo não apoiando o governo americano.

CaptainAmericaV1-180-NOMAD
Steve Rogers rompe com o governo americano e adota o codinome Nômade. Arte: Gil Kane.

As histórias que seguiram na publicação do Capitão, durante as décadas de 1970 e 1980, frequentemente misturavam temas políticos com o contexto super-heroico. No início da década de 1980, a desilusão com as instituições chegou a um ponto em que, em uma história escrita por Roger Stern e desenhada por John Byrne, Steve Rogers considera concorrer ao cargo de presidente dos Estados Unidos. O personagem, no entanto, se dá conta de que, ao assumir o cargo, provavelmente não teria condições de cumprir com suas funções como super-herói, desistindo da ideia. Ainda na década de 1980, eventualmente temas como a homossexualidade eram pincelados, como na história na qual Steve Rogers ajuda seu amigo de infância, o ex-marinheiro Arnie Roth, a resgatar seu namorado de sequestradores.

Apesar de muitas histórias do Capitão não tratarem de temas políticos diretamente, a Era de Bronze na Marvel é marcada por uma frequente insatisfação da população americana com sua administração pública. Isto é refletido diretamente através da conturbada relação de Steve Rogers com o governo americano. Tal relação torna-se um tema não frequente, mas recorrente nas histórias do personagem durante as décadas de 1970 e 1980.

Captain-America-337
Steve Rogers corta relações novamente com o governo americano e adota o codinome “Capitão”. Arte: Michael Zeck.

Em um história escrita por um de seus autores clássicos, Mark Gruenwald, no final da década de 1980, que marca o final da Era de Bronze e o início da chamada Era Moderna, o Capitão América recebe uma gorda pensão por seus esforços durante a Segunda Guerra Mundial e é convocado pela Comissão de Atividades Super-Humanas para trabalhar subordinado ao governo dos EUA dali em diante. Logicamente, o Steve Rogers se nega a servir a instituição e entrega o uniforme de Capitão América, assumindo a alcunha de Capitão somente. Ele lidera um time composto pelo Falcão, o atleta de luta livre Demolição e Jack Munroe, o terceiro Nômade. Nesta época o Capitão utiliza um uniforme negro com detalhes em banco e vermelho e passa a utilizar um escudo de Adamantium puro, fornecido pelo Homem de Ferro. Enquanto Steve Rogers se recusa a trabalhar para o governo ele é substituído por John Walker, um rival do Capitão América conhecido como Superpatriota. Walker assume o manto do Sentinela da Liberdade sem saber que a Comissão de Atividades Super-Humanas é controlada, secretamente, pelo Caveira Vermelha. Após um confronto entre Walker e Rogers, a verdade sobre a comissão é revelada e Walker convence Steve a retornar a vestir o manto do Capitão América, enquanto ele mesmo assume a alcunha de Agente Americano.


O intuito deste texto é relacionar os períodos históricos da indústria de quadrinhos a um de seus grandes ícones, mostrar como as encanações do Capitão América refletem o contexto no qual ele está inserido e incentivar a leitura deste personagem que é um dos maiores símbolos da Marvel há mais de sete décadas. Na última parte, falaremos da Era Moderna na vida do Sentinela da Liberdade.

Comente

Clique para comentar

18 − doze =

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com