[Conexão Krypton] Clark Kent: menino do campo, homem da cidade

Batman vs Superman – A Origem da Justiça chegou. Estão todo lá. Clark Kent, o Superman; Bruce Wayne, o Batman; Diana Prince, a Mulher-Maravilha… Você sabe. Ainda que seja imperceptível à maioria das pessoas, acompahada do Homem de Aço está uma caracterização renovada que mistura vários conceitos do passado e da modernidade do século 21. A influência da nova versão do personagem estabelecida no selo Novos 52 em 2011 é latente.

Por outro lado, tal qual a versão do herói estabelecida na Era de Prata pelo editor Mort Weisinger, o alter ego de Clark Kent continua sendo um salvador, um símbolo de esperança. Esta visão do personagem foi estabelecida por vários quadrinistas nos anos 1960, todos sob a mão editorial forte de Weisinger. Naquela época, os Beatles estouravam pelo mundo, a cultura hippie se espalhava e a Guerra do Vietnã começava aos poucos a ser vista como um erro. As pessoas queriam paz. O Fab Four foi procurar paz interior com Maharishi; Martin Luther King lutava pela igualdade de raças e festivais de música clamavam por pacifismo. Era a hora perfeita para o Superman mudar.

Capa do Superman em foto lendário de MLK. Autor desconhecido.
Capa do Superman em foto lendário de MLK. Autor desconhecido.

O tempo passou e o personagem mudou várias vezes, mas esta característica raramente foi deixada de lado. Mesmo quando o personagem foi modernizado para os Novos 52, meses depois do término da série de TV Smallville (que se baseou no Superman dos anos 1960 e nos filmes de Christopher Reeve lançados em 1978 e 1980, respectivamente), ele ainda era um símbolo de esperança. Certo? Mais ou menos.

Parecia – e ainda parece, na verdade – ter algo diferente nele. Não é só modernização. Dá-se a entender que o novo Superman tem um sentido nunca usado; ele não é mais do campo, é da cidade. E neste pensamento estão incluídas não apenas escolhas éticas e morais do personagem, estão também elementos políticos e sociais. Pode não ter sido proposital, mas o novo Clark Kent é um metropolitano. Ele deixou a vida da fazenda para trás. E pode ter mais aí do que a superfície quer mostrar.

Clark Kent: menino do campo encontra sua identidade na cidade. Arte de Rags Morales.
Clark Kent: menino do campo encontra sua identidade na cidade. Arte de Rags Morales.

Ficou estabelecido no conhecimento popular, muito graças aos quadrinhos que saíram a partir dos anos 1970, aos filmes e às séries de TV Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman e Smallville, que Clark Kent é um pacifista e que qualquer mudança seria considerada “versão alternativa” do personagem. Iniciados na cronologia da DC certamente devem se lembrar de histórias como Armageddon 2001 ou Superman: Entre A Foice e o Martelo, em que o Homem de Aço foi criado na União Soviética e se tornou sucessor de Joseph Stalin. Porém, nos últimos cinco anos, um certo grau de cinismo foi introduzido aos poucos no herói e é por isso que ele “trocou o campo pela cidade”.

Os produtos culturais produzidas nos Estados Unidos muitas vezes associam a vida no campo como estranha e fora do padrão. O termo redneck, por exemplo, é usado hoje em dia para classificar brancos sulistas conservadores, em sua maioria vivendo em pequenas cidades afastadas das áreas metropolitanas. Como seu próprio nome diz, Smallville é uma cidade pequena. Há algumas décadas, os pais Kent são mostrados como carinhosos, atenciosos e despidos de qualquer preconceito. Quem é classificado hoje em dia como redneck certamente não é assim. E o que parece é que a DC está querendo se afastar o máximo que pode desse estereótipo, mesmo que as razões para isso sejam nebulosas.

O Superman dos Novos 52 em arte de Jim Lee.
O Superman dos Novos 52 em arte de Jim Lee.

Nos Novos 52, os pais de Clark já estão mortos quando ele é adulto. Diferentemente do que foi estabelecido em 1986 quando a história Crise nas Infinitas Terras reiniciou praticamente toda a cronologia da editora, em um determinado momento Clark tem que se virar por conta. Ele não tem mais os pais para ajudá-lo a descobrir seu lugar no mundo. Algo semelhante acontece no atual universo cinematográfico da DC, o DC Films. Ainda que a mãe de Clark (interpretada por Diane Lane) esteja viva, ele a vê com menos regularidade e seu pai morreu muito antes de ele se tornar super-herói. Pode haver sutileza, mas estas escolhas indicam um esforço da DC para afastar o personagem da imagem de menino do campo; agora ele é um homem da cidade.

Na entrevista que o Terra Zero fez com Mark Waid no Brasil durante a CCXP 2015, o autor revelou que está assustado com a onda de racismo tomando conta dos Estados Unidos nos últimos tempos. Donald Trump, candidato favorito a concorrer à presidência em nome do Partido Republicano, tem feito discursos controversos e é acusado de racismo, homofobia e intolerância o tempo todo. Na visão do autor, o racismo está voltando a crescer no país e isso é muito perigoso. Foi por isso que ele colocou Sam Wilson, o Falcão, um herói negro, como o novo Capitão América. Para mostrar que todos são iguais.

Amor incondicional entre pai e filho em arte de Gary Frank.
Amor incondicional entre pai e filho em arte de Gary Frank.

De qualquer forma, na esteira de uma possível troca de poder do primeiro presidente negro (Barack Obama) para um homem extremamente conservador, a Warner/DC parece querer que seu maior ícone tenha o mínimo possível de ligação com o conservadorismo. Isso, porém, sacrifica alguns dos conceitos mais básicos do personagem estabelecidos durante, já que, para eles, dá a impressão que ser do campo tem relação direta com “ser redneck”, ou seja, ser conservador demais, intolerante. Pela falta de um amadurecimento ao lado de pais com os melhores valores possíveis para algumas pessoas, este novo Superman, das telas e dos quadrinhos, é um pouco impulsivo e muitas vezes causa muito mal quando, na verdade, gostaria de fazer apenas o bem.

Fazendo uma comparação bem simples, é como se o Superman dos clássicos quadrinhos Paz na Terra e Reino do Amanhã tivesse dado lugar a uma recauchutada versão do Superman original, de Jerry Siegel e Joe Shuster, aquele que fazia o necessário independentemente das consequências.

Pòster de Superman - O Retorno. Reprodução.
Pòster de Superman – O Retorno. Reprodução.

A pergunta que não quer calar é: onde a Warner/DC quer chegar com isso? Será que é apenas para afastar o personagem do conservadorismo ou eles realmente acreditam que o herói que tiveram até os Novos 52 não é mais interessante para eles? Há tempos o estúdio tem como mindset um Superman que “não vende” quando se fala de um herói de bom coração. Para eles, Superman – O Retorno (2006) foi um investimento perdido. Até que ponto a mudança é influenciada pela política? Até que ponto é influenciada sob o ponto de vista comercial e social? O século 21 é cínico, e isso refletiu no novo Superman.Ele agora é dotado de um cinismo de quem amadureceu na cidade grande. Será que é isso mesmo que as pessoas querem?

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