Angelo Mokutan, um mangaká brasileiro

No final do ano passado, a BBC Brasil fez uma pequena matéria com Angelo Vasconcelos Levy, brasileiro radicado no Japão que conseguiu entrar para o seleto grupo dos profissionais de quadrinhos japoneses, conhecidos como mangakás.

O Terra Zero conversou com Angelo Mokutan, nome profissional adotado pelo artista no Japão, sobre mangás, mercado japonês, influências e adaptação a outra cultura.

Angelo hoje trabalha na revista President Next, que, ele explica,

é uma revista de mangá (que é aproximadamente 90% do seu conteúdo) e tem um modelo diferente do tradicional. Suas áreas são negócios e cultura. As histórias são as matérias em si, explicam conceitos e são dramatizações não só da vida empresarial, já que sempre há um tema para cada edição, e os autores trabalham dentro deste tema. A Next é bem experimental. Por exemplo, foi publicada recentemente uma série sobre filosofia! Por isso não se pode dizer que é uma simples revista de negócios em quadrinhos. A President Next tem um pouco mais que um ano e vai continuar evoluindo. Então, aguarde boas surpresas ainda neste ano!

Chapeuzinho Vermelho, de Angelo Mokutan
Chapeuzinho Vermelho, de Angelo Mokutan

Mas a carreira não começou aí, claro. “Sou da geração que começou com Cavaleiros do Zodíaco”, disse Angelo, que foi para o Japão há quase dez anos para tentar ganhar a vida lá como autor de quadrinhos. A comparação mais comum que se faz entre a dificuldade de entrar no mercado de mangás e a realidade brasileira é com a vida dos jogadores de futebol daqui. Milhares de amadores jogam em ligas secundárias e outros nem isso conseguem. De todos que tentam uma carreira no esporte, poucos se tornam contratados de clubes das séries principais e destes, menos jogadores ainda chegam aos times profissionais ou se tornam conhecidos. As peneiras dos grandes clubes, as escolinhas de futebol, os campos de várzea, e os estádios do interior estão cheios de esperançosos atletas que nunca conseguirão viver do futebol. No Japão, o mercado de quadrinhos é enorme, correspondendo a 40% do material impresso do país, mas isso não garante que todos os aspirantes se tornarão profissionais. Assim como o mercado do futebol brasileiro abrange o país todo, mas nem todo mundo conseguirá viver de bola.

Uma das diferenças é que, por ter um mercado tão grande, existem no Japão feiras enormes dedicadas a amadores. Foi durante umas destas feiras que Angelo começou a mostrar o seu trabalho.

Last Vegan Parties, de Angelo Mokutan
A Floresta do Lobo (Chapeuzinho Vermelho), de Angelo Mokutan

Quando foi para o Japão, fez mestrado em animação, arrumou um emprego na área de tecnologia da informação e trabalhava nos seus quadrinhos nas horas vagas.

Quando estava no meu emprego anterior e trabalhando como mangaká ao mesmo tempo, eu passava a noite em claro, trabalhando, uma vez a cada semana durante um mês. No outros dias, dormia por 5 ou 6 horas, de segunda a segunda. Mangakás trabalham muito, porque japoneses trabalham muito.

Estas noites em claro e trabalho constante renderam trabalhos que chamaram a atenção de um editor, que o contratou para a Next. Uma vez no mercado, Angelo pode diminuir o ritmo, certo?

É mais difícil se manter no mercado do que entrar, porque a competição é acirrada e o pagamento não é grande coisa, na maioria das vezes.

Ainda assim, Angelo segue trabalhando e fazendo o que sonhou fazer desde que era adolescente, quando, aos 14 anos, começou a estudar japonês. E segue aprimorando. Os Cavaleiros do Zodíaco ficaram para trás, dando lugar a outras referências. “Gosto muito Miyazaki e do Taiyo Matsumoto (Preto e Branco). Ambos trabalham combinando beleza e profundidade de forma muito inspiradora. Esse é o meu objetivo como artista”.

Angelo Mokutan. Foto: BBC.
Angelo Mokutan. Foto: BBC.

Mas os seus objetivos não param por aí.

Eu tive contato com a cultura oriental desde pequeno, porque minha mãe é médica em medicina chinesa. Budismo e taoismo sempre me fascinaram por oferecer respostas que eu não encontrava nas religiões mais comuns no Brasil. Por exemplo, ao invés de se pensar que há só o bem e o mal, pode-se pensar que existem complementos (o ying-yang), e que o mal é o desequilíbrio dessas forças. Esse espírito de investigação só foi reforçado com o contato com mangás de qualidade. Então não se surpreenda se eu começar a fazer mangás bem filosóficos mais cedo ou mais tarde.

Você pode acompanhar ao trabalhos do Angelo via facebook ou pelo site oficial do artista.

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