[#Entrevista] Rafer Roberts e as novas aventuras de Archer e Armstrong

Archer and Armstrong é um dos três primeiros títulos lançados em 2012 quando o novo universo Valiant teve início. O gibi é um reboot de uma antiga franquia clássica da editora, criado pelas lendas Jim Shooter, Bob Layton e Barry Windsor-Smith em 1992. Para quem não conhece, a revista conta a história do jovem Obadiah Archer, que foi criado em uma comunidade religiosa fanática com o propósito de matar um “demônio imortal”. O demônio em questão é o imortal Armstrong (na verdade chamado Aram Anni Padda), que vive caminhando, enchendo a cara e recitando poesia há séculos pelo planeta Terra. Depois de alguns percalços, muita porrada e várias tentativas de assassinato, os dois se unem com objetivos comuns.

O primeiro volume de Archer & Armstrong, escrito por Fred Van Lente, teve 25 edições e serviu como alicerce para a construção de rica mitologia do universo Valiant atual. Ao final daquele volume, ainda tivemos uma minissérie em quatro partes chamada The Delinquents, na qual a dupla se une aos irmãos Quantum e Woody em uma aventura pelos Estados Unidos.

Agora em 2016, Archer e Armstrong estão de volta em um novo título, chamado A&A: The adventures of Archer and Armstrong desenhado por David Lafuente (de Ultimate Comics Spider-Man e da divertida All-New Doop) e escrito pelo roteirista Rafer Roberts (de Little Nemo: Dream another dream e Plastic Farm).

Capa de "A&A: The adventures of Archer and Armstrong" #1 por David Lafuente.
Capa de “A&A: The adventures of Archer and Armstrong” #1 por David Lafuente.

Foi com Roberts que batemos um papo exclusivo, no qual ele apresenta, em detalhes, este novo volume do gibi da dupla disfuncional da Valiant.

Terra Zero: Archer e Armstrong passaram por muita coisa esquisita desde que seu primeiro gibi estreou, lá em 2012, mas a ideia para A&A: The Adventures of Archer and Armstrong parece ainda mais estranha, mesmo para este personagens. Você poderia explicar o que os caras estão aprontando desta vez?

Rafer Roberts: Armstrong é um poeta-guerreiro, bêbado e imortal de dez mil anos de idade e Archer é um adolescente ex-fundamentalista, superpoderoso e especialista em artes marciais. Juntos, eles lutam contra todas as estranhas e esquisitas forças que secretamente controlam a humanidade, enquanto se alfinetam como um casal de velhos, o tempo todo.

Nesta nova aventura, Armstrong toma conhecimento de que um velho amigo, alguém que ele maltratou, faleceu. Para fazer algumas reparações, Armstrong precisa recuperar um item muito importante de sua bolsa mágica (a sacola sem fundo onde Armstrong guarda por séculos armas e outros itens importantes), só que o item está perdido lá dentro. Então ele entra na bolsa para procurá-lo, mas se esquece de avisar Archer sobre seus planos e aí começa o caos. Archer, irritado pela falta de consideração de Armstrong, tem que entrar na bolsa para resgatar seu amigo e fechá-la, impedindo que um “mal sombrio e muito antigo” escape de lá.

O interior da bolsa é uma paisagem surreal (que eu costumo descrever como uma loja “Home Depot” desenhado por M.C. Escher) repleta de trabalhadores goblins, homens lagarto, dez mil toneladas de lixo e Baco (também conhecido como Dionísio)… ou pelo menos um cara que se diz o deus Grego da ebriedade e dos excessos, Baco. Baco e Armstrong eram amigos na antiguidade e seu aprisionamento dentro da bolsa é considerado uma grande traição por parte de Armstrong. Ele é um enorme “homem bode” que ficou ligeiramente louco por ficar tanto tempo preso dentro da bolsa. Ele se parece com Baphomet, mas age como um Paul Lynde (ator que interpretou o Tio Artur no antigo seriado A Feiticeira) maníaco-depressivo.

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Trailer animado de “A&A: The Adventures of Archer and Armstrong” divulgado pela Valiant.

O primeiro volume de Archer & Armstrong misturava perfeitamente as referências históricas do passado de Aram com muita comédia de ação. Nós veremos mais coisas sobre o passado de Armstrong nesta nova série?

Sim. Definitivamente exploraremos ainda mais a história de Armstrong. Eu tenho um pressentimento de que primeiramente focaremos nos pecados de seu passado, mesmo depois de séculos, ele tem de lidar com isso. Sou um grande fã de histórias nas quais o herói é a fonte e a solução de seus próprios problemas e veremos muito disso, tanto com Armstrong quanto com Archer. Uma das frases que mantenho sempre na mente enquanto escrevo é “a estrada para o inferno é cheia de boas intenções”; veremos a jornadas de nossos heróis por uma estrada bem longa.

O primeiro volume de Archer & Armstrong introduziu alguns personagens muito fortes no universo Valiant, como Gilad, o Guerreiro Eterno e Ivar, o Andarilho do Tempo. Vocês estão planejando introduzir novas caras para este universo nesta nova história?

Logo na primeira edição nós apresentamos Davey, o peixe cavala, um cidadão da bolsa de Armstrong que está tentando escapar para o nosso mundo. Ele é um patético homem-peixe de um metro e meio que usa um terno barato e fala como um velho gangster. Davey seria uma espécie de Willy Loman (da peça A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller), se o personagem fosse interpretado por uma das pequenas criaturas de Dagon, de Lovecraft.

Ainda teremos outros personagens, mas não quero entregar tudo logo.

A habilidade de Archer de acessar o conhecimento coletivo da humanidade sempre me pareceu um dos poderes mais legais entre todos os heróis da Valiant. Você irá explorar este aspecto do personagem?

Sim. Os poderes de Archer e a fonte desses poderes são muito interessantes para mim. Ele tem acesso a tudo e pode aprender sozinho praticamente qualquer coisa que ainda não saiba fazer (ou mesmo que ainda não pensou). Mas ele ainda não utilizou todo o potencial destas habilidades. Parte disso pode se atribuir a seu severo código de moral, que o previne de buscar poder para si próprio. Ou talvez seja resquício de sua criação muito dura, que o mantém tão humilde nesse aspecto.

Quaisquer que sejam as causas de suas autolimitações, Archer tem o potencial para ser um dos mais poderosos super-humanos na Terra, mas escolhe não ser. Uma das coisas que pretendo explorar na série é como esta escolha pode ser conflitante com seu desejo de ajudar as pessoas necessitadas.

Uma aventura dentro de uma bolsa é uma ideia brilhante. Quanta liberdade você teve para criar este novo universo? E que tipo de coisa estranha nós veremos lá dentro?

Eu tive liberdade total para descrever o mundo lá dentro da bolsa. Como falei, eu descrevo como um armazém gigante desenhado pelo Escher. É um mundo inteiro com um armazém cheio de planos em seu centro, recheado com todos os tesouros e lixo que Armstrong acumulou durante seus milhares de anos de existência. Acher e Armstrong visitarão alguns departamentos, como um porão de bebidas, um deserto formado por dez mil anos de lixo acumulado por Armstrong e os lugares que as criaturas estranhas, que vivem e trabalham dentro da bolsa, frequentam em suas horas de descanso.

Acho que muito do crédito pelo design do interior da bolsa vai para o nosso artista, David Lafuente. Ele pegou minhas descrições impossíveis de desenhar e as tornou realidade. Ele (juntamente com o arte finalista Ryan Winn e o colorista Brian Reber) deram textura real a este mundo e, mais importante, personalidade.

Archer e Armstrong são personagens muito queridos entre os fãs da Valiant e ele funcionam muito bem juntos. Na sua opinião, o que torna esta dupla tão cativante?

Em seu âmago, A&A é simplesmente sobre uma amizade entre esses dois caras bizarros. Todas as aventuras estranhas e acontecimentos esquisitos no gibi são divertidos e excitantes, mas eles não seriam nada se não fosse a carga emocional entre Archer e Armstrong.

Archer e Armstrong são o Yin do Yang do outro. Seu propósito mútuo de combater essas estranhas sociedades secretas que controlam o planeta podem ser a causa de sua aliança, mas suas diferenças é o que os tornam mais fortes. Tipo, eles até hoje irritam demais um ao outro, mas até nas melhores amizades isso acontece. Ninguém consegue te irritar tão bem quanto seus melhores amigos e familiares, não é? Archer e Armstrong já foi descrito como um filme de dupla policial surrealista, e acho que a descrição é bem precisa.

As vezes eu encaro este gibi como uma peça de (o roteirista de teatro) Neil Simon, com sociedades secretas, monstros, bagulhos new age e uma porção de bebida alcoólica. Eles seriam O estranho casal (peça de Neil Simon), se Oscar Madison fosse imortal e Felix Unger tivesse habilidades ninja.

David Lafuente é uma escolha absolutamente perfeita para esta revista. Quando olho para sua arte, ele me parece um sucessor do querido Mike Wieringo. Como é trabalhar com David?

É extremamente libertador. Não há nada que eu possa inventar que David não consiga desenhar ou, em muitos casos, melhorar o que eu havia pensado. Eu disse muitas vezes, mas David (e todo nosso time criativo) estão me fazendo parecer um roteirista muito melhor.

É interessante você mencionar Mike Wieringo. Agora que você falou, eu consigo perceber definitivamente a semelhança. Eu acho que ainda tem algo de Chris Bachalo na mistura, apesar de eu nunca ter conversado mais profundamente com David sobre suas influências, então posso estar conjecturando. De qualquer forma, uma das coisas que mais gosto sobre o traço de David é que você olha e imediatamente sabe que é algo dele.

O estilo de David, eu acho, é um complemento perfeito para meu jeito de escrever neste gibi. A arte de David pode ser descrita como meio “cartoon”, mas essa natureza enganosamente “cartoon” de sua arte é muito imersiva e inesperadamente te dá uns golpes emocionais. A arte de David te atrai por suas qualidades na superfície, mas é emocionalmente recompensadora a medida em que você está imerso nela. Acho que a mesma coisa pode ser dita a respeito deste gibi como um todo.

E também, e não faço segredo sobre isso, quando descobri que David seria o artista na revista eu imediatamente comecei a escrever várias coisas para Mary-Maria (irmã de criação de Archer no título) e as Irmãs da escuridão perpétua (conglomerado de freiras assassinas subordinadas a Mary-Maria). Eu amo o jeito que ele as desenha e, desde então, criei um arco um pouco maior para elas.

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Capa alternativa de “A&A: THE ADVENTURES OF ARCHER & ARMSTRONG”#1 por Trevor Hairsine.

Os diálogos entre Archer e Armstrong sempre foram muito divertidos de ler em histórias anteriores. É difícil escrever para vozes tão diferentes?

Algumas vezes é difícil. O truque é não pensar em Archer e Armstrong (ou qualquer outro personagem) como personagens fictícios, mas como  pessoas vivas com esperanças e sonhos e seus próprios pontos de vista. Se eles são reais na minha mente, e se eles conseguem canalizar suas próprias linhas de pensamento, então as vozes se tornam reais nas páginas.

O mais difícil é quando as vozes estão falando coisas diferentes daquilo que quero que elas digam, ou quando estão fazendo escolhas diferentes daquelas que quero que elas façam para avançar a história. Nesses casos, eu costumo concordar com o personagem e, fazendo isso, geralmente descubro uma história muito mais satisfatória.

As histórias anteriores de Archer e Armstrong sempre tiveram alguma interligação com o grande universo Valiant, tipo introduzindo personagens importantes como os Geomancers ou em histórias ‘team up’ como The Delinquents. ‘A&A’ é um gibi mais contido dentro de seu universo ou veremos este tipo de interações novamente?

Eu tenho que ser muito cuidadoso ao responder esta pergunta para não entregar nada…

Sim. Haverá outros personagens da Valiant fazendo aparições em ‘A&A: THE ADVENTURES OF ARCHER & ARMSTRONG’.

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Capa alternativa de “A&A: THE ADVENTURES OF ARCHER & ARMSTRONG”#1 por Kano.

Se você pudesse escolher qualquer personagem da Valiant para usar em Archer & Armstrong  quem escolheria e por que?

Esta é difícil, porque tenho certeza de que poderia usar qualquer personagem da Valiant se eu quisesse e tivesse uma boa história para eles. Eu não pensei muito nisso ainda, mas agora que você perguntou, acho que Archer e Armstrong seguindo Ninjak em uma aventura seria bem divertido. Ou posso imaginar que Raio de Sol sobre a Neve (Robô do título Imperium de Joshua Dysart) e Archer poderiam ter umas discussões filosóficas muito profundas. Isso seria legal.

Espero que as pessoas curtam ‘A&A’ e comprem todo mês. Eu não me importaria com uma fase bem longa na revista para podermos ter chance de brincar com todos estes outros brinquedos da Valiant.


A&A: The Adventures of Archer and Armstrong estreia no dia 16 de março, nos Estados Unidos.

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