[Entrevista] Artur Vecchi, editor da Avec Editora

Artur Vecchi concedeu um pouco do seu tempo para conversar com o Terra Zero sobre os lançamentos da sua editora, a Avec Editora, programados para 2016. Especializada em livros e quadrinhos, a Avec tem expandido seus negócios no mercado editorial brasileiro há algum tempo. Portanto, o site foi procurar Vecchi para que ele explicasse mais os negócios da Avec, como funciona a escolha de lançamentos da editora e algumas outras curiosidades sobre sua participação no mercado editorial brasileiro.


 

Como a Avec surgiu e por que ela publica tanto livros como quadrinhos?

Artur Vecchi: Primeiramente, é um prazer estar dando essa entrevista pro Terra Zero, um site que já acompanho faz tempo.

Vamos voltar um pouco no tempo. Eu já tive uma editora entre 1995 e 1997 chamada Nova Vecchi, no Rio de Janeiro. Lançamos algum material de RPG e revistas de cards, mas, em 1997 fechamos. Já havia me mudado para Porto Alegre e comecei participar de um evento chamado Odisseia de Literatura Fantástica. Foi nele que conheci outros autores e editores. Eu, que já estava com vontade de voltar a editar, vi outros fazendo aquilo que eu queria fazer e me senti estimulado.

A AVEC possui o objetivo de publicar boas histórias, não importando se elas são no formato romance ou no formato quadrinhos. Eu, pessoalmente, sou apaixonado pelos dois.

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A editora Vecchi, de sua família, marcou época no Brasil. Você tem esse legado como referência?

O meu avô foi o fundador da Editora Vecchi e o meu pai deu prosseguimento. Até os meus nove anos, os assuntos da Editora Vecchi eram tema do cotidiano lá em casa. Eu sou a terceira geração de editores na família. Dizer que não tenho esse legado como referência é mentira. Mas a Vecchi terminou há mais de trinta anos. São outros tempos, a Avec não pode viver do passado. Tem que se conectar com o presente e pensar no futuro.

Quais são as diferenças entre lançar obras que foram financiadas no Catarse e material que foi negociado diretamente com autores e, no caso do material estrangeiro, com as editoras?

São três experiências diferentes. No caso do Catarse, no qual tivemos a sorte de iniciar com o Beladona, que ganhou um prêmio HQ Mix, a editora entra como uma parceira dos autores para fazer o livro chegar as livrarias, etapa que é mais complicada para quem se autopublica.

No caso dos autores que assinam contrato de publicação com a editora, ela assume mais riscos, mas possui um pouco mais de autonomia. São as apostas da editora. Neste ano teremos dois quadrinhos já confirmados de autores nacionais: o primeiro é Contos do Cão Negro, uma parceria de Cesar Alcazár e o Fred Rubim. A história versa sobre as aventuras de um guerreiro irlandês no século 12 e tem um clima mais espada e feitiçaria. O personagem já apareceu em várias antologias de contos tanto brasileiras quanto no exterior e sempre brinco que o Cesar Alcázar é o Robert E. Howard brasileiro.

O segundo álbum que iremos lançar será com o personagem Le Chevalier, que já apareceu no romance lançado pela Avec Le Chevalier e a Exposição Universal. Ele é um espião numa Paris steampunk de 1867. Devido a ambientação, achamos que as aventuras do Le Chevalier caberiam bem no formato quadrinhos. Enquanto os romances irão contar os eventos da Exposição Universal para frente, os quadrinhos irão contar casos anteriores do Le Chevalier. Este álbum está a cargo de A.Z. Cordenonsi e do Fred Rubim.

Quanto às HQs europeias, procuramos várias editoras lá de fora, e estamos tentando trazer para o Brasil, histórias que dialoguem bem com os outros livros da editora.

Capa de Le Chevalier e a Exposição Universal.
Capa de Le Chevalier e a Exposição Universal.

Como foi a escolha dos títulos para 2016?

AV: Foi uma escolha difícil, porque a AVEC é pequena, logo não temos tanto capital para investir quanto outras editoras mais antigas no mercado, e quase que diariamente recebo originais para avaliar. Teve desde títulos que fui atrás, como Contos do Cão Negro, cujos autores eu já conhecia. Outros me foram oferecidos. Tive a sorte de ter amigos no mercado que puderam me indicar obras e até fazer o primeiro contato com os autores ou editoras lá de fora, um desses foi o PH que possui o site Tujaviu. Ele foi essencial para trazer os títulos de linha clara para cá (January Jones e Ricardo Castillo). Sempre tentando montar uma linha coerente com o que ja lançamos.

Capa gringa do segundo álbum de January Jones.
Capa gringa do segundo álbum de January Jones.

Falando do catálogo da Avec, vocês têm aumentado cada vez mais a experiência com obras de terror. Vocês já publicaram Carnívora, Beladona e agora trazem ao país a HQ sueca chamada Alena. Terror é um tema pelo qual você, como editor e leitor, tem preferência?

AV: Sim, a Avec flerta bastante com a literatura fantástica: terror, fantasia e ficção cientifica. No terror especificamente, eu sempre li H.P. Lovecraft, Stephen King, Anne Rice e Clive BArker. Em 2015 lançamos o Beladona, Carnívora e Dioníso que foram quadrinhos de terror, e lançamos também nos romances a Coleção Sobrenatural: Vampiros, uma antologia com diversos autores nacionais com contos sobre vampiros. Lançamos também Doce Vampira, um romance sobrenatural distópico em que humanos e vampiros tentam conviver pacificamente.

Eu particularmente adoro terror, e os quadrinhos da antiga Vecchi que até hoje gosto de reler são os de terror, como Spektro, Pesadelo e Sobrenatural.

Para 2016, teremos na área do terror, Alena que é um quadrinista sueco que tem publicado pela Dark Horse, e na área dos romances teremos Zumbi, do Philipe K. David, criador do blog Mundo Gump, e Treze, uma antologia de treze contos do Duda Falcão, um autor que está crescendo muito nessa área aqui no sul.

Capa de Vampiros - Coleção Sobrenatural Vol.1.
Capa de Vampiros – Coleção Sobrenatural Vol.1.

Como foram as negociações internacionais, se é que se pode falar abertamente sobre isso?

AV: O mercado internacional, pelo menos o Europeu, já possui um padrão de negociação, não saímos muito do padrão. O que realmente foi difícil foi ser respondido pelas editoras de lá. Até hoje tem algumas que não nos responderam o primeiro e-mail. Mas creio que isso vai mudar após lançarmos alguns quadrinhos de lá por aqui.

Você pode falar um pouco sobre a expansão da Avec especificamente para títulos europeus?

AV: Na França, saem uma dezena de títulos novos por mês, muitos de altíssima qualidade. O mercado brasileiro está orfão desse tipo de material e, nas minhas pesquisas por titulos, encontrei uma gama imensa de títulos que casariam perfeito com a linha da Avec. Como disse anteriormente, a editora é mais ligada aos quadrinhos de aventura e a literatura fantástica e menos a super-herois.

Como você acredita que o leitores vão se relacionar com os títulos europeus?

AV: Eu espero que gostem e comprem, pois se não houver vendas, não trazemos mais. É simples. Mas de uma maneira geral, os quadrinhos que iremos trazer possuem características diferentes exatamente para testar o mercado e ver se ele realmente comporta um estilo diferente dos super-heróis.

Comente um pouco sobre os títulos internacionais. De todos eles, apenas Ember, que é um spin-off de Storm (já publicado nos anos 1990 pela Abril), é reconhecível no Brasil.

AV: Teremos o primeiro volume de January Jones que possui oito volumes lançados lá fora. Queremos publicar todos. A HQ é uma mistura de Tintim e Indiana Jones, uma aviadora que vai se aventurar pelos quatro cantos do mundo muitas vezes encontrando figuras históricas em suas andanças. O primeiro volume se chama Corrida contra a Morte e, nele January vai participar do rali de Monte Carlo, onde será perseguida por nazistas etc. As aventuras da January Jones se passam após a Primeira Guerra Mundial. Os quadrinhos dela explodiram na Europa nos anos 1980 e saíram seis álbuns. Em 2014 ela voltou a ser desenhada e já saíram mais dois álbuns na nova fase.

Storm já saiu por aqui e é um clássico na Europa, mas possui quase 40 álbuns publicados, seria complicado começar a série principal nesse momento. Em 2014 começou a sair o prequel Ember, antes de ela conhecer Storm, com uma pegada bem próxima à da Red Sonja. É uma forma interessante de introduzir os leitores no universo do Storm. Nesse prequel, ela passa de coadjuvante a protagonista.

A Guardiã conta as aventuras de uma caçadora de seres sobrenaturais na Inglaterra vitoriana. O artista que desenha esse título também trabalha com quadrinhos Disney, mas A Guardiã traz um traço mais adulto, apesar de estilizado. É um titulo que dialoga perfeitamente com os leitores de Le Chevalier.

Alena é um quadrinho de terror psicologico sueco bem ao estilo Carrie, A Estranha, mas com pitadas de terror oriental. teremos amores, mortes e fantasmas dentro deum internato, onde a Alena do titulo estuda.

Aventuras de Ricardo Castillo, é outro exemplar da nova linha clara europeia, Ele conta as venturas de Ricardo Castillo, na Nova França (o atual Canadá) onde ele vai explorar o norte do pais. Foi considerado um Tintim na neve.

Por que a decisão de publicar Alice in Badland em e-book, por enquanto?

AV: Em 2014, vendo a dificuldade para os quadrinistas brasileiros de publicar de uma vez só uma história longa, pensei nesse formato que era publicar em e-book, os quadrinhos com 22 páginas e depois de fechar seis edições publicar impresso, o arco completo. Dos projetos que tinha, o que vingou foi o Alice in Badland. Ele é de um quadrinista de Manaus, o Tamie Gadelha, e lançamos duas edições em 2015. A terceira está para sair.

O que você pode falar sobre Alice in Badland para os que não a conhecem?

AV: Alice in Badland é um quadrinho onde vamos acompanhar uma Alice crescida voltando para o País das Maravilhas, mas que agora está em guerra civil, teremos novas versões dos personagens clássicos da Alice, e em uma trama onde a presença dela pode fazer toda a diferença.

A Avec está apostando em títulos com protagonistas femininas, como January Jones, Alena e Ember, e não é de agora. Por que esta opção?

AV: Estamos vivendo um momento único na sociedade com o empoderamento feminino e isso também está se refletindo em todas as mídias. A Avec não poderia estar fora disso, até porque repudiamos qualquer forma de preconceito.

Capa de Alice in Badland 1.
Capa de Alice in Badland 1.

Deixe um recado final para os leitores atuais e para aqueles que ainda não conhecem os livros da Avec.

AV: Gostaria agradecer o espaço que o Terra Zero abriu para a Avec com essa entrevista e quera convidar todos os leitores a conhecerem os títulos da editora. Estamos tentando trazer novidades tanto nos quadrinhos nacionais quanto nos estrangeiros, assim como nos romances.

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