[Clarim Terra 8] “E se” a Marvel abolisse os reboots?

O Clarim Terra 8 é o espaço dentro do Multiverso do Terra Zero para comentarmos um pouco sobre a situação na Marvel Comics. Então guarde seus Batarangues e Anéis Energéticos para falarmos um pouco sobre Escudos de liga de Vibranium e Manoplas do Infinito. Hoje, o assunto é Reboot.


 

“Reboot” – uma palavra pequena, mas tão temida e odiada pela massa leitora de quadrinhos quanto os mutantes são pela humanidade no Universo Marvel. Nesses tempos de histeria “nérdica”, a cada tuíte ambíguo de editores-chefes, tanto na Marvel quanto na DC, a mera menção do termo faz o mais pacato dos fãs se tornar sua própria versão de um irado Doutor Banner.

Ironicamente, quanto mais condenamos esta prática abjeta, mais frequentemente vemos as grandes editoras se aproveitarem do hype gerado pelas tais “mudanças”, sempre com o intuito de capitalizar em cima da nossa inocente “vermisse”.

O próprio corpo editorial da Marvel abomina o termo “reboot” atualmente. Quando questionados sobre a quantidade de relançamentos de sua linha de quadrinhos nos últimos anos, qualquer editor Marvel que se preze já dispara o famoso: “It’s not a reboot!”

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Sana Amanat, Editora de Ms. Marvel, e o famoso “It’s not a reboot” aos 2:06 em entrevista com Seth Meyers.

Este cagaço se deve principalmente ao assumido e mais recente “reboot” da DC pós-Flashpoint (“Os Novos 52”), que foi pioneiro tanto em popularizar o termo quanto em garantir sua nefasta reputação. E sejam “reboots”, “resets” ou relançamentos, estes vem acontecendo frequentemente na Casa da Ideias.

É lógico que você lê o título do post e imediatamente pensa: “Ah! Isto é um exercício em futilidade… A Marvel nunca vai fazer isso. Mudanças vendem. E afinal nunca houve um reboot de fato”. Sim. A situação cronológica da Marvel atualmente é bem mais confusa do que um pós-Reboot – que é simplesmente começar tudo do zero. Mas que houveram realinhamentos e mudanças abruptas em vários personagens não há como quem acompanha a editora negar. O que iremos tratar a seguir é uma proposta de cronologia um pouco mais amarrada e sem tantos “soluços narrativos” a cada mudança de equipe criativa.

Partindo deste pressuposto, vale lembrar que, por muitos anos (principalmente no século passado), a Marvel manteve suas numerações inalteradas, em muitos dos seus gibis principais, por períodos prolongados de tempo, e teve arcos sequenciais muito grandes em suas publicações. Esta prática era bem comum no mercado e, inclusive, adotada pelas publicações aqui no país, que tinham numerações altas nas décadas de 1980-90.

Citando somente dois exemplos de títulos com os mesmos autores em numerações altas, temos a passagem de Chris Claremont pelos X-Men, que durou quase dezessete anos, e a do indefectível Peter David, que esteve à frente do Incrível Hulk por pouco mais de doze anos. Todavia muito mais importante que as longas estadias nos gibis citados, as mudanças implementadas por estes autores nestas publicações tiveram impacto profundo na mitologia daqueles personagens. Mesmo com um Hulk que passou de verde e irracional para o cinza e sacana Sr. Tira-Teima, até chegar a sua versão híbrida na forma do chamado Professor, tudo ali valeu para construir aquela persona e formar aquele elenco, e nada foi alterado por alguma ingerência editorial ao final do arco. Então, não vamos fingir que algum dia este tipo de formato de quadrinhos nunca aconteceu.

As longas passagens de Peter David no Hulk e Chris Claremont nos X-Men publicadas no Brasil na era pré-reboots da Marvel. (Acervo do colunista)
As longas passagens de Peter David no Hulk e Chris Claremont nos X-Men publicadas no Brasil na era pré-reboots da Marvel. (Acervo do colunista)

Em tempos de audiências com nível de atenção inferior a de um beija-flor, o formato em voga nas duas principais editoras de quadrinhos do mercado parece ser o chamado “por temporadas”. Ou seja, um gibi é lançado com determinada equipe criativa, elenco e premissas, as histórias são contadas por determinados períodos de tempo naqueles moldes e, em seguida, a linha narrativa é finalizada para que uma nova equipe assuma com outro tipo de abordagem. Exemplo mais recente na Marvel é a sua linha dos Vingadores (que já destrinchamos em detalhes aqui), que sofreram significativas mudanças em todos os seus títulos após a saga Guerras Secretas e o próprio Demolidor que teve o status quo completamente redefinido nesta nova fase escrita por Charles Soule.

É perfeitamente compreensível e justificável que este formato de histórias tenha se popularizado nos últimos anos. A leitura se torna acessível, a empresa arrecada mais e o leitor pode optar por desfrutar de arcos fechados em formato com custo menor ao invés de se matar comprando publicações periódicas sem saber nada sobre a qualidade do material. Não há nada de errado com este modelo, exceto por um pequeno vício narrativo…

Demolidor
O novo Demolidor no traço de Ron Garney.

O principal problema é, que associadas a este formato, estão as tais “guinadas narrativas” que frequentemente retornam os personagens às suas condições anteriores e os mantém presos na mesma situação, por décadas. Um exemplo recente é o Sentinela da Liberdade: Quando Rick Remender decidiu que, em Junho de 2014, Steve Rogers envelheceria e, consequentemente, não poderia mais vestir o manto do Capitão, isto foi interpretado ingenuamente pelos leitores como um sinal de mudança no status do personagem. Com pouco menos de 2 anos, no entanto, a Marvel garante o retorno do homem aos seus trinta e poucos anos e, em 2016, teremos o retorno do Capitão América original.

Este tipo de “mudança que não muda nada” aconteceu pouco antes com o próprio Homem-Aranha, após sua inusitada fase “Superior”, e é cada vez mais frequente nas publicações da editora. Você acha que algo mudou e, tá, existe uma mudança por um tempo, mas logo tudo retorna ao que era antes. Com esta prática, a Marvel ganha no aspecto comercial, mas perde em credibilidade, pois o que mais ouvimos de antigos (e novos) leitores é que “tudo muda, mas acaba ficando a mesma coisa” na editora atualmente. Ou seja, é o famoso “daqui a pouco tudo volta ao que era antes”.

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Steve Rogers envelhece em Captain America #21 (2014) de Rick Remender e Nick Klein.

O exercício proposto a seguir é imaginar (como nas famosas histórias “What If” da própria Marvel) se seria de fato tão ruim se as mudanças propostas em seus personagens se mantivessem definitivamente daqui em diante.

Vamos a alguns casos fora da Casa das Ideias.

Tomemos como exemplo o personagem ícone da 2000 AD, o Juiz Dredd. John Wagner e Carlos Ezquerra apresentaram Dredd e todo o universo de Mega City One na segunda edição da publicação 2000 AD, lá em 1977, inicialmente com o intuito de satirizar estereótipos de policias durões, mas inserindo a trama em um contexto sci-fi distópico com toques de crítica política. Desde então, a 2000 AD vem publicando histórias sobre o personagem sem “resetar” praticamente nada dos conceitos apresentados por todos os autores que já passaram pelo gibi. Com isso, o personagem envelhece, tem problemas de saúde, aprende coisas novas e muda alguns de seus pensamentos. Assim como o protagonista, todo o elenco e ambiente da revista é afetado pelas mudanças propostas pelos autores de maneira quase que definitiva e praticamente nada volta ao status anterior. Autores que trabalharam em Dreddcomo Douglas Wolk, afirmam que existem decisões criativas feitas nestes personagens desde as primeiras tiras escritas que tem impacto neste universo até hoje. Isso garante ao universo de Dredd algo que publicação alguma da Marvel consegue: um senso pleno de evolução ao longo do tempo.

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Dredd, atualmente um senhor de mais de 70 anos com um câncer benigno no duodeno.

Como outros exemplos podemos citar publicações um pouco mais recentes (se comparadas com Dredd), como The Savage Dragon, The Walking Dead ou Invincible. Títulos que mantém linhas narrativas contínuas desde sua concepção e nas quais as mudanças de status do elenco e ambientes narrativos permanecem e compõem, de maneira consistente, suas respectivas mitologias.

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Nada de “resets” de continuidade em The Walking Dead.

Mas aí alguém vai chegar no espaço de comentários abaixo e lançar: “Mas a Marvel é um universo inteiro e esses gibis são somente um título fechado e único. Aí fica fácil”. Ok. Então vamos a um exemplo do que tem sido feito neste sentido em um universo de publicações numerosas, mas extremamente consistente: O Universo Valiant.

O Universo Valiant, como o conhecemos atualmente, teve início no verão estadunidense de 2012. Naquela ocasião, foram lançados três títulos principais: X-O ManowarHarbinger Archer & Armstrong, como parte da estreia deste novo universo. A Valiant, atualmente, adota o tal modelo “por temporadas”, frequentemente descontinuando publicações e lançando séries limitadas. No entanto, ao contrário de Marvel e DC Comics, a editora usa esta ferramenta de forma diferente, sem interferir na continuidade de suas publicações e seguindo linhas narrativas contínuas, com mudanças que afetam e modificam de fato aquele universo.

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O novo universo Valiant funciona de maneira diferente da Marvel.

Vamos a um pequeno exemplo de como a coisa funciona.

Um dos maiores sucessos no relançamento da linha de quadrinhos da Valiant em 2012 foi um título chamado Harbinger. O protagonista principal da série era o jovem chamado Peter Stanchek e, nas páginas da revista, acompanhávamos seus dramas e aventuras neste novo universo. Bom, ao final de Harbinger, algo acontece com Stanchek que o impossibilita de continuar atuando neste universo, talvez não definitivamente, mas por um período indefinido. Portanto, o que o corpo editorial da Valiant faz com o o título? O descontinua por tempo indeterminado e move os personagens restantes da publicação para outros títulos da linha de quadrinhos.

Parece uma coisa bem banal, não? Agora imagine que o Homem-Aranha perde seus poderes por um tempo, o Capitão América morre, o Batman fica incapacitado de atuar por um tempo… Agora imagine se a Marvel ou a DC cancelassem os títulos destes personagens e cessassem suas aparições em outros gibis em virtude desses acontecimentos. Difícil imaginar, não?

No universo Valiant, a história de Peter Stanchek aparentemente termina em Harbinger, mas seu antagonista, Toyo Harada, ganha status de protagonista em escala global, no título que se seguiu, chamado Imperium, e, assim, a mitologia da editora segue em frente, com suas repercussões e mudanças no contexto daquele universo.

Pois é assim que funciona a Valiant. Quando uma história termina, ela termina de fato. Outra história pode recomeçar, no entanto as repercussões na vida destes personagens são reais. Você raramente vai ver um arco no qual Shadowman é infectado por um vírus e no mesmo mês estará em outro gibi ajudando a Doutora Miragem, por exemplo. Isso é respeito para com os leitores. Mas quem não está acostumado com este tratamento provavelmente não vai reconhecê-lo, mesmo que esteja a um palmo de distância de seus olhos.

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A evolução de Toyo Harada como personagem tem início em Harbinger e continua em Imperium da Valiant.

Agora faça uma rápida pesquisa e veja quantos relançamentos e reboots disfarçados a Marvel já teve desde 2012, quando este novo universo Valiant surgiu… Marvel NOW! em 2012; All-New Marvel NOW! em 2013 e All-New, All-Different Marvel em 2015. É isso aí, leitor.

Aqui, tentamos mostrar como a Marvel tem agido nos últimos anos, e os prós e contras desta prática para quem, de fato, acompanha os gibis. Além disso, o intuito foi mostrar que o conceito de um universo com uma continuidade um pouco mais amarrada não é uma ideia tão esdrúxula quanto parece. Muitas editoras praticam este modelo e, afinal de contas, a própria Marvel já funcionou assim um dia.

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Marvel Now! O primeiro dos 3 últimos relançamentos da Marvel nos últimos 4 anos.

Nada contra mudanças de status quo nos personagens. Elas são extremamente bem-vindas, revigorantes e satisfazem a necessidade do leitor pelo novo. Entretanto, é imprescindível que haja uma boa história como alicerce para estas mudanças e, principalmente, que estas mudanças tenham impacto duradouro nas publicações. Não adianta nada mudar um personagem de forma abrupta para agradar um nicho X e, pouco tempo depois, voltar ao status anterior porque o hype acabou. Certo?

Ao final, fica o convite para que façamos o seguinte exercício.

Imagine um Homem-Aranha finalmente envelhecendo, se tornando um mentor e não um agente, e finalmente passando seu manto para uma nova geração; um Wolverine morrendo definitivamente para nunca mais voltar e todo o vazio de um mundo sem o carcaju canadense; uma cidade de Nova York que sofre as consequências permanentes de uma invasão Skrull em larga escala e toda a influência disso na vida de seus habitantes; ou mesmo o novo universo de Star Wars crescendo e evoluindo através dos anos que virão. Mudanças permanentes como estas dentro de uma cronologia estável são algo que o leitor Marvel talvez ainda não tenha experimentado nos últimos anos. Que tal? Não parece um tipo de leitura tão ruim para o futuro da editora, não é?

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