A Samurai Mylle Silva

[Entrevista] Mylle Silva, autora de A Samurai

Uma lógica vem imperando no mercado de quadrinhos nos últimos anos: proporcionar maior quantidade de títulos tanto estrelados, quanto produzidos por mulheres. E isso não se reflete apenas no mercado estadunidense, como no nacional. Um dos grandes exemplos de sucesso nesse sentido foi A Samurai, mangá brasileiro que no ano passado teve um financiamento bem sucedido no Catarse e que, agora, está sendo distribuído em bancas de todo o país.

O Terra Zero conversou com Mylle Silva, autora da HQ, sobre a realidade de produção de quadrinhos de, por e para as mulheres. Confira abaixo:

a samurai mylle silva
Capa de A Samurai, de Mylle Silva.

Terra Zero: Mylle, a personagem Hera Venenosa terá uma nova revista mensal, escrita pela Amy Chu. A Batgirl também tem uma revista que está fazendo muito sucesso, escrita pela Gail Simone. Você acha importante que personagens mulheres sejam escritas e desenhadas por autoras mulheres? Por quê?

Mylle Silva: Apesar de eu não ser muito fã dessa dicotomia de quadrinhos feitos por homens versus quadrinhos feitos por mulheres, acredito que o momento pede que mulheres deem voz e forma às personagens femininas, principalmente quando falamos de comics. Mesmo eu adorando personagens fortes, nunca encontrei nada que me representasse na Mulher Maravilha, por exemplo. Por isso, na adolescência, eu consumi muito mais mangás do que comics.

O mercado japonês de quadrinhos é extremamente segmentado e, mesmo sendo um país machista, no Japão os mangás shoujo (para meninas) são feitos por mulheres. Ou seja, eu lia histórias feitas por mulheres, que falavam comigo, que eram mais próximas à minha realidade e aos meus sentimentos.

a samurai mylle silva
Mylle Silva, roteirista de A Samurai, em rede social.

Você está satisfeita com a abordagem feminina nas HQs atuais? Você acha que as personagens femininas são bem retratadas? Por quê? Você tem reparado uma mudança de linha editorial das grandes editoras nesse tema? Ou ainda está longe do atual?

Para mim os comics sempre foram muito desinteressantes, tanto as histórias quanto esteticamente. De uma forma geral, os super-heróis são pouco humanizados, independente do sexo, e isso sempre me incomodou.

Quando pensamos em uma heroína de comics, ela sempre tem que ser peituda e vestir pouca roupa (ou com roupas extremamente coladas ao corpo). Esse é um imaginário que levará anos para ser mudado – afinal, humanizar personagens é muito mais difícil do que mostrá-los como deuses perfeitos.

A grande vantagem é que, hoje, o feedback dos leitores é muito rápido e influencia no que está sendo produzido. A HQ da Batgirl ou mesmo a série da Supergirl mostram uma nova opção para as adolescentes que não querem ser meras princesas dependentes de seus maridinhos. Mostrar que as mulheres são tão capazes quanto os homens é o primeiro passo para que essa “guerra” boba dos sexos acabe.

Como você vê o futuro para autoras mulheres no ramo das HQs, tanto aqui no Brasil como no mercado dos Estados Unidos?

MS: Acredito que só tende a melhorar porque as mulheres estão consumindo cada vez mais HQs. Eu sinto que o mercado, de maneira geral, ainda é muito masculino, mas não acredito que ninguém deva suprimir a vontade de publicar só porque é mulher ou pelo medo de não ser aceita. Só, por favor, não faça quadrinhos porque você quer ser conhecida como “uma mulher que faz quadrinhos”; publique porque você tem algo a dizer – e o seu público te encontrará.

"Stronger Together" -- When Kara's (Melissa Benoist) attempts to help National City don't go according to plan, she must put aside the doubts that she -- and the city's media -- has about her abilities in order to capture an escapee from the Kryptonian prison, Fort Rozz, when SUPERGIRL moves to its regular time period, Monday, Nov. 2 (8:00-9:00 PM, ET/PT) on the CBS Television Network. Photo: Cliff Lipson/CBS ©2015 CBS Broadcasting, Inc. All Rights Reserved - Supergirl
Melissa Benoist interpretando Supergirl. Foto: Variety.

Você tem lido autoras de quadrinhos? Se sim, quais? Quais você recomenda?

Tenho lido muitas autoras nacionais, como a Rebeca Prado (Navio Dragão), Fernanda Nia (Como Eu Realmente Me Sinto), AnaLu Medeiros (Carvalhos), Bianca Pinheiro (Bear), Samanta Hit (Sapos e Fadas), Cristina Eiko (Quadrinhos A2), etc.

Apesar de ter lido há algum tempo, farei menção honrosa aos mangás Honey and Clover (por Chika Umino) e Nana (de Ai Izawa), que têm histórias incríveis escritas por mulheres.

Você está satisfeita com o resultado de A Samurai?

Não só satisfeita como encantada, quero fazer quadrinhos até o fim da vida! Quando escrevi o roteiro de A Samurai, eu só queria tirar uma ideia da cabeça, fazer um teste, colocar um livro no mundo, essas coisas. No entanto, foram tantas as surpresas e aprendizados desde a elaboração do projeto para o Catarse até a chegada da HQ nas bancas que a Michiko ganhou muito mais espaço do que eu sequer poderia imaginar!

Navio Dragão, HQ de Rebeca Prado.
Navio Dragão, HQ de Rebeca Prado.

Confesso que eu tinha muito medo de lançar um projeto assim – afinal, quem era eu pra pedir tanto dinheiro pra fazer uma HQ? Inclusive quase desisti durante a campanha no Catarse, achando que não seria possível financiar todo o valor, que estava dando um passo maior que a perna, sabe? Foi nesse momento que tive muito apoio moral de várias pessoas e o sonho começou a se tornar realidade. Sou muito grata aos apoiadores do projeto, à parceria firmada com a Tambor Quadrinhos e aos leitores, que têm me dado feedbacks e energias para continuar essa jornada.

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