Nhô quim Zé Caipora Angelo Agostini

[Editorial] Qual o prêmio do quadrinho nacional?

Em 1869, Ângelo Agostini publicava pela primeira vez o seu “Nhô Quim”. Desta forma, ele não apenas inaugurava oficialmente o quadrinho nacional, como também entrava para a história mundial como um dos pioneiros desta que é conhecida como a Nona Arte.

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Em 2016, há muito o que se comemorar. Foram contabilizados, apenas nos últimos doze meses, mais de 300 lançamentos de autores brasileiros dentro do território nacional. Um número impressionante, alavancado pelo fortalecimento de festivais nacionais dedicados aos quadrinhos, como o FIQ, e de eventos cujo cerne de apelo pop é, também, a arte sequencial, como é o caso da CCXP.

Não apenas a produção brasileira de quadrinhos cresceu em quantidade, mas, também, em qualidade. Não é, no entanto, um movimento que surgiu do nada: desde que o primeiro quadrinho financiado coletivamente no Brasil, Achados e Perdidos, surgiu para o público em 2011, nada mais foi o mesmo para o cenário. De Minas Gerais, a explosão de talentos se expande, desde então, para todo o País. Isso, no entanto, é apenas parte do que está acontecendo.

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Cena de Aventuras na Ilha do Tesouro (Mino), de Pedro Cobiaco

Uma nova geração, inspirada pela independência editorial e pelo controle total dos meios de produção, vem produzindo obras cada vez mais relevantes e ousadas. Novas editoras (e, principalmente, os novos editores por trás dessas novas casas publicadoras) procuram abrigar e orientar muitos desses novos talentos, numa parceria que não fere o controle criativo e equilibra o jogo comercial entre publicador e publicado. É o caso, por exemplo, da Balão Editorial e da Mino.

Paralelamente a isso, algumas editoras tradicionais visualizaram o potencial desta nova geração e iniciaram um processo de incorporação de talentos que permitiu, a muitos deles, chegarem a um público muito mais amplo, graças à maior distribuição, à amplitude da visibilidade comercial em pontos de venda e, claro, a notoriedade das empresas que os abraçaram. O caso mais claro desse movimento é a produção, por parte de talentos recentes, das graphic novels da Mauricio de Sousa Produções/Panini (ainda que, é preciso dizer, este caso específico seja resultado do trabalho hercúleo iniciado por um profissional de visão editorial muito acurada, Sidney Gusman, alguns anos antes do boom de 2011, com a série MSP 50).

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Ugra Zine Fest, edição 2014

Outra consequência do desvencilhamento da tradição do processo editorial, vigente até a primeira década deste século, para o quadrinho brasileiro (que, entre outras coisas, colocava o destino de criadores nas mãos de editores sem ousadia suficiente ou pressionados por uma visão antiquada de mercado), foi o surgimento de uma diversidade jamais vista no círculo editorial dos quadrinhos. Essa diversidade, com o passar do tempo, vem se mostrando não apenas temática, mas também atinge a produção gráfica das obras e, é claro, a inclusividade dos perfis autorais, derivando do padrão anterior, maciçamente caucasiano, heterossexual e masculino. Eventos como Ugra Zine Fest, Feira Plana e Tijuana estão na vanguarda desta produção, que também se reflete nos maiores eventos de quadrinhos do Brasil.

Essa diversidade traz, como mote mais premente, a discussão acerca do empoderamento feminino na produção cultural mundial. Uma discussão que, apenas nos últimos meses, tomou conta dos bastidores das mais diversas premiações no mundo, sendo as de mais destaque o Prêmio Hugo de ficção científica, o Grand Prix do Festival de Angoulême e, no Brasil, a campanha de divulgação do último Troféu HQ Mix.

O embate entre os lados opositores da questão envolve, necessariamente, a necessidade meritória da premiação diante da representatividade na seleção dos finalistas aos lauréus. É uma questão que não é mais algo a ser debatido no futuro. Ela está, aqui e agora, esperando uma resposta adequada.

Provavelmente, a melhor resposta para esta questão envolva o equilíbrio entre tais lados. A necessidade de embate é inexistente (ou, ao menos, minimizada) se existirem critérios claros que permitam que haja representatividade real e mérito de autores e obras avaliadas, simultaneamente. Pois, na verdade, torna-se indiferente o gênero vencedor de uma premiação (ou a tonalidade da pele, ou credo, ou o que quer que se coloque como barreira classificatória) se as pessoas foram tratadas sem nenhum preconceito ou viés, se as obras forem avaliadas mediante regras claras que as coloquem em pé de igualdade no julgamento de uma banca premiadora.

Tal tentativa de equilíbrio ainda é rara. Os prêmios mais antigos do Brasil, como o Ângelo Agostini (cuja premiação acontece hoje, 30 de janeiro) e o HQ Mix, buscam se adaptar, cada um a seu jeito, à nova realidade do mercado de quadrinhos brasileiro, em constante mutação.

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Já o mais recente lauréu brasileiro, o Prêmio Grampo, que reúne o ideal da tradicional votação do extinto blog Gibizada, do jornalista Telio Navega, procurou contemplar esse equilíbrio já em sua primeira edição, realizada há algumas semanas. Com critérios claros e escolhendo equitativamente dez votantes femininos e dez votantes masculinos, colheu em seus resultados, no entanto, uma premiação eminentemente masculina entre as vinte primeiras posições. O equilíbrio entre mérito e representatividade, como se percebe, não é fácil, como Zé Oliboni, do blog Diletante Profissional, analisa muito bem em seu texto sobre o assunto.

Na contramão de toda essa discussão e do mercado nacional, no entanto, está o Prêmio AbraHQ, realizado pela entidade conhecida como Academia Brasileira de Histórias em Quadrinhos. A premiação do órgão – que se tornou referência negativa de modo praticamente unânime para o mercado real dos quadrinhos brasileiros, mas que é buscado por veículos de imprensa desinformados ou preguiçosos  (notoriamente os cariocas, visto que a sede da entidade é na capital fluminense) para dar declarações, nitidamente descoladas da realidade do quadrinho nacional – foi aberta ao público e os vencedores foram anunciados em evento na última sexta-feira (29). Apenas três categorias (Gibiteria, Novo Talento e Canal de Mídia Especializada) foram objeto de votação no lauréu e, em todas elas, havia descolamento total ou quase total da verdadeira produção nacional dos quadrinhos.

Isso é explicado não apenas devido ao fato da AbraHQ viver em seu próprio universo alternativo à realidade, mas também graças às motivações políticas extremas de alguns de seus membros (algo que já foi explicitado, por exemplo, por Pacha Urbano, carioca autor da tira O Filho do Freud, finalista do HQ Mix). A ‘academia’, fundada há exatamente um ano, explicita cada vez mais sua postura formalista e visão deturpada do panorama geral do quadrinho brasileiro, como se pode verificar nas imagens da premiação na página oficial do órgão, no Facebook.

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O Dia do Quadrinho Nacional, comemorado neste dia 30 de janeiro em honra da quase sesquicentenária obra do pioneiro Agostini, também deve, em vista de todo esse panorama, ser um dia de verdadeiro debate e lembrança do que é, realmente, o quadrinho brasileiro. Eventos comemorativos realizados hoje, como a própria entrega do Prêmio Ângelo Agostini e a primeira edição da ComicCon RS Pocket, em Porto Alegre, são vitais para se debater a real natureza das transformações do nosso mercado e seu futuro.

A premiação de Marcello Quintanilha, há algumas horas, no Festival de Angoulême, na França, é uma amostra dos frutos que a HQ brasileira continua a colher no exterior. Mas há muito mais a se almejar. Pois o verdadeiro prêmio que o quadrinho nacional pode receber, não apenas hoje, como em todos os dias do ano, é o seu reconhecimento, por parte de público, crítica e imprensa, como uma mídia séria, importante, relevante, vanguardista e cada vez mais representativa da produção criativa do Brasil.

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