[Review] Desconstruindo Dark Knight III: The Master Race #1

Dark Knight III: The Master Race chegou fazendo o barulho esperado. Nunca será demais dizer que Frank Miller mudou o panorama de quadrinhos de super-heróis nos anos 1980 quando fez Cavaleiro das Trevas ao lado de Klaus Janson e Lynn Varley. A sequência desta obra foi recebida com muita controvérsia quando saiu entre 2001 e 2002. Os fãs, portanto, ficaram no mínimo desconfiados quando uma terceira parte desta obra foi anunciada no fim do ano passado.

O mais recente Estudo de Caso do Terra Zero mostrou que, ao contrário do esperado pelos mais pessimistas, o lançamento da minissérie foi um sucesso. Sua primeira edição foi calorosamente abraçada pelo público. Depois de alguns anos afastado da mídia que o tornou famoso, Miller voltou com tudo apoiado por profissionais de calibre quase tão grande quanto o seu: Brian Azzarello, Andy Kubert, Klaus Janson, Brad Anderson e Alex Sinclair.

Imagem promocional, por Andy Kubert e Klaus Janson
Imagem promocional, por Andy Kubert e Klaus Janson

Dark Knight III: The Master Race #1 dá a impressão que Azzarello freou as críticas mais ácidas de Miller. Longe disso. Na verdade, está claro que a história é mais Azzarello e menos Miller, como o lendário quadrinista tem revelado em algumas entrevistas. Segundo ele, sua participação na história principal foi apenas guiar o verdadeiro autor. Isto o levou a pensar em um Dark Knight IV, que ainda não tem data para sair.

Azzarello segue o livro de regras que Miller estabeleceu em suas obras anteriores e traz os conceitos clássicos de Cavaleiro das Trevas para a nova obra. O Batman continua sendo uma força da natureza implacável e o mundo ainda o vê com desconfiança. A reviravolta está em saber quem está por baixo do capuz e quais são as verdadeiras intenções desta personagem. O legado anárquico do Homem-Morcego de Miller permaneça vivo nas ruas de Gotham, mas, desta vez, estão todos contra ele.

Como nas histórias anteriores, a mídia é uma parte importante de Dark Knight III: The Master Race #1. Brian Azzarello e Frank Miller atualizaram os meios de comunicação para o mundo moderno, utilizando câmeras de celulares e outros tipo de filmagens amadoras. As figuras públicas discutindo as ações do Batman, porém, são bem conhecidas – estão lá Jon Stewart, Bill O’Reilly (no programa de Conan O’Brien), o reverendo Al Sharpton e os apresentadores Kelly Ripa e Michael Strahan. Todos estão discutindo a moralidade do Batman, com suas opiniões políticas sendo fielmente representadas pelos autores.

Neste momento, vale comentar a arte de Andy Kubert. Veterano e oriundo de uma família de artistas – filho do lendário Joe Kubert e irmão de Adam Kubert -, Andy mantém seu estilo. Ele é um bom artista e representou os personagens clássicos de Miller com várias semelhanças ao traço do artista. Porém, sua identidade é visível e isto tira um pouco do charme da minissérie. Por ter trabalhado com o Batman em muitas ocasiões, Kubert deixa um quadrinho muito especial com cara de mais uma história do Homem-Morcego. Apesar do seu grande talento, a DC talvez fosse mais feliz – e conseguisse impacto ainda maior – na escolha de um artista mais desafiador.

O marketing de lançar dezenas de capas para esta revista pode causar torções de nariz de muitos fãs, mas a verdade é que ele garante um alcance muito maior para o lançamento. As duas minisséries anteriores deste evento foram grandes sucessos de venda e ainda são comercializados na forma encadernada. Logo, nada mais correto por parte da editora de fazer com que seu produto chegue à maior quantidade possível de leitores.

Dark Knight III: The Master Race #1 tem um começo morno, mas cheio de potencial. O quadrinho terá o dobro de edições da série original, ou seja, será uma minissérie de oito números bimestrais. Logo, já era de se esperar que o começo não fosse bombástico. Azzarello e Miller estão guardando o melhor para o final, é claro.

Eléktron

O conto do Eléktron é a parte mais fascinante da revista, o que chega a ser irônico. Diminuto, o personagem estrela uma história mais grandiosa que a principal. Ela é escrita e desenhada pelo próprio Frank Miller, com arte-final de Klaus Janson. Diferente do esperado, a história não é um ácido conto visceral e crítico típico do autor. Na verdade, a narrativa estrelada por Ray Palmer no miniquadrinho que acompanha a primeira edição de Dark Knight III: The Master Race é contemplativa, filosófica.

Os eventos de Cavaleiro das Trevas 2 foram levados em consideração para esta terceira minissérie deste universo, em especial nesta história. A leitura dela, portanto, é obrigatória para o entendimento deste novo conto. Nele, Palmer está pensando na morte de Bruce Wayne e em como os super-heróis se tornaram defasados em um mundo que não os aceita. Mas mais importante que isso é o pedido de Lara, a filha de Superman e Mulher-Maravilha.

A garota tem uma rusga com os seres humanos e isto é melhor desenvolvido no mini quadrinho por Miller, criador da personagem. Na verdade, ela os chama de “formigas” o tempo todo e seu plano deixa claro de onde vem o subtítulo The Master Race: ela quer que a cidade engarrafada de Kandor seja restaurada a seu tamanho natural. Sabendo que os kryptonianos ficarão superpoderosos na atmosfera terrestre, Lara pode estar planejando um golpe de estado de proporções planetárias, reconstruindo Krypton sobre a Terra.

O plano não é novo, mas a execução de Miller é. Lara teve uma criação diferente de qualquer criança terrestre, kryptoniana ou amazona. Sua visão de mundo é nova e distorcida sob muitos aspectos. Para piorar, seu pai escolheu o exílio e ela está sem norte.

A graça deste plano é a ironia de Miller. Pedir para que um especialista em escolhimento resolva o problema dos kandorianos é inovador e, ao mesmo tempo, óbvio. É daquelas coisas que estava lá o tempo todo e ninguém percebeu. Além disso, Lara chamar os humanos de formigas enquanto seus conterrâneos estão deste tamanho também possui certa dose de ironia, uma que está prestes a ser revertida.

Sob o espectro crítico, o mini quadrinho é melhor que a história principal. Ele levanta os alicerces de algo grandioso, algo que Miller não está com medo de mostrar. É exatamente isto que os fãs esperam dele.

Anotações e Referências (por página)

Pg. 01 – “Não há esta coisa de ‘boa morte'”. O discurso do Batman mudou, o que dá a dica de quem está por baixo do capuz não é a mesma pessoa.

Pg. 01-03 – Quando fez a primeira minissérie, Miller utilizou o vocabulário dos irmãos da sua então namorada, Lynn Varley, para mostrar como seriam os jovens no futuro. A técnica é usada novamente, mas, desta vez com base nas abreviações online.

Pg. 04-05 – As celebridades se descabelam. É a mídia fazendo alarde novamente, o que Miller e Azzarello nunca cansam de criticar.

Pg. 06 – A mensagem aqui é clara: a lei está acima da imprensa. A Comissária Yindel aparece em um painel com todo o destaque enquanto a mídia, abaixo, tenta desesperadamente pegar uma citação dela.

Pg. 07-13 – A Mulher-Maravilha caçando um minotauro (ou bucentauro?) em todo seu esplendor. Seus pensamentos deixam claro que Lara, sua filha, odeia os humanos graças aos ensinamentos da mãe. Ela questiona o desprezo dos humanos por seus feitos o tempo todo.

Pg. 14-17 – O mundo mudou muito, a ponto do Superman perder as esperanças e entrar num exílio autoimposto. Lara, sua filha, questiona a decisão do pai. O que as “formigas” fizeram para que ele desistisse de tudo? Então ela ouve uma voz e redescobre Kandor, a cidade engarrafada. Isto será melhor desenvolvido no mini quadrinho que acompanha a HQ principal.

Pg. 18 – Referências ao Cavaleiro das Trevas 2 não são pequenas. Depois do que aconteceu com o presidente Lex Luthor, o homem mais poderoso dos Estados Unidos precisa passar por testes de DNA regulares para provar quem realmente é. Será que um dia o mundo real exigirá que líderes provem isso à população? O questionamento é relevante para o mundo conspiratório em que se vive desde o 11 de Setembro.

Pg. 19-28 – Nestas páginas, Kubert emula o melhor de Frank Miller como desenhista. Ele brinca com composições de páginas semelhantes às do primeiro Cavaleiro das Trevas e desenha personagens mais com o traço de Miller do que com o dele próprio. Além disso, é aqui que a verdadeira revelação da edição acontece – e o leitor já deve saber o que ela é.

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