[#TZnoFIQ] Gail Simone: quadrinhos para todo mundo

Após anos trabalhando com quadrinistas brasileiros, a escritora Gail Simone finalmente visitou o país para participar do FIQ 2015. Convidada do evento, a autora saiu de uma carreira como cabeleireira e estudos acadêmicos em teatro para integrar o rol de profissionais mulheres nos quadrinhos norte-americanos no começo dos anos 2000. Ela conseguiu isso após criar, com outros amigos, o blog Women in Refrigerators, um site dedicado a mostrar a exploração da mulher nas revistas – seu título veio da história clássica do Lanterna Verde Kyle Rayner, em que a namorada do herói é morta, desmembrada e colocada na geladeira da sua casa pelo vilão Major Força.

Por décadas, o sexo feminino não foi retratado com igualdade e respeito em relação ao masculino no mundo dos super-heróis, mesmo que muitas artistas trabalhassem na indústria. Com este blog, Simone iniciou um movimento de mudança que foi se espalhando pelo mainstream aos poucos, a partir dos anos 2000.

Gail Simone na San Diego Comic-Con há alguns anos. Reprodução.
Gail Simone na San Diego Comic-Con há alguns anos. Reprodução.

Ela escreveu revistas dos Simpsons e comandou o título do Deadpool quando o personagem foi transformado em Agente X. Todavia, seus trabalhos mais importantes foram feitos na DC, em especial sua longa estadia no título mensal das Aves de Rapina. Criada por Chuck Dixon no fim da década de 1990, a publicação foi revolucionada quando Gail Simone assumiu os roteiros em 2003. Graças a ela, a equipe passou a ser formada por Oráculo/Barbara Gordon, Canário Negro/Dinah Lance e Caçadora/Helena Bertinelli, o que é considerado até hoje como a formação mais icônica do grupo. Este trabalho abriu muitas portas para a autora, que logo começou a trabalhar mais para que minorias fossem melhor representadas nos quadrinhos de linha.

Foi assim que surgiram trabalhos como Sexteto Secreto, Welcome to Tranquility, Mulher-Maravilha, Eléktron, Batgirl, Red Sonja e muitos outros. A autora pavimentou a estrada de seu sucesso retratando principalmente mulheres, mas heróis e vilões de outros grupos também.

Enfim, conhecida por lutar por igualdade em um meio machista, Gail Simone chegou no Brasil para conhecer seus fãs, a cultura local e apresentar seu trabalho a uma calorentaosa Belo Horizonte. No sábado (14), penúltimo dia de evento, a autora conversou exclusivamente com o Terra Zero para responder algumas perguntas da equipe sobre sua carreira.

Morcelli e Gail Simone. Foto de Joá.
Morcelli e Gail Simone. Foto de Joá.

Logo de cara, a escritora contou que está trabalhando em um novo quadrinho para todas as idades, cuja história se passará no Brasil. Vista com bons olhos pelos fãs e jornalistas tupiniquins quando anunciada brevemente na coletiva de imprensa, dada pela autora um dia antes da exclusiva para este site, esta criação ainda está em andamento e Gail Simone não pôde revelar maiores detalhes sobre ela. Não parece se tratar, porém, de um quadrinho para a DC ou para a Marvel. Na verdade, a autora tem investido bastante em trabalhos autorais, como a minissérie Clean Room, publicada atualmente pelo selo Vertigo, e a vindoura Crosswind, que ela está criando com a artista Cat Staggs para a Image Comics.

Segundo Simone, Crosswind é uma mistura de suspense e humor negro que narra a história de um grande atirador de Chicago e uma dona de casa de Seattle cujas vidas são trocadas acidentalmente. Para a DC, portanto, a escritora continua apenas com a revista do Sexteto Secreto.

Arte promocional de Crosswind por Cat Staggs.
Arte promocional de Crosswind, por Cat Staggs.

Falando sobre seu passado histórico na DC, Gail Simone relembrou momentos importantes com o casal Dick Grayson e Barbara Gordon e com suas queridas Aves de Rapina, grupo de super-heroínas que ganhou altíssima visibilidade quando ela assumiu os roteiros em 2003 após a saída de Chuck Dixon, criador do grupo. A autora admitiu o paradoxo entre seus roteiros e a arte sexualizada de muitos desenhistas que estiveram ao lado dela neste título, em especial a do brasileiro Ed Benes. Segundo ela:

Quando fui convidada para o título, eu sabia que o desenho seria sexy. Eu não tenho problemas com isso, na verdade gosto muito de visuais sexy nos quadrinhos. O que tentei fazer nas histórias foi mostrar que as revistas não dependiam do apelo visual. Ele podia estar lá, mas o importante era mostrar os conflitos das personagens e afastá-las do conceito de ajudantes de heróis masculinos. Elas tinham vida própria e foi isso que tentei buscar, independente da arte. Além disso, trabalhei com vários brasileiros: Ed Benes, Adriana Melo, Joe Prado e muitos outros. Olha, percebi que, sendo brasileiro, não fazer desenhos sexy parece ser bem difícil (risos). Enfim, isso realmente não me incomoda, contanto que a história não fique se valendo apenas de apelo sexual.

Morcelli e Gail Simone. Foto de Joá.
Morcelli e Gail Simone. Foto de Joá.

Mais importante que este esclarecimento foi a afirmação de Simone sobre o profissional de quadrinhos e que tipo de histórias ele deveria fazer: “Histórias com personagens masculinos não precisam ser escritas por homens e histórias com mulheres não precisam ser escritas por mulheres. Todos devem fazer quadrinhos para todo mundo e eu espero que a indústria, que agora está percebendo o tamanho da diversidade do público, esteja ainda mais aberta a isso daqui cinco ou dez anos. Quadrinhos são para todo mundo”, vaticinou.

Em termos de produções brasileiras, Gail Simone se disse encantada, o que é verdade. A autora não elogiou o que viu no Brasil apenas durante a entrevista, mas também em seu perfil no Twitter. Ela recebeu muitos presentes de artistas brasileiros que queriam mostrar seus trabalhos e comentou cada um deles na rede social durante os dias em que esteve no país. Seu preferido parece ter sido Navio Dragão, de Rebeca Prado. Simone rasgou elogios à obra, afirmou ter ficado acordada até tarde traduzindo o quadrinho no Google Translator para entendê-lo, inclusive pedindo a Rebeca para, um dia, fazer uma história com o cãozinho Carne, um dos personagens do quadrinho.

O Navio Dragão de Rebeca Prado.
O Navio Dragão, de Rebeca Prado.

A autora foi embora do Brasil deixando uma impressão mais do que positiva sobre seus trabalhos, suas ideias sobre a indústria e sobre a participação da mulher nela. Além disso, é claro, ela também se foi com uma excelente impressão do país e dos quadrinhos que são produzidos aqui.

Muito mais foi revelado na entrevista exclusiva com Gail Simone durante o FIQ 2015. Fique ligado no Terra Zero e no Canal Zero nas próximas semanas para saber mais sobre o que a autora planeja para o futuro.

1 Comentário

Clique para comentar

3 + 11 =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com