[Prateleira] Star Wars: Sombras do Império, de Steve Perry

Falar de Star Wars: Sombras do Império sem comentar o tamanho deste projeto nos anos 1990 seria um erro. Este não foi o primeiro lançamento multimídia da Lucasfilms – na verdade, a empresa fez isso com o primeiro filme, Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança, lançando adaptações em livros e quadrinhos ao mesmo tempo –, mas foi o primeiro que abrangeu quase todas as formas de arte de massa da época: videogame, livro, quadrinhos, colecionáveis, action figures, cards, jogos de RPG e até sua própria trilha sonora, composta por Joel McNeely. O projeto foi tão grandioso e Steve Perry, escritor do livro, fez um trabalho tão significante, que George Lucas, criador da franquia, disse na época que Sombras do Império poderia ter virado um filme nos anos 1980.

A fim de continuar sua imensa lista de lançamentos de Star Wars no Brasil, a Editora Aleph trouxe Sombras do Império para o país em nova edição. O livro foi publicado por aqui nos anos 1990 pela Sci-Fi, mas esgotou-se rapidamente e ficou por anos (algo habitual no Brasil) fora de catálogo. O livro foi o núcleo de todo o projeto multimídia supracitado, ou seja, tudo que foi comercializado em torno da história foi baseado, primeiramente, no romance.

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Antagonizado pelos personagens clássicos Imperador Palpatine, Darth Vader e o sombrio Príncipe Xizor, chefe da organização criminosa Sol Negro, o livro estrela os personagens mais queridos da franquia. Perry foi o primeiro autor a ter autorização de Lucas para escrever uma história que se passa entre os filmes Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca e Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi. Os protagonistas estão determinados a salvar Han Solo das mãos do mercenário Boba Fett, que entregará o pistoleiro mais malandro da galáxia às mãos de Jabba, o Hutt, para quem Solo deve alguns milhares de créditos. Luke Skywalker enfrentou Darth Vader há pouco tempo e finalmente descobriu que ele é Anakin Skywalker, seu pai. Sua primeira missão, portanto, é construir um novo sabre de luz, já que ele perdeu o seu – originalmente do seu próprio pai – na luta. Seguindo as instruções do manual Jedi que Obi-Wan deixou guardado na sua casa em Tattooine, Luke, com determinação e espiritualidade, manufatura a nova arma.

Príncipe Xizor, o vilão da história, é um influente e milionário alienígena que secretamente comanda uma organização criminosa de alcance galático, chamada Sol Negro. Seu objetivo é tirar Darth Vader do caminho e ficar ao lado do Imperador, enriquecendo ainda bem em créditos e poder. O Lorde Sith, por outro lado, está em busca de seu filho para convertê-lo ao lado negro da Força. Enquanto isso, Leia Organa, Lando Calrissian e Chewbacca procuram uma forma de salvar Han, congelado em carbonite. Destaque para a participação de Dash Rendar, personagem criado para o livro que tem a mesma personalidade de Han. O autor tentou preencher o vazio deixado pelo carismático personagem interpretado por Harrison Ford com alguém parecido com ele, o que funcionou, pelo menos parcialmente.

Dash Rendar em arte de Greg e Tim Hildebrandt.
Dash Rendar em arte de Greg e Tim Hildebrandt.

Steve Perry é meticuloso em sua narrativa e conta uma história intrigante. Os personagens clássicos são muito bem caracterizados e, por ser uma das pouquíssimas obras autorizadas por Lucas a se passarem no período mais interessante de toda a mitologia Star Wars, Sombras do Império é um livro obrigatório a fãs da franquia. O autor acrescenta ficção científica neste universo, sem tirar a aventura e as lições morais que os filmes clássicos passaram na época. As jornadas de cada personagem concluem nas posições certas para a continuidade da história, o que é um feito impressionante. Há partes, sim, em que a leitura fica um pouco enfadonha, com detalhes demais, o que não tira o brilho de uma história ímpar no mundo de Star Wars.

O que o livro tem de ruim, portanto? Poucas coisas, mas muito relevantes.

Apesar de bem executada, a história tem um defeito impossível de não ser levado em consideração quando analisada com os filmes. O Príncipe Xizor é líder de uma organização criminosa, um “rei do crime” sancionado pelo Império. Não faz sentido. O Império, como descrito nos filmes, é uma ditadura. Ele tem leis rígidas cujos desrespeitos caem nas mãos exclusivamente do Imperador e de seus soldados, inclusive Darth Vader. Fazer acordo com uma organização criminosa não é cabível ao Imperador, do modo como ele é caracterizado nos filmes. Faria mais sentido se um dos homens de alto escalão do Império fizesse um acordo às escuras com alguém como Xizor, não o Imperador. Tampouco Darth Vader, que, felizmente, enfrenta o alienígena sem dó. Em um jogo pobre para testar a fidelidade de seu aprendiz, o Imperador trata Vader como uma criança, o que descaracteriza os dois personagens e transforma Xizor no “malvado da semana”.

Guri e o Príncipe Xizor em arte de Greg e Tim Hildebrandt.
Guri e o Príncipe Xizor em arte de Greg e Tim Hildebrandt.

Perry teve sorte de conseguir executar sua ideia estapafúrdia muito bem, o que perdoa estas escolhas. Como dito anteriormente, todos os personagens clássicos são bem caracterizados e muito fiéis, e aventura é suficientemente empolgante para prender o leitor do começo ao fim.

O Príncipe Xizor é um personagem muito interessante e, se usado em outra ocasião, teria um lugar no alto escalão de vilões de Star Wars. Descrito como um humanoide réptil com carisma elevado e poder quase infinito, Xizor tem ao seu lado a androide Guri, uma mulher forte, atraente e de racionalidade ímpar. O carisma do vilão é tão grande que ele consegue manipular algumas mentes, conseguindo seduzir Leia Organa com facilidade durante um tempo.

Isto dito, o outro defeito encontrado no livro é editorial. A Aleph acertou a mão em lançar um dos mais famosos (senão o mais famoso) livros de Star Wars. Sombras do Império é um marco no extenso universo expandido e a facilidade de encontrá-lo no mercado nacional era uma obrigatoriedade. Todavia, a pressa para lançar a maior quantidade possível de livros de Star Wars no Brasil até a chegada de Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força está fazendo a Aleph tropeçar em uma coisa básica: revisão gramatical. Como tem acontecido com outros lançamentos da editora, Sombras do Império tem alguns erros de português. Pequenos, mas relevantes. O cuidado com isso precisa ser maior. Em tempos em que Star Wars é a coisa mais procurada pelos fãs da cultura pop, a editora precisa tomar o maior cuidado possível para não cair no desgosto dos fãs.

Capa de Star Wars: Sombras do império, da Editora Aleph. Reprodução.
Capa de Star Wars: Sombras do império, da Editora Aleph. Reprodução.

Isso não muda o fato principal: Sombras do Império é um grande livro e sua disponibilidade no mercado nacional é importante. Uma pena que todos os outros produtos relacionados ao livro sejam difíceis de encontrar no país, mas, felizmente, a Planeta DeAgostini logo lançará os encadernados do quadrinho que complementa a história. Focado em Boba Fett e outros mercenários que querem Han Solo, o quadrinho foi escrito por John Wagner, lendário cocriador do Juiz Dredd.

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