Miller está de volta! Quem ele é e o que é Cavaleiro das Trevas?

Muito antes de O Cavaleiro das Trevas, Frank Miller era jovem e não costumava usar seu típico chapéu. Aliás, muito antes do Batman, no fim da década de 1970, ele estava no Marvel, e quem escrevia histórias do Demolidor eram David Micheline e Roger McKenzie. Miller apenas desenhava. Os autores estavam cumprindo suas obrigações contratuais sem almejar muita coisa com aquele título mas, enquanto isso, o desenhista começava a pensar o quanto seus conhecimentos e suas influências de literatura, conhecimentos de culturas orientais e fanatismo pelo trabalho de Will Eisner poderiam transformar aquele personagem de categoria “Z” em algo novo no mundo dos quadrinhos.

Revolucionar o Demolidor com suas influências de arte oriental, homenagear a o trabalho noir de Will Eisner e retratar a Nova York escura e hedionda em que ele vivia definiram seu trabalho. Estas influências combinadas foram cruciais para o peso que suas histórias com o Batman tiveram. Foi então que Frank Miller começou a ascender, sem demonstrar sinais de queda. O homem estava pronto para revolucionar a arte que escolheu como profissão.

O Jovem Frank Miller com uma pintura do Batman de Bob Kane ao fundo.
O jovem Frank Miller com uma pintura do Batman de Bob Kane ao fundo.

O Cavaleiro das Trevas

Miller entrou para a DC no começo dos anos 1980 com um projeto chamado Ronin. O quadrinho foi fruto de suas pesquisas para entender melhor a mitologia japonesa em termos de clãs, ninjas e samurais, com pitadas de quadrinhos europeus da época. O sucesso deste trabalho abriu portas para que ele trabalhasse mais na editora e o fez criar um argumento para uma história do Batman. Entregue ao então editor-chefe Dick Giordano, este argumento foi aprovado e Dennis O’Neil, maior especialista no personagem contratado pela DC, foi o eleito para editá-lo.

A história todos conhecem. O Cavaleiro das Trevas ainda é vista como a história definitiva do Batman. Entendê-la hoje requer um maior conhecimento dos conflitos sociais e políticos dos Estados Unidos dos anos 1980, é claro, mas ainda é possível apreciar as profundas e multidimensionais caracterizações que Miller deu aos personagens e a seu distópico universo.

Momento clássico de Cavaleiro das Trevas. Arte de Frank Miller e Klaus Janson. cores de Lynn Varley.
Momento clássico de O Cavaleiro das Trevas. Arte de Frank Miller e Klaus Janson. Cores de Lynn Varley.

Há um porém nesta história. Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, foi fundamental para ditar o fechamento da obra de Miller. O autor já sabia que resoluções daria para cada personagem, mas o aparecimento do seminal quadrinho dos britânicos, que desconstruiu o gênero dos super-heróis, mudou tudo. Miller viu que era possível bater na cara dos governos mundiais com sua arte e tratou de fazer as mudanças necessárias para criticar o que achou importante naquela época. Ele teve nada menos que quatro meses entre o lançamento da terceira e da quarta edição de O Cavaleiro das Trevas, tempo suficiente para fazer as adaptações necessárias a fim de passar a mensagem desejada.

O quarto capítulo da obra de Miller explorou mais a revolta do Batman contra o status quo estabelecido pelo governo, satirizando sem dó a situação dos Estados Unidos em pleno governo Ronald Reagan. Claro, é virtualmente impossível saber o quanto Watchmen influenciou O Cavaleiro das Trevas. O próprio Miller não deve se lembrar muito e talvez nem admita, já que ele e Moore possuem visões de mundo muito diferentes. Porém, uma leitura conjuntas das duas obras, com informações sobre o momento de lançamento de cada uma, deixa claro que o trabalho do britânico mudou alguns pensamentos de Miller sobre seu próprio trabalho.

Seja como for, O Cavaleiro das Trevas mostrou, com técnicas artísticas apuradas e inovadoras, como um quadrinho de super-herois poderia ter múltiplos níveis de profundidade e compreensão por parte do leitor.

De volta para o futuro

O Cavaleiro das Trevas é considerada um fruto típico do terror nuclear dos anos 1980, mas ela também retrata um futuro distópico. No começo dos anos 2000, Miller foi convidado pela DC a voltar para este lugar horrível e dar continuidade às histórias que criou. O que o quadrinista não esperava é que a produção desta nova obra fosse afetada por um evento histórico que definiu o século XXI: os atentados de 11 de setembro de 2001. O Cavaleiro das Trevas 2 já tinha passado da fase de concepção – na verdade, a primeira edição foi colocada à venda pouco tempo depois da tragédia.

Capa original de Cavaleiro das Trevas 2 por Frank Miller e Lynn Varley.
Capa original de O Cavaleiro das Trevas 2 por Frank Miller e Lynn Varley.

O início da saga traz de volta algumas das críticas de Miller à mídia, atualizando isto para o mundo moderno tomado por reality shows e pela internet. O desprezo de Miller por tudo isso é claro durante toda a história e ele usa o mesmo recurso que usou na primeira minissérie: utilizar a mídia para fazer o que ele mais gosta como criador deste universo, ou seja, distrair o leitor do que realmente está acontecendo. Além disso, o governo estadunidense é, novamente, alvo da acidez do quadrinista. Os atentados terroristas, portanto, mudaram sua forma de trabalhar a partir da segunda edição, que ainda estava em produção quando eles aconteceram. Nas palavras de Miller:

Eu estava na metade da segunda edição, na parte em que uma bomba cai em Metrópolis e então o 11 de setembro acontece… Foi assustador, fiquei sem reação. Naquele momento tive a certeza de que deveria encontrar uma forma de canalizar estes sentimentos, de responder como artista ao novo mundo criado após os atentados.

Esta reação de Miller fez com que as edições seguintes da minissérie fossem adiadas. Infelizmente, suas principais reações ao ataque não foram tão explícitas na obra. Na verdade, elas ficaram misturadas aos temas que ele queria explorar originalmente na história. Portanto, enquanto o autor deu destino aos personagens da história (o que incluiu quase todo o Universo DC, fazendo com que O Cavaleiro das Trevas 2 pareça uma digna saga blockbuster), sua reação principal ao 11 de Setembro ficou concentrada em uma obra que seria originalmente do Batman e que teria ligações com o universo de O Cavaleiro das Trevas: Holy Terror, Batman!

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Com este quadrinho, a ideia de Miller era fazer com que o Homem-Morcego caçasse Osama Bin Laden, em uma típica propaganda de guerra dos EUA. Assim como o Capitão América socou Hitler em 1940 na revista Captain America Comics #1 de 1940, Miller queria que o Batman acabasse com Bin Laden. Porém, a história passou por tantas mudanças que deixou de ser um conto do Batman. Na verdade, ele só ficou pronta no fim de 2011, quando o terrorista já tinha sido morto, no mesmo ano, pelas forças militares dos Estados Unidos sob comando do presidente Barack Obama. O futuro do Batman de Miller se tornou incerto até que, no fim de 2014, ele oficializou o que poucos esperavam: um terceiro capítulo deste universo.

O que vai acontecer?

Há futuro para tudo isso. Dark Knight III: The Master Race começou a sair hoje nos Estados Unidos. Mais Brian Azzarello e menos Frank Miller, segundo a crítica estadunidense, a minissérie foi o estopim para que o criador deste universo se sentisse empolgado o suficiente para voltar a ele com tudo e prometer Dark Knight IV para um futuro próximo. Bem ou mal de saúde, Miller está longe de parar. Está agindo como um verdadeiro Cavaleiro das Trevas.

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