[Terravista!] A nova Aventura de Fabio Cobiaco

Ahoy, Zeronauta!

A partir de hoje, o Terra Zero dá partida à sua grande jornada pelas grandes entrevistas, singrando pelos sete mares bravios e combatendo os perigos do alto-mar. Em nossa primeira jornada, paramos na Ilha de Santa Catarina e conversamos com nosso primeiro tripulante convidado, o intrépido Fabio Cobiaco. Vencedor de um Prêmio Jabuti por sua obra mais conhecida, o álbum de ficção científica V.I.S.H.N.U. (Cia. nos Quadrinhos), ele caça a bujarrona e iça a vela de estai para uma viagem por sua mais nova obra, Mayo, que será lançada em novembro pela Mino e à qual tivemos acesso exclusivo.

O quadrinista Fabio Cobiaco. Divulgação.
O quadrinista Fabio Cobiaco. Divulgação.

Terra Zero: Primeira coisa. Você está na estrada há tanto tempo e este é o seu primeiro roteiro longo. Desenhar algo que é criação sua é uma experiência desafiadora? 

Fabio Cobiaco: No ponto onde estou, desenhar já ficou fácil como escrever. Eu praticamente escrevo meus desenhos. Mas escrever, literalmente, o roteiro, é a experiência mais desafiadora que eu já enfrentei, ainda mais quando o assunto é aventura. Algo que não dá pra falsear.

A pergunta é óbvia: você, quando escreve, já pensa na arte? São coisas isoladas?

Sim, basicamente. Mas não é um processo simples, nunca.  Eu prefiro pensar num storyline e desenvolvo a arte sequencial toda. Enquanto isso, vou pensando nos diálogos, frases isoladas, referências etc. Depois, eu incluo o texto nos balões seguindo uma métrica, como se fosse um metrônomo. Tanto a arte quanto o texto ajudam a marcar o tempo da leitura. Mas isso é sempre um aprendizado constante, né?

Capa de Mayo (Mino), de Fabio Cobiaco.
Capa de Mayo (Mino), de Fabio Cobiaco.

Certamente. Realmente, a cadência, o ritmo, são notórios na leitura de Mayo.

Estudei quadro-a-quadro as tiras do [Milton] Caniff (Terry e os Piratas) e do [Hugo] Pratt (Corto Maltese). Descobri um mundo novo nessa experiência de escrever. No caso de Mayo, teve também um longo período de pesquisas. Foi difícil não querer jogar tudo o que quero escrever sobre a Mayo logo no primeiro livro. Tem muito material e eu calculo uns sete livros para contar tudo o que eu quero.

Caniff e Pratt são duas referências muito pontuais, aliás, visto que os trabalhos principais dos dois envolvem piratas, assim como Mayo.

Sim! E eu incluo ai mais dois caras que também me supriram de informações, o Hal Foster (Tarzan) e o Roy Crane (Capitão César). O Crane é o pai da aventura nas tiras diárias. O Caniff copiava muito ele.

Mamar nas tetas dos mestres, muito bom :)

Sim! Eu resolvi estudar os mestres MESMO! Foi uma necessidade.
Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.

Mayo possui uma estrutura completamente calcada nas tiras diárias de aventura, às quais estão sumindo quase totalmente dos jornais brasileiros. No que essa estrutura favorece a sua narrativa?

Quando eu estava buscando um formato para contar minhas próprias histórias, encontrei nas tiras o que eu mais gostei. E fiquei surpreso! Nunca imaginei que faria um livro nesse formato um dia. No caso da arte, senti que tudo fica mais cinematografico numa tira, muitas pans. Os cortes ficam ótimos. E eu tenho, desde o início, planos para transformar Mayo em filme, não no esquema caça-níqueis. Quero fazer meu filme praticamente sozinho. Para isso, estou estudando um método novo que estão usando nos animes, no qual os animadores animam sequências inteiras em vez de usar intercaladores. Recentemente fui contratado por um estúdio de animação, para o qual já fiz direção de arte num longa, e é ali que eu vou desenvolver esse projeto. Voltando à tira, percebi que, nos próximos livros, vou ter de usar originais maiores. Achei que a arte ficou muito caricatural e abstrata. Queria explorar mais os cenários.

Qual o tamanho de prancha você utilizou para os originais?

13×40 cm. Um pouco maiores que as do Pratt, que usava 10×40. Isso tem muita influencia no resultado final. Era minha intenção homenagear esses caras todos também, né? As tiras foram perfeitas para deixar clara a homenagem.

Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.

À medida em que fui lendo, percebi referência pessoais, geográficas, da sua vida, utilizadas a favor da história de Mayo. Isso foi proposital?

Foi, sim! Decidi usar lugares que eu conheço pessoalmnente para as ambientações. E foi lendo uma trilogia, Terra Brasilis, do Peninha [Eduardo Bueno], que as ideias me vieram primeiro. A história dos primeiros 100, 200 anos do Brasil, se passou, basicamente, nesses lugares que eu, coincidentemente, conheço e decidi aproveitar. A Pedra da Tartaruga, que fica nos montes Quiriri, perto de Rio Negrinho, aqui em Santa Catarina, eu ainda não visitei pessoalmente, mas pretendo ir e já tenho amigos que têm casa lá perto pra me acompanhar no trekking. Vai ser legal!

Aqui em Floripa, especialmente nesse ponto do norte onde moro, rolaram muitas tretas com piratas nessa época. Era o ponto preferido deles para esconder tesouros. Vários sitios arqueológicos ficam perto de casa e tive, através do mestre Henrique [Luiz Pereira Oliveira], da UFSC, acesso a documentos com relatos verídicos, extraidos de diários de bordo dos capitães que passaram por aqui em várias épocas desse período.
Agora, a personagem em si. Mayo tem uma riqueza de construção e, ao mesmo tempo, esse mistério que faz com que queiramos saber mais sobre ela. Como foi construir a personagem? Ela foi o ponto de partida da história?

Não. Era para ser um cara, em vez de uma mulher.

Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.

O que te fez mudar de ideia?

Eu estava, no começo, tentando fazer um novo O Conde de Monte Cristo, uma história que eu adoro!!! A história inteira da Mayo toca em três pontos e, na parte em que comecei a pesquisar um deles, tive a ideia de fazer uma mulher pirata e, rapidamente, descobri que rolaram vááárias mulheres piratas muito famosas e que, até hoje, tem suas histórias conhecidas. Havia, no Caribe, uma ilha onde só mulheres piratas desembarcavam.

Que massa!

Cara, durante minhas pesquisas eu fiquei sabendo de muitas coisas fantásticas, nesse nível e mais!

Me diz: teu jogo de luz e sombra evoluiu muito de V.I.S.H.N.U., pelo qual você levou um Jabuti de ilustração, para Mayo. Tanto é que a iluminação é parte decisiva desta nova narrativa. Como você vê essa evolução técnica?

Cada trabalho longo que faco eu tento transformar numa experiencia diferente. Na primeira HQ longa, Down the River, do álbum Bang Bang (Terra Major), eu quis trabalhar os cenarios de forma realista. Me fodi procurando referência de trens e tudo mais, e fiz. Descobri que desenhar as coisas realisticamente não dá bons resultados na página. Aí, no V.I.S.H.N.U., tentei trabalhar mais a caricaturização dos desenhos, trabalhar em como enganar o leitor de forma mais eficiente. Eu sempre falho miseravelmente, mas estou aprendendo, hahaha!

Hahahahaha!

E, em Mayo, eu quis trabalhar a parte de roteiros e descobrir um jeito meu de desenhar, que seja intuitivo e não fabricado pra ser meu estilo. O resultado que eu buscava era uma espécie de Van Gogh das HQs de aventura. E me senti mais realizado com este trabalho do que com o V.I.S.H.N.U., por exemplo.

Ah, é? Por quê? Pergunto porque, com V.I.S.H.N.U., você foi reconhecido nacionalmente.

Em V.I.S.H.N.U., eu estava a cargo de uma encomenda. Era para ser uma graphic novel que serviria de trampolim para um contrato de cinema. Dentro disso, eu tentei fazer o melhor que pude. Já em Mayo eu tremia de emoção cada vez que me sentava de frente pra página. Era tudo meu! Pude fazer o que sempre desejei!

Páginas internas de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Páginas internas de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Ó, eu sei que o Lauro tá quietinho aqui no canto escutando a gente, hehehe! A próxima pergunta é pra você, mas quero botar ele na resposta se ele estiver mesmo aí: Sei que você é um insatisfeito com seu próprio trabalho. Em V.I.S.H.N.U. mesmo: eu vi as suas primeiras pranchas, lá no começo, e sei que você mudou tudo, a ponto de descartar quase meio álbum pra mudar o formato das pranchas a favor da história. A pergunta é: isso aconteceu com Mayo, essa insatisfação?

Não. Simplesmente porque não tive tempo. Aliás, isso foi ótimo, porque eu queria justamente ter mais ou menos o mesmo tempo que tinham o Pratt ou o Caniff. Descontando as horas que eu trabalhava em outras coisas ou cuidava da casa e dos meus bichos, o tempo que sobrou foi quase o mesmo. Com a Mayo nao teve insatisfação alguma. Eu estava atravessando os piores momentos da minha vida até hoje e, no meio desse caos, a Mayo surgiu justamente pra me ajudar a sobreviver. Foram varias coincidências entre a história e minha vida pessoal.

Lauro de Luna, editor da Mino: Na verdade, teve um único momento onde o Cobiaco cogitou uma finalização digital, que teria encaminhado o livro para outro caminho. Mais foi só uma coisa passageira. Depois que o formato foi escolhido foi tudo muito rápido.

Cobiaco: Durante a produção, eu queria muito ter grana pra comprar um pincel novo. Foi a única coisa que achei ruim durante a produção, [a falta de] um Winsor & Newton serie 7 número 3 novo.

Lauro: Você devia ter pedido. A gente comprou pincéis novos para o Pedro [Cobiaco, filho de Fabio] no meio da Ilha [do Tesouro, novo álbum de Pedro].

Olhaí! A Porta da Esperança no meio da entrevista!

Lauro: Hahahaha! Cara, eu não sei eu fico de cara como esse livro tem um parentesco com a escola argentina, e nem sei se foi uma coisa consciente.

Ah, sim! Esse livro é muito [Alberto] Breccia, não acham? Você não citou ele em momento algum, mas foi o primeiríssimo impacto que eu tive.

Lauro: Não só o Breccia, mas vejo muito o [José] Muñoz também e acaba que acabo achando o Pratt muito mais pertencente à escola argentina do que à europeia. Isso tava na sua cabeça? E posso fazer mais uma pergunta? Como é que você vê a questão de quadrinho de gênero no Brasil?

Cobiaco: No ultimo FIQ tive o prazer de una charla com o [Eduardo] Risso e falei pra ele o seguinte: “há três escolas: na Ásia, o manga japonês; na Europa, a BD; e na América, a escola argentina, não a norte-americana”. E, quanto ao Breccia, ele é uma influência constante, mas que ainda não tive o prazer de estudar mais atentamente ou profundamente, como o Pratt, de quem li todas as biografias, menos uma, que foi escrita recentemente. Saber a biografia dos caras é importante pra mim. Semana passada li a do [Alex] Raymond. Manos, cada desenho absurdo! E ele era um figuraça! Li a do Hal Foster também.

Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.
E a questão de quadrinho de gênero no Brasil? Você já enveredou pelo faroeste, pela FC e, agora, histórias de aventura e de piratas. Como você vê essa questão?

Aqui, sinto as fronteiras menos fortificadas, como é na Europa, por exemplo. Todo mundo meio que passeia por aí sem a preocupação de se estabelecer com gêneros. No meu caso, foi uma decisão muito clara que tomei, quando ainda quaria ser o próximo Angeli. Assistia às entrevistas do cara tentando achar pistas de onde ele queria chegar, e eu tentaria chegar antes, hahahahaha! Como eu era patético! Eu não tinha substância, jamais poderia seguir uma linha de humor com a mesma propriedade do Angeli.

Hahahah! Não patético, mas era outra época, outra referência.

Aí, percebi que ele sempre repetia nas entrevistas que o quadrinho do tipo “grandes sagas” ele nunca fez e ele nunca faria, pois era um gênero que não fazia parte do mundo dele. Não havia discurso para ele num gênero desses. No momento seguinte, eu conheci o Flavio Colin pessoalmente e me encontrei.

Lauro: Mas você não acha que falta quadrinho de gênero de qualidade? Não acha que tem um gap aí?
Cobiaco:  Não sei, Lauro.

Lauro: O cara sai quase sempre dos super-heróis e, quando cai no mercado nacional, não acaba perdido pela falta de bons quadrinhos de gênero ?

Cobiaco: Eu realmente me centrei, nos últimos dez anos, em ler os mestres do passado. Não sei se posso emitir uma opiniao decente sobre isso assim, de forma abrangente. O que eu tenho visto é um aumento de gêneros e o aparecimento de uma geração muitissíssíssíssímo foda de artistas e escritores. Pessoalmente, acho que os autores devem passear pelos gêneros diferentes e, com mais tempo de estrada, escolher um para desenvolver uma obra. É isso o que eu estou buscando.
Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Página interna de Mayo, de Fabio Cobiaco.
Tem algo muito importante que é preciso falar sobre Mayo: sua protagonista feminina JAMAIS necessita utilizar sua “sensualidade”, seu “sei lá o quê” feminino, pra progredir na história. É uma personagem feminina e fortíssima, sem ser clichê.

Cobiaco: Ahh, sim! Isso é uma escolha muito pensada. Ela é bissexual, vão rolar umas paradas durante as próximas histórias. Eu queria que, no V.I.S.H.N.U., o Wilczensky fosse gay. Era óbvio que ele era gay, assim como para mim ficou obvio que a Mayo era bissexual.

Gente, é isso. Querem mandar um recado final pros leitores do Terra Zero? Os quatro ventos são de vocês!

Cobiaco: Keep on trucking!

Lauro: Eu amo o Cobiaco. Espero de verdade que Mayo coloque ele no seu devido lugar de destaque.

Cobiaco: Lauro, agradeço demais por esse esforco, manu! Obrigado! E, Delfin, obrigado a você também, mano. A caminhada é longa, né? Tenho sorte de ter gente como vocês dois pra dar um alento. Diga aos leitores do Terra Zero que esse livro é apenas o começo!

Fabio e Pedro Cobiaco, pai e filho, lançarão seus álbuns novos, Mayo e As aventuras da Ilha do Tesouro, no dia 7 de novembro, às 15 horas, na Gibiteria, em São Paulo.

 

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