Arte promocional de Dark Knight III: The Master Race.

Frank Miller, sobre DKIII: “Batman vai se tornar um revolucionário”

O convidado de honra da Comic Con Experience 2015, Frank Miller, deu uma entrevista bombástica para o principal jornal francês, o Le Monde, devido à sua presença na capital francesa como convidado da Comic-Con de Paris. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Damien Leloup, ele foi incisivo, provocador e revelou, pela primeira vez, detalhes sobre O Cavaleiro das Trevas 3: A Raça Superior.

Frank Miller na Comic-Con de Paris, no último dia 25 de outubro. Foto: Coletivo Faust Faward
Frank Miller na Comic-Con de Paris, no último dia 25 de outubro. Foto: Coletivo Faust Faward

Questionado sobre o motivo da terceira parte de O Cavaleiro das Trevas ter vindo apenas quatorze anos depois do segundo episódio (que, lembrando, surgiu quinze anos após a minissérie original, de 1986), Miller disse que teve uma ideia nova e que esperou com impaciência seu retorno ao Batman, para revisitar o personagem, dizendo que esta é uma das vantagens dos heróis clássicos: sempre se pode voltar a eles e transformá-los. Especificamente sobre a obra que será publicada em algumas semanas, o autor revela, enfim, sobre o que DKIII se trata:

A ideia inicial é que o Batman será sempre o grande protagonista, mas que o Superman terá um papel de grande destaque. A trama girará em torno da libertação da cidade de Kandor, a capital do planeta Krypton, onde o Superman nasceu. Na história, Batman liberta um milhão de super-homens em potencial. Os heróis mascarados e o Superman devem, agora, se reunir para impedir a conquista da Terra.

Capa de DK III: The Master Race por Klaus Janson.
Capa de DK III: The Master Race por Klaus Janson.

Leloup é direto ao perguntar sobre o título da obra, que remete ao conceito nazista de pureza racial (como o Terra Zero detectou de imediato, no anúncio da obra), lembrando a Frank Miller sobre as acusações de racismo (em Os 300 de Esparta e Holy Terror: Terror Sagrado), de misoginia (em Sin City) e sobre ser qualificado como “criptofascista”. O autor disse que não faria bem o seu trabalho se ele não fosse provocador: “Meu trabalho é o de fazer as pessoas reagirem. Eu vejo as reações coléricas; quanto mais os críticos ficarem furiosos, mais feliz eu vou ficar. Isso me dá a sensação de que consegui chegar a algum lugar”. E ressalta, sobre a dureza crescente de seu Homem-Morcego:

Não é a força física que define o Batman, nem a sua capacidade de encaixar seus golpes, mas o fato de que ele é o homem mais inteligente do mundo. No passado, quando ele enfrentou o Superman, ele ganhou. Em A Raça Superior, ele terá de enfrentar milhões de pessoas tão fortes como o Superman. Mas, se eu tivesse de apostar, eu apostaria no Batman.

Reforçando a ideia de que o panteão de heróis da DC terá o papel de coadjuvante de luxo em DKIII, Miller insiste que, mesmo tendo um exército a seu lado, a inteligência do Batman será a chave de sua força. Neste ponto, o autor é questionado sobre seus princípios morais e em como ele os aplica, em contraponto aos princípios morais do Batman, que não mata. O escritor responde, após ponderar:

É fácil seguir regras de conduta e aplicar um código de honra. Difícil é desenvolver essas regras, construir esse código. Esta é a parte realmente difícil e é trabalho para toda uma vida, para mim e para os meus heróis.

Capa de DK III: The Master Race por Eduardo Risso.
Capa de DK III: The Master Race por Eduardo Risso.

Frank Miller também explicou o seu silêncio de quatro anos em blogs e mídias sociais, revelando estar trabalhando em diversos projetos diferentes, entre eles DKIII, mas, também, uma história no universo de Sin City intitulada Home Front (algo como Fronte Interno, termo que, em inglês, designa os esforços de suporte da população civil de um país para com seus conterrâneos envolvidos em uma guerra), que será uma história de amor entre um agente federal dos EUA e a chefe de um ramo da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial.

Dizendo gostar muito da relação direta com seus fãs e, também, de uma boa briga, o autor os convida a irem atrás dele (no sentido mais provocativo possível). Então, o repórter do diário francês questiona se os meios de comunicação de massa são perigosos, devido ao seu uso extensivo nos capítulos anteriores de O Cavaleiro das Trevas. Miller acha que não, mas que, se fosse hoje em dia, ele trataria esse aspecto de um modo bem diferente:

O modo como descrevo o mecanismo e o papel da televisão em O Cavaleiro das Trevas é imaturo. A televisão, como todas as outras formas de comunicação, pode ser utilizada de um modo bom: ela não faz mais do que difundir imagens para o público, que são abertas à interpretação.

Imagem promocional, por Andy Kubert e Klaus Janson
Imagem promocional, por Andy Kubert e Klaus Janson

Lembrado de que sua idade ultrapassa, hoje, a de Bruce Wayne em O Cavaleiro das Trevas (o autor tem 58 anos), Miller é perguntado se ele mudaria alguma coisa em relação à sua visão do envelhecimento do Batman. Taxativo, diz que não mudaria nada na obra original, mas que sua abordagem da questão mudará em DKIII, por estar obcecado em como os personagens estariam fisicamente, afetados por anos de combates, bem como sua própria visão do Batman:

Agora que sou um cinquentão, percebo que o impacto da idade no físico de um personagem, de longe, não é o que mais importa à medida em que se envelhece. Ter cinquenta é muito diferente do que se imagina quando se tem trinta! E há muitas coisas que chegam com a idade, como a maturidade e a experiência, e são ainda mais coisas que mudam com o Batman com o passar do tempo. Em A Raça Superior, ninguém poderá enganá-lo.

Em meu retrospecto com o Batman, tem havido diversas fases. Quando o descobri, ainda criança, ele era um pai rigoroso, uma figura paterna resoluta. Ele permaneceu assim depois, mas comecei a ver nele aspectos mais políticos, mais filosóficos.

Em paralelo, o conteúdo dos seus quadrinhos também evoluiu: de um vigilante autoproclamado e salvagem, passou a uma figura de autoridade, com chancela policial. Quando o escrevi, ele se tornou um anarquista e, em A Raça Superior, ele vai se tornar uma figura verdadeiramente revolucionária.

Capa variante de Dark Knight III por Walt Simonson.
Capa variante de Dark Knight III por Walt Simonson.

Questionado sobre o anarquismo do Batman parecer muito particular, numa análise de O Cavaleiro das Trevas e DKII, Miller defende seu ponto:

Se você é um anarquista, deve considerar que a ordem existente é corrupta e destruí-la é a primeira coisa que você quer fazer — e, para isso, não importam os meios utilizados. A luta irlandesa pela independência, bem como a resistência francesa, nos mostraram que pode ser necessário tomar as ruas para se levantar contra a tirania. Às vezes, o único modo de garantir que o mundo faça sentido é destruir a ordem existente.

Leloup, então, pergunta a Miller se estamos à beira de uma revolução, no que Miller ameniza o que acabara de dizer: “Não. A Raça Superior é uma ficção. Mas prometo que será uma boa leitura.”

DKIII chega ao mercado impresso e digital dos EUA no dia 25 de novembro de 2015. A Comic Con Experience acontece logo depois, com a presença de Frank Miller e diversos convidados de peso, entre 3 e 6 de dezembro deste ano.

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