[Editorial] Não há mais o que dizer sobre Mauricio

Hoje, Mauricio de Sousa completa 80 anos de idade. Muitas homenagens estão sendo feitas durante todo o ano, culminando no dia de hoje. Toda a cultura pop do Brasil e alguns setores da cultura formal, hoje, se renderam ao criador de Bidu, Franjinha, Mônica, Cebolinha e dezenas de outros personagens que marcam a vida dos brasileiros desde os anos 1960.

Mônica Toy, por Bruno Honda, na homenagem aos 80 anos de Mauricio de Sousa
Mônica Toy, por Bruno Honda, na homenagem aos 80 anos de Mauricio de Sousa

Hoje em dia, além das diversas fases por que a Turma da Mônica clássica já passou, encontramos o pessoal do Bairro do Limoeiro em diversas releituras, desde as comerciais, como a versão Toy, até as mais pessoais, encarnadas nas Graphic MSP e nos livros da série MSP 50/Ouro da Casa. Produtos, parques, ideias. Projetos, fracassos, sucessos. Nestes 80 anos, muito já se disse sobre toda a obra do maior quadrinista brasileiro de todos os tempos. Com o resgate histórico que é cuidadosamente feito de uma década para cá, talvez tudo mesmo já tenha sido dito.

Então, o que resta dizer neste editorial? Ser laudatório seria justo e, também, mais do mesmo. Ataques gratuitos a eventuais falhas que ainda possam existir em sua trajetória seria maldoso, injusto e muito impertinente. Mas há, sim, algo a ser dito nestes 80 anos. Algo importante, que vem de uma constatação da vida.

Mauricio de Sousa é o passado de sucesso do quadrinho brasileiro, o presente empreendedor e renovado da cena crescente da HQ nacional e, certamente, o caminho futuro pelo qual todo quadrinista almejará trilhar. Mas o fato é que nosso criador tem 80 anos agora e, infelizmente, ele não vai estar para sempre conosco.

Vejam bem, aqui não há maledicência. Se Mauricio chegar aos 120 anos de idade (nunca duvide da saúde dos bons!) em plena atividade, com o bom humor e a visão que hoje lhe é peculiar, o Brasil só tem a agradecer. Mas a grande questão, de verdade, é: o que será do mercado brasileiro de quadrinhos quando, um dia, Mauricio não estiver entre nós?

A mesma pergunta é feita quando falamos sobre uma eventual saída de cena, por quaisquer motivos, de nomes muito marcantes em um cenário. É assim, por exemplo, com Silvio Santos e sua cada vez mais próxima aposentadoria dos holofotes televisivos. Mas talvez justamente no Homem do Baú esteja a resposta: afinal, há décadas, vemos ele preparando tanto substitutos, como Augusto Liberato e Celso Portiolli, como algumas de suas filhas para que possam assumir o negócio da família.

Aí entra uma questão que é tão cara aos fãs de quadrinhos em obras decanas, como os universos super-heroicos, e que agora é transportada para a realidade: a questão do legado. Pois a obra de Mauricio certamente continuará. Quem tomará para si a inspiração, a criação, a bandeira da obra do quadrinista? Quem será inspirado a ponto de fazer com que seu legado tenha não apenas sequência, mas também consequências que repercutam no mercado como um todo? Principalmente, quem zelará para que tudo o que aconteceu até aqui, uma das mais bonitas histórias de sucesso do empresariado brasileiro, não seja perdido justamente por uma eventual negligência contra este legado? Nada disso pode ser perdido, dessa conquista enorme da cultura nacional.

O mercado brasileiro de HQs, hoje, tem dependência e interdependência do que é produzido pela MSP. O que questionamos é: como pode ser este futuro? E esta pergunta deve ser feita agora, enquanto é tempo, enquanto Mauricio está entre nós, ampliando o diálogo, abrindo o mercado a criadores que se inspiraram por sua obra, projetando um futuro também comercial para uma cena que, hoje, é cada vez mais independente, mas que precisa tomar de assalto novamente as bancas, conquistar gerações, corações e mentes.

Porque, quando Mauricio não estiver mais aqui, ele precisa continuar vivo em cada profissional que ame os quadrinhos no Brasil, em cada leitor que entenda a paixão, a diversão e a alegria de ler histórias coloridas, em cada sorriso de criança que o futuro não pode perder.

Estaremos sempre com você, Mauricio.

 

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