[Do Contra] Planetary, de Warren Ellis e John Cassaday

Bem-vindos de volta, senhoras e senhores de todos os gêneros! Voltamos com Do Contra, sua dose de visões completamente avessas ao que você espera ler, de seja lá o que for, da indústria dos quadrinhos. Na coluna deste redator, lembramos que obras ruins têm partes boas — e que, obviamente, HQs consagradas possuem, sim, defeitos. É desta segunda parte que vamos falar desta vez, ao contrário do que fizemos há algum tempo atrás (tá, três meses é um tempão) com Warrior.

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Planetary, com roteiros de Warren Ellis (Authority, Stormwatch, Karnak) e desenhos de John Cassaday (Star Wars), é, provavelmente, a melhor obra do universo da editora WildStorm, que já havia produzido HQs como Gen 13, de Jim Lee, e revelado, além de Ellis, autores como Mark Millar e, nesta série de 27 edições, o próprio Cassaday. A saga dos superarqueólogos da organização que dá nome à revista teve atrasos no final de sua publicação, mas tudo foi compensado com uma grande narrativa, toneladas de boas referências da cultura pop e ação cinematográfica sem apelar ao massaveísmo.

“Então, Grisa, porque diabos você teria algo pra falar de errado em relação à Planetary? É um quadrinho muito foda!”

Sim, eu concordo. Ellis e Cassaday provavelmente executaram, com a colorista Laura Martin, uma das melhores séries fechadas da década passada. Mas prestem atenção, pessoas: ela não é perfeita. A frase parece pedante e babaca, mas senso crítico, para o bem ou para o mal, é a essência deste espaço. Em frente!

Não-Surpresas das Referências

Sim, algumas das referências contidas em Planetary acabam estragando a intenção de dar um ar de mistério à trama. Isso se aplica especialmente às habilidades do quarteto de vilões — inclusive utilizando um numeral 4 como forma de identificar os arquivos deles na Organização Planetary —, mas não somente a eles.

lanterna

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A auto-referência de Ellis, no número no qual Elijah Snow, Jakita Wagner e o Baterista vão à Inglaterra, parece pedante nas comparações que faz entre seus personagens e os cânones consagrados. No caso, ele coloca a aparência de seu Spider Jerusalem, o jornalista protagonista de Transmetropolitan (Helix/Vertigo), como uma espécie de novo alter ego para o que parece ser o John Constantine dessa Terra, que forjou a própria morte.

Fatos Desnecessários

É interessante ver como se misturam referências à Marvel, DC, outros quadrinhos, filmes, livros pulp (ou não), entre outras obras culturais; entretanto, há momentos nas quais algumas delas parecem jogadas. Ou pior: desperdiçadas.

cavaleiro

leather

Talvez o melhor exemplo esteja em William Leather, um dos quatro vilões. Ao ser capturado, ele traça sua origem, contando a história de seu avô, que teria sido o equivalente do Cavaleiro Solitário no Velho Oeste do universo WildStorm. Entretanto, ele no final nem tem parentesco direto com a linhagem lendária, não sendo um dos espíritos do século XX, como Snow ou Jenny Sparks (personagem de Stormwatch e Authority que aparece no crossover Planetary/Authority). Parece que o trecho poderia ter sido minimizado, já que tomou quase uma edição inteira da revista.

Isto por si não seria exatamente um defeito e, sim, uma escolha do autor em dar um pouco mais de estofo para embasar as escolhas de terminado personagem. Entretanto, os outros três não tem tanto destaque em histórias separadas de origem. Assim, este ponto parece atentar contra a narrativa cinematográfica que Ellis impõe ao longo das 27 edições de Planetary.

A Copiada Cena do Bar Atômico

Eu não achava que esta era uma sacada ruim: ao se encontrar com um agente secreto em uma localidade distante,  Elijah Snow fala com ele sobre o fato de as almas serem campos eletromagnéticos e daquele lugar ser um ponto físico no qual quem morre não encontra reencarnação, etc.

bar planetaryAté aí tudo bem. Mas qual não é a reação deste redator quando, ao começar a ler os volumes já lançados no Brasil de Stormwatch, desenhados por Tom Raney e Bryan Hitch, cerca de três a quatro anos antes de Planetary, se depara com a seguinte cena:

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Familiar? Pois então… Aí fica difícil defender. Não é a parte de repetir o conceito — porque há mais de uma referência a outras obras de Ellis para a WildStorm durante a série. O problema está na repetição de elementos nas mesma cenas: um bar; a explicação esmiuçada; isso ser usado como uma espécie de período de relaxamento para os personagens presentes, ao menos em princípio; etc.

entre 3 e final

Ufa, essa foi difícil. Mas este redator precisava. É uma das minhas HQs favoritas, e olha que só a li quando saiu completa no Brasil, pela Panini (a Pixel quase chegou ao fim, mas o último número não havia saído ainda nem nos EUA), recentemente. Representa um exercício importante, e que, pra ser sincero, deveria ser feito por todos: pra vocês gostarem, precisa ser perfeito? Precisa ser irretocável? Se nem mesmo nosso patrocinador, Grant Morrison, o é, por que qualquer outra obra de arte sequencial, de quaisquer outros realizadores, deveria ser um lixo?

Isso lembra do que aconteceu semana passada, quando o Phelipe Pellegrino, nosso conhecido Lib, publicou uma belíssima matéria sobre o artista Sávio Christi. Eu me permito desviar levemente da pauta. Vi, sim, comentários negativos a respeito do nosso enfoque, porque, devido à qualidade do trabalho dele, não seria digno do título de artista.

Sendo esta uma coluna, e como vocês me criticarão por falar de Planetary de qualquer forma, digo que pelo menos Sávio tem algo a ser criticado. Publiquem. Façam melhor. Mandem seus links para o Terra Zero. Queremos incentivar todos que acreditam nesta mídia para levar suas narrativas à frente.

Se vocês chegaram até aqui, parabéns. Vocês entenderam, afinal, que existem coisas bizarras no mundo, como esta opinião. Coisas estranhas, neste mundo estranho. Vamos mantê-lo assim.

Será que um dia ele aparece aqui Podem apostar que sim. Ou não.
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