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HQ Mix 2015: Campanha gera reações na internet

HqMix2015
Escrito por Delfin

Ontem (3), o quadrinho brasileiro foi tomado de assalto pela polêmica envolvendo a campanha de divulgação da entrega do Troféu HQ Mix 2015. Os memes que a compuseram, de gosto duvidoso e de baixo apuro gráfico, provocaram reações imediatas entre os profissionais do mercado brasileiro de quadrinhos, em sua grande maioria condenando as peças, que foram retiradas do ar após algumas horas de exibição.

Reprodução do post de campanha (já removido) do HQ Mix 2015, com imagem da modelo Renata Molinaro.

Reprodução do post de campanha (já removido) do HQ Mix 2015, com imagem da modelo Renata Molinaro.

A primeira reação veio em grupos fechados do Facebook, como Mulheres em Quadrinhos. Mas a primeira declaração pública veio de Aninha Costa, sócia da loja paulistana especializada em quadrinhos A Gibiteria. Em post aberto e dirigido aos organizadores do HQ Mix, ela critica a criação e execução da campanha, explanando que isso denigre a imagem do prêmio. Mas, também, lembra a todos sobre o debate sobre a inclusão e a diversidade nos quadrinhos, que ocorre, incisivamente, em diversos países, inclusive o Brasil:

Agora, vocês realmente acham de bom tom, em um ano em que há tanta movimentação feminista dentro do universo dos quadrinhos brasileiros e com tantas reivindicações sendo feitas pelas mulheres do nosso meio, fazer uma “peça” objetificando o corpo feminino desta forma?

A livreira não ficou sozinha na postura crítica. Logo, outras vozes surgiram. Uma delas foi a de Pedro Cobiaco, premiado no ano passado no HQ Mix, na categoria Novo Talento – Roteirista. O jovem artista fez o seguinte comentário, sem medir palavras, sobre a peça que se vale da imagem da modelo Renata Molinaro:

Um desserviço total, um ato nocivo, no meio de uma campanha ridícula que não faz nada se não desmerecer um movimento importante que é o feminismo e também a própria cena de quadrinhos brasileira.

Pedro também não poupou críticas ao próprio lauréu: “O HQ Mix já vem recebendo críticas constantes à diversos aspectos, esses mais referentes à própria validade do troféu como incentivo e como método de julgamento, e isso vem quase que como a gota d’água pra um desabamento completo de qualquer possível moral ou notoriedade do prêmio”.

Outra imagem polêmica que desagradou um grande número de profissionais do quadrinho nacional, na campanha do HQ Mix 2015 (já deletada).

Outra imagem polêmica que desagradou um grande número de profissionais do quadrinho nacional, na campanha do HQ Mix 2015 (já deletada).

Outra das vozes críticas foi a de Janaina de Luna Larsen, sócia da Editora Mino. Em texto publicado no perfil da editora, ela põe o dedo da ferida de um problema ainda maior: o da inserção feminina no mercado dos quadrinhos, que, por décadas, foi completamente dominado pelos homens no Brasil. E também o faz de forma categórica:

O meio dos quadrinhos é predominantemente masculino. Nós, mulheres que escolhemos trabalhar com coisas masculinas, sabemos que vamos aguentar uma carga ainda maior de preconceito. Por isso, foi muito triste descobrir esta tarde que um prêmio respeitado como o HQMix tenha feito uma campanha tão insensível e de mau gosto. O argumento de que “era uma piada” ou que “não viram problema nisso” me parece ainda mais absurdo. Como um prêmio tão importante pode estar tão apartado do meio em que deveria estar inserido? Será que passaram despercebidas todas as manifestações, debates e avanços que tivemos na questão feminina? Em que planeta vive e de que maneira pretende continuar representativo se não dialoga com as pessoas que deveria contemplar? Foi só uma piada? Mas como um prêmio que trata de humor pode não entender o poder e a profundidade que uma piada pode ter, e o quanto ela serve para perpetuar e reforçar estereótipos? Ouvi um quadrinista falar que não era nada de mais, que era só uma imagem. Uma pessoa que se propõe a trabalhar com quadrinhos e que não sabe o poder de uma imagem realmente está no ramo errado.

Tomando para si a voz de toda uma categoria, a editora-chefe da Mino é decisiva: “Não estamos pedindo respeito, aqui nós exigimos”.

Voz ativa na luta pelo espaço das mulheres no quadrinho nacional, Ana Luiza Koehler foi procurada pela equipe do Terra Zero para dar uma declaração sobre a campanha equivocada do HQ Mix. A autora de Beco do Rosário é afirmativa ao expor a depreciação feminina no mercado de HQs no Brasil e os novos caminhos que estão, aos poucos, sendo conquistados, ainda que nem todos consigam perceber:

Posso dizer que a vivência das mulheres no meio dos quadrinhos, de modo geral, sempre foi de muito machismo. Somos obrigadas a conviver com piadas machistas, com imagens que nos reduzem a objetos sexuais praticamente o tempo inteiro. Só que as coisas estão mudando, e nós não vamos mais tolerar esse tipo de visão, pois não somos obrigadas a compactuar com a nossa própria humilhação. A campanha do prêmio notoriamente mostrou estar desconectada dessa realidade que abarca uma parcela crescente de seu público, e o resultado foi o esperado.

fiq-convidados

Mas não apenas quadrinistas se manifestaram: Afonso Andrade, coordenador do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ), declarou o seguinte, via Facebook, em nome do evento que representa:

O FIQ repudia este tipo de campanha, que não condiz com a tradição e importância que o HQMIX tem para com o mercado e com o atual momento dos quadrinhos no Brasil. Estamos trabalhando pelo respeito à diversidade e à maior representatividade. Somos contra todo e qualquer tipo de sexismo, racismo, homofobia, transfobia e qualquer outra forma de preconceito. Esperamos que a organização [do HQ Mix] atente para os fatos e a repercussão gerada, e mude seu posicionamento.

Do mesmo modo, a ComicCON RS também se manifestou oficialmente, na fanpage do evento gaúcho. “Aqui na ComicCON RS não compactuamos com a mesma visão de humor usada na campanha e nos surpreendemos quando soubemos da polêmica”, afirma a direção do eveto. Que também enfatiza: “Acreditamos que isso [a repercussão] pode ser um fator importante para que a representatividade feminina nas categorias do prêmio aumente nas próximas edições”.

Tamanha foi a indignação de diversos profissionais e entidades ligadas aos quadrinhos que estes decidiram publicar, conjuntamente, uma carta aberta à organização do evento. Nela, eles expõe seu repúdio à campanha produzida para a divulgação do evento e os problemas intrínsecos da campanha:

Nós quadrinistas, leitoras, jornalistas, grupos e entidades diversas que assinamos esta carta de repúdio, desejamos expressar nosso desconforto e indignação com a atitude do Troféu HQMIX. Utilizando-se da imagem não autorizada de uma modelo, em pose emblemática para a discussão da representação feminina nos quadrinhos, expressa que tanto não se sensibiliza às muitas articulações e críticas das mulheres quadrinistas e feministas, como reafirma seu poder e desejo em continuar naturalizando a representação compulsória de mulheres como objetos sexuais. Este episódio é ainda mais infeliz ao considerarmos que a modelo em questão demitiu-se de um programa de TV por sentir-se objetificada e humilhada, fato noticiado pela imprensa no início de 2015.


Leia também: Campanha polêmica do HQ Mix é retirada do ar


 

Até o momento, o HQ Mix não publicou uma declaração oficial sobre o ocorrido, apenas uma declaração pessoal, em tom de desabafo, de um dos criadores da premiação, o cartunista Jal. Tal declaração, no entanto, não contém um pedido de desculpas formais, o que permanece desagradando a um grande número de profissionais da área.

Alguns sites, como o Melhores do Mundo e o Vitralizado, já se posicionaram acerca da campanha do HQ Mix e suas questões de comunicação com seu público-alvo. O Terra Zero continuará, durante este dia, expondo mais detalhes sobre esta polêmica, não se furtando em se posicionar sobre o assunto.


Leia, na íntegra, a carta aberta produzida por profissionais do quadrinho nacional, endereçada aos organizadores do Troféu HQ Mix:

Carta aberta para a organização do Troféu HQMIX

Nessa quinta-feira, 3 de setembro de 2015, o Troféu HQMIX, considerado o “Oscar dos Quadrinhos e Humor Gráfico no Brasil”, publicou por meio de sua página oficial no Facebook (www.facebook.com/hqmix) uma série de imagens como convites para entrega do prêmio HQMIX 2015, que acontecerá no dia 12 de setembro. As imagens faziam referência à bomba que simboliza o logotipo do prêmio, todas acompanhadas do texto “Venha bombar!”. Entre as peças, foi publicada a foto da modelo Renata Molinaro de biquíni, que de costas exibe sua bunda para o espectador. A campanha ficou no ar das 10h00 às 14h30 do mesmo dia e as imagens foram deletadas após diversas manifestações contrárias à mesma, na página do evento, em perfis pessoais e em grupos de discussão.

Vivemos um momento em que o debate sobre a representação feminina no mundo do entretenimento alcança proporções globais e é um dos principais temas em evidência no cenário de quadrinhos independentes também no Brasil. Sejam motivados pela crítica de leitoras, jornalistas e quadrinistas, ou pelo bom senso, muitos sites, podcasts, editoras e eventos estão revendo e adaptando sua relação com o público, contemplando cada vez mais produções diversas. Por outro lado, o avanço do debate de gênero provoca respostas cada vez mais hostis e absurdas de uma parte conservadora e machista da cena e do mercado.

Nós quadrinistas, leitoras, jornalistas, grupos e entidades diversas que assinamos esta carta de repúdio, desejamos expressar nosso desconforto e indignação com a atitude do Troféu HQMIX. Utilizando-se da imagem não autorizada de uma modelo, em pose emblemática para a discussão da representação feminina nos quadrinhos, expressa que tanto não se sensibiliza às muitas articulações e críticas das mulheres quadrinistas e feministas, como reafirma seu poder e desejo em continuar naturalizando a representação compulsória de mulheres como objetos sexuais. Este episódio é ainda mais infeliz ao considerarmos que a modelo em questão demitiu-se de um programa de TV por sentir-se objetificada e humilhada, fato noticiado pela imprensa no início de 2015.

Os quadrinhos são um produto da cultura de massa e reproduzem discursos, sentidos, representações e valores da nossa sociedade. Há alguns anos, mulheres e pessoas diversas envolvidas na produção e consumo de histórias em quadrinhos lutam por mais espaço e representatividade. É inadmissível que um prêmio, que se propõe tão importante para o reconhecimento e valorização das HQs brasileiras, produza uma campanha desrespeitosa como essa, invisibilizando e ridicularizando a articulação das mulheres quadrinistas e outras agentes.

Aproveitamos para relembrar que o Trófeu HQMIX já havia sido recentemente criticado por reconhecer entre seus indicados do ano de 2015, apenas 13% de autoras, além de ignorarem iniciativas importantes para os quadrinhos brasileiros, como os eventos 1º Encontro Lady´s Comics e DesEnquadradas, a Zine XXX e o projeto Mulheres nos Quadrinhos. Seria esse o reflexo de ter apenas uma mulher no “Júri de Indicações” (segundo o site oficial www.hqmix.com.br)? O que nos parece, pela maneira como o evento vem lidando com as diversas manifestações, é que consideram os esforços, produções e falas das mulheres participantes da cena de quadrinhos, no mínimo irrelevantes, quando não dignas de retaliação.

Nós repudiamos absolutamente a atitude do Trófeu HQMIX, não aceitaremos que o universo dos quadrinhos permaneça restrito e hostil às mulheres, exigimos sermos tratadas com respeito e retratadas de forma mais inteligente e digna, lembradas e consideradas como agentes, produtoras e representantes importantes dessa linguagem. Exigimos que os produtores de eventos e prêmios, jornalistas, pesquisadores e autores de quadrinhos repensem suas atitudes discriminatórias e reconheçam as responsabilidades inerentes de se contar histórias.

Exigimos, por fim, uma retratação pública do Troféu HQMIX e a garantia de um comprometimento real com a promoção da igualdade e do respeito às mulheres.

Ana Luiza Koehler
Ana Recalde
Anna Mancini
Barbara Rodrigues
Beatriz Blanco
Beatriz Lopes
Beatriz Perini
Cris Camargo
Cris Peter
Daniela Karasawa
Didi Helene
Emilio Baraçal
Fefê Torquato
Gabriela Borges
Jessica Daminelli
Jordana Andrade
Karina Goto
Lauro de Luna Larsen
Lovelove6
Lucas Ed
Luiza Meira
Montserrat Montse
Natalia Matos
Natalia Schiavon
Petra Leão
Rafael Rodrigues
Renata Gil
Renata Nolasco
Roberta Araujo Quirino
Sirlanney
Tais Koshino
Thaïs Gualberto
Aninha Costa – Gibiteria (www.gibiteria.com)
Carolina Ito – Salsicha em Conserva (https://www.facebook.com/salsichaemconservahq)
Collant sem Decote (http://www.collantsemdecote.com/)
Cuzcuz Literário (http://www.cuzcuzliterario.com.br/)
Editora Mino (https://www.facebook.com/editoramino)
Estídio Black Ink (https://www.facebook.com/BlackInk.Cursos)
Estúdio Complementares (https://www.facebook.com/estudiocomplementares)
Feira Dente (https://www.facebook.com/feira.dente)
FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos (http://www.fiqbh.com.br/)
Girl Gang – Coletivo (https://www.facebook.com/girlgangcoletivo)
Lady´s Comics (http://ladyscomics.com.br/)
Manifesto Irradiativo (https://manifestoirradiativo.wordpress.com/)
Mina de HQ (www.facebook.com/minadehq)
Minas Nerds (https://www.facebook.com/minasnerds)
Monotipia (http://www.editoramonotipia.com/)
Mulheres nos Quadrinhos (https://www.facebook.com/MulheresNosQuadrinhos)
Nada Errado (https://www.facebook.com/NadaErrado)
Renegados Cast (http://renegadoscast.com/)
Revista Farpa (https://www.facebook.com/revistafarpa)
Rio.on.comics (https://www.facebook.com/rio.on.comics)
Roberta AR (http://facadax.com/)
Studio Seasons (https://www.facebook.com/studioseasons)
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Tayla Nicoletti – Debaixo do Farol Quadrinhos (https://www.facebook.com/debaixodofarol)
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