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[Estudo de Caso] Fracasso Fantástico – O início

Escrito por Morcelli

Seria o Quarteto Fantástico um Fracasso Fantástico? Esta série de artigos do Terra Zero explorará o que aconteceu para a franquia nunca se dar bem em outras mídias e analisará, com dados colhidos nas redes sociais por um sistema exclusivo do site, o fenômeno negativo que foi o mais recente filme do grupo.


 

Tudo começou em 1967. Parece um ano estranho, não? Eles foram criados em 1961, afinal de contas. Mas, apenas seis anos depois, ganharam sua primeira adaptação para outra mídia. Produzida pela Hanna-Barbera, a animação levou a primeira família da Marvel para as telas pela primeira vez, apresentando os personagens para milhões de pessoas ao redor do mundo. Ela teve 20 episódios, com visuais criados pelo lendário Alex Toth, e foi exibida na rede ABC entre 1967 e 1968 (e exibida no Brasil com o nome de Os Quatro Fantásticos). Ainda que muitos desenhos do estúdio não tivessem longas temporadas, eles normalmente duravam dois ou mais anos. Com o Fab Four dos quadrinhos, não foi assim.

Quarteto Fantástico da Hanna-Barbera. Reprodução.

Quarteto Fantástico da Hanna-Barbera. Reprodução.

Parece que o Quarteto Fantástico estava destinado a ter problemas quando alguém tentasse adaptá-los para outra mídia. O desenho não fez parte dos grandes sucessos do estúdio, como Scooby-Doo e Flintstones. E, durante as décadas seguintes, a Marvel fez parceria com vários outros estúdios de animação para criar uma série do Quarteto Fantástico que funcionasse para o público e para a crítica, mas não conseguiu: as animações The New Fantastic Four (1978) e Fantastic Four: The Animated Series (1994) tiveram poucos episódios e foram cancelados por baixa audiência (e isso porque não se quer sequer comentar aqui o bizarro spin-off animado do Coisa, The Thing (1979) — no Brasil, A Coisa — que apresentava uma versão completamente diferente do Benjy, digo, Benjamim Grimm, e é considerada uma das dez piores animações de todos os tempos, em diversas listas, ao longo das décadas).

Em 1994, o diretor alemão Oley Sassone dirigiu uma adaptação de baixíssimo orçamento dos heróis. Produzido por Roger Corman e nunca lançado em circuito comercial por uma série de problemas, o filme tido como um fracasso fantástico foi considerado uma lenda urbana durante anos, até vazar na internet no fim dos anos 1990.

Quarteto Fantástico de Oley Sassone e Roger Corman. Reprodução.

Quarteto Fantástico de Oley Sassone e Roger Corman. Reprodução.

Os holofotes viraram novamente para o Fab Four em 2005, quando a 20th Century Fox lançou o primeiro filme da bilogia Quarteto Fantástico. Estrelado por Ioan Gruffudd (Reed Richards / Sr. Fantástico), Jessica Alba (Sue Storm / Mulher-Invisível), Chris Evans (Johnny Storm / Tocha Humana), Michael Chiklis (Ben Grimm / Coisa), Julian McMahon (Dr. Victor von Doom / Doutor Destino) e Kerry Washington (Alicia Masters), o filme foi dirigido por Tim Story e, apesar de bem sucedido comercialmente, foi um fiasco na recepção: fãs não gostaram e a soma de críticos que deram alguma opinião positiva a respeito da obra deu apenas 27% segundo o agregador de críticas Rotten Tomatoes. Mesmo assim, uma sequência foi confirmada para 2007, trazendo consigo o Surfista Prateado. Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado arrecadou mal e somou apenas 37% de opiniões positivas dos críticos. Era o fim da franquia, um novo fracasso fantástico.

Pôster promocional de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. Reprodução.

Pôster promocional de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. Reprodução.

Um respiro de esperança para o Quarteto Fantástico surgiu no intervalo entre estes dois filmes. Fantastic Four: World’s Greatest Heroes, uma animação produzida entre Estados Unidos e França com colaboração da Cartoon Network Europe, foi lançada em 2006 e não deu certo. Apesar de modernizar a história e deixar o estilo da animação mais parecido com os animes, um sucesso estrondoso nos Estados Unidos na época, a série animada não deu certo e durou apenas uma temporada. Com três fiascos em três anos consecutivos em duas mídias diferentes, pareceu para a Fox que era hora de enterrar a franquia. Em 2009, depois de uma década de adaptações astronomicamente bem-sucedidas nas bilheterias (Homem-Aranha, O Cavaleiro das Trevas, Homem de Ferro), a Fox resolveu que era hora de tentar algo novo com o Fab Four.

Imagem promocional de Fantastic Four: World's Greatest Heroes. Reprodução.

Imagem promocional de Fantastic Four: World’s Greatest Heroes. Reprodução.

O início do reboot

Em 2009, a 20th Century Fox anunciou que estava planejando um reboot da franquia do Quarteto Fantástico. Muito insatisfeito com o resultado de Quarteto Fantástico e Surfista Prateado, o estúdio cancelou um possível terceiro filme da franquia e o planejado spin-off estrelado pelo Surfista. Antes de ter um roteiro e um diretor escolhido para comandar a nova franquia, a Fox tentou prospectar grandes nomes para o elenco: Adrien Brody era o favorito do estúdio para interpretar o Senhor Fantástico. Anos passaram e a Fox refez seu planejamento; escolheu um diretor (o novato Josh Trank, que acabara de lançar um sucesso estrondoso pelo estúdio, Poder Sem Limites) e um roteirista (Jeremy Slater, jovem escritor). Depois de ter colocado Simon Kinberg e Matthew Vaughn como produtores, a Fox estava com tudo nos trilhos para começar o filme.

A confusão não tardou a chegar. Ao começar a divulgar o filme, o estúdio foi incoerente várias vezes; Kinberg deu entrevistas dizendo que o reboot do Quarteto Fantástico seria uma celebração de tudo que aconteceu com a equipe nos quadrinhos, concebida por um diretor novato e singular (Trank). O produtor acrescentou, ainda, que o filme teria tons mais dramáticos, realistas e emocionais, diferente dos filmes anteriores do Quarteto. Trank, porém, foi por outro lado; em entrevistas, o diretor comentava que o filme não seria apenas realista e dramáticos, mas também teria influências do terror de David Cronenberg (diretor canadense), resultando no que ele definiu como uma mistura de Steven Spielberg com Tim Burton. Deste momento em diante os fãs começaram a se dividir e a internet, como sempre, virou cenário de acaloradas discussões entre os que concordavam com a nova visão e os que queriam a derrocada da Fox para que os direitos dos personagens fossem revertidos à Marvel Studios.

Os primeiros envolvidos no reboot do Quarteto Fantástico. Da esquerda para a direita: Michael B. Jorgen, Miles Teller, Josh Trank, Simon Kinberg e Mark Millar. Montagem por CBM.

Os primeiros envolvidos no reboot do Quarteto Fantástico. Da esquerda para a direita: Michael B. Jorgen, Miles Teller, Josh Trank, Simon Kinberg e Mark Millar. Montagem por CBM.

O que aconteceu a seguir foi uma novela cheia de reviravoltas dramáticas assistida pelos fãs de camarote. Cada escolha do estúdio e cada escolha do diretor foram questionadas por milhares de pessoas ao redor do mundo; a vida de Josh Trank foi transformada em um inferno; o estúdio viu milhões de dólares de investimentos serem mal utilizados do começo ao fim. O que nenhum deles imaginava, porém, é que o filme agendado para sair em 2015 seria considerado um Fracasso Fantástico.


Nas próximas horas, o Terra Zero exibirá, em seu Estudo de Caso: Fracasso Fantástico, mais detalhes do reboot e dados estatísticos de tudo que aconteceu antes e depois da estreia do filme.