[Editorial] Pela multiversidade

Olá, Zeronauta. Foi um dia corrido, não? Para nós, foi. Enquanto todo mundo talvez estivesse arrumando as malas para mais um feriadão prolongado, a equipe do Terra Zero se empenhou em pesquisar, debater e produzir um conjunto de textos que tanto esclarecesse quanto fornecesse opinião sobre o grande assunto da semana no mundo dos quadrinhos nacionais: a campanha de divulgação da entrega do Troféu HQ Mix 2015.

A estátua de Diomedes, personagem de Lourenço Mutarelli.
A estátua de Diomedes, personagem de Lourenço Mutarelli.

A opção do site, ao contrário da abordagem de outros veículos (e aqui não há juízo de valor, diferentes abordagens são válidas), foi pela veiculação das informações relativas ao caso, do modo mais consistente possível, em dois textos: o primeiro deles, explicando para o leitor todo o contexto do caso e dando o direito de resposta à parte atingida, no caso, a organização do HQ Mix; o segundo, enfocando principalmente a repercussão digital da campanha realizada. Cada texto foi concebido de modo que, a qualquer tempo, o leitor pudesse ter perfeita compreensão dos fatos ocorridos nesta semana, em relação a este universo de referências.

O terceiro texto, que entrou no ar no final desta tarde, traduz em palavras sentimentos que já acompanhavam este editor havia alguns anos e que, por serem por demais pessoais, não cabiam em um texto editorial e, sim, em um Pitaco. O quarto e último texto é este, que você lê neste momento.

O conjunto destes textos provê ao leitor um panorama, tanto factual quanto opinativo, sobre uma campanha falha, com peças machistas, que simplesmente não cabem mais no mundo de hoje, principalmente no cenário nacional dos quadrinhos, que passa por um amplo processo de redescobrimento e aceitação da diversidade de nichos, em detrimento do padrão estabelecido e aceito como realidade há décadas.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=ZfNIDwFageY[/youtube]

Houve, em alguns momentos isolados do dia, críticas a este tipo de cobertura. Críticas que são válidas. Porém, a opção pelo factual em detrimento da opinião, na cobertura dos fatos, permite que os textos sirvam para que se tenha uma leitura homogênea dos dados sobre o tema, reservando a opinião tanto para o texto pessoal do Pitaco como, é claro, para este editorial. A compreensão de que esta cobertura foi planejada desta maneira, desde o princípio, também ajuda a explicar a sequência escolhida para a abordagem jornalística do Terra Zero no dia de hoje.

Então, nossa opinião: a atitude da organização do HQ Mix, de forma não unânime, em não divulgar uma declaração oficial e/ou um pedido de desculpas às pessoas que se sentiram atingidas é uma falha grave, tanto de procedimento como de comunicação. De procedimento, porque demonstra que a organização não se encontra preparada para gerenciar uma crise, que poderia ter sido talvez resolvida de outro modo. De comunicação, porque ilustra que, mesmo com todos os envolvidos tendo em seu ofício a arte do comunicar, o que houve foi desinformação, discursos desencontrados e a disseminação de uma campanha de mau gosto ímpar, tanto conceitual quanto gráfico.

Entra aí uma questão que pode ser fundamental para entendermos o porquê da falha na gestão dos danos da crise que se originou: o amadorismo. Mas que não se entenda mal: boa parte do mercado de quadrinhos é amador, e isso se explica. Amador, no sentido de realmente se amar o que se faz.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=xkbw0kvtYt4[/youtube]

O HQ Mix é, apesar de suas falhas, uma prova anual de amor as quadrinhos. Voluntários abnegados se reúnem, por meses, para organizar, selecionar, produzir e premiar profissionais que não possuem, ainda, reconhecimento pleno do restante do mercado editorial por aquilo que fazem. Para exemplificar: o maior prêmio do mercado editorial brasileiro, o Jabuti, simplesmente não contempla em uma categoria específica as obras de quadrinhos, que configuram uma substancial de títulos publicados todos os anos, numa curva que é cada vez mais ascendente.

Compreendemos o amor que é dedicado aos quadrinhos no HQ Mix. É o mesmo que nós, do Terra Zero, e que também de cada site dedicado à cobertura jornalística da Nona Arte, temos, trabalhando abnegadamente para que o leitor da arte sequencial no Brasil possa consumir conteúdo de qualidade. Também é o mesmo amor empenhado por artistas, roteiristas, arte-finalistas, letristas, coloristas e editores, pois talvez não exista nenhum campo do mercado editorial, neste sentido, mais amador do que o das histórias em quadrinhos.

Por isso mesmo, existe completo respeito pelo trabalho iniciado por Jal e Gual, hoje continuado por uma equipe de pessoas que disponibilizam seu tempo para promover os quadrinhos junto à população. Apesar disso, as falhas crescentes em diversos setores da premiação, ao longo dos anos, não a tornam mais uma unanimidade, o que abre espaço para que, pelo amor dos profissionais dos quadrinhos pela sua arte, mudanças sejam debatidas, de toda monta, desde estrutural até de mentalidade. Falhas que se amplificam com o silêncio oficial, cada vez mais ensurdecedor, com a recente remoção/ocultação do texto de desabafo de Jal da fanpage do evento.

Não há nada lá.
Não há nada lá.

Não é mais possível que diferenças como etnia, crença, gênero ou quaisquer outras que porventura surjam não sejam contempladas seriamente por qualquer setor. Nos quadrinhos, recentemente, há uma nova geração que ascende com plena consciência de seu papel político e social, que demanda representatividade e voz. Ninguém pode se calar a este pedido, que tem sido mais incisivo por parte da representação feminina neste universo tão masculinizado que os quadrinhos se tornaram.

Aqui, no Terra Zero, aprendemos há algum tempo a lição da multiversidade: pois, enquanto a diversidade tente a ser polar e dual, confrontando opostos para que se chegue a um equilíbrio, a multiversidade reúne um conjunto de diversidades distintas, para que, harmonicamente, ele possa conviver com respeito e equidade. Esta também é uma espécie de amor. Uma que gostaríamos de compartilhar com todos.

Somos pela igualdade, em prol das diferenças e da compreensão. Somos pela multiversidade.

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