Alex De Campi. Reprodução.

Alex de Campi: diversidade e o lado podre dos quadrinhos

A DC Comics tem uma divisão de quadrinhos digitais que apresenta as melhores histórias de seus maiores ícones, e a maior parte das pessoas só sabe que estas HQs existem quando alguma coisa dá errado.

Foi assim quando chamaram Orson Scott Card para escrever uma história de Adventures of Superman, a HQ digital do Homem de Aço. A comunidade quadrinística ficou possessa por chamarem um direitista ultra conservador, proativo no campo da proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, para escrever o Superman. A mesma tendência de só prestar atenção a uma coisa bacana quando algo sai dos trilhos voltou a acontecer hoje, quando a DC anunciou o cancelamento de Sensation Comics: Wonder Woman, antologia em quadrinhos semanal escrita e desenhada por vários criadores diferentes. Um destes era a roteirista Alex de Campi, autora super versátil de títulos que variam de Archie vs. Predador e My Little Pony até Creepy, Grindhouse e, bem, Mulher-Maravilha.

O site de fofocas Bleeding Cool fez uma postagem explorando o texto de Campi, publicado no tumblr pessoal dela, voltada para o sensacionalismo das revelações da autora. Como é de costume. No entanto, o texto original de de Campi vai muito além. O que ela pretende mostrar, além da parte podre, é como Sensation funcionava e porque as histórias que eram apresentadas naquelas HQs digitais nunca terão vez na revista mensal da personagem.

Antes de continuar a falar da autora, no entanto, uma pequena explicação. Sensation: Wonder Woman era uma publicação, como já dito, no formato de antologia. As histórias então eram escritas e desenhadas por nomes que iam de Gilbert Hernandez a Marguerite Sauvage. Cada autor tinha a missão de contar a história da Mulher-Maravilha (ou de Diana) que quisesse e que sentisse que era a história mais apropriada. Hernandez, por exemplo, escreveu e ilustrou um conto que destacava a força física da personagem e sua superioridade em relação aos homens. Outras mostravam uma versão mais nova da personagem como líder de uma banda de sucesso e assim por diante. Uma das primeiras vezes que uma das histórias de Campi para o título ganhou notoriedade foi quando ela fez uma piada com o uniforme mais conhecido da heroína. Durante um diálogo com outra personagem, Diana diz à interlocutora, referindo-se a um momento no qual usava o uniforme clássico: “alguém postou no Instagram uma foto da minha bunda (…) As pessoas ficaram falando mais da minha celulite do que do trabalho humanitário que estávamos fazendo”. A frase, postada em uma conta do tumblr, que dizia: “se você algum dia se sentiu mal com seu corpo, lembre-se que a Mulher-Maravilha tem celulite também” ganhou mais de 70 mil likes! O site io9, por uma coincidência mórbida, fez há apenas cinco dias uma longa matéria falando sobre como Sensation Comics: Wonder Woman era o melhor título da personagem de todos os tempos. Segundo o site, a grande força da HQ estava em não limitar a representação da Mulher-Maravilha a uma maneira apenas. Ao não se restringir, Sensation contemplava tudo o que Diana significava para seus mais diversos fãs e se mostrava mais plural do que os outros dois ícones da editora.

Uma das capas pouco usuais de Sensation Comics Featuring Wonder Woman, por Francesco Francavilla
Uma das capas pouco usuais de Sensation Comics Featuring Wonder Woman, por Francesco Francavilla

Pois bem. Campi explica que Sensation era editada por um escritório à parte, dedicado a projeto especiais e publicações online. Este escritório, apesar do trabalho laureado que vem realizando, corre o risco de ser fechado porque um editor (homem) do alto escalão da DC acha o trabalho que feito ali é irrelevante. O título mensal da Mulher-Maravilha é editado pelo escritório responsável também pelo Superman. Um escritório que não emprega mulheres. Um dos motivos de ser assim é que um dos editores-chefe deste braço da DC é um agressor sexual que já, em lugares públicos, agarrou os seios de uma mulher e, em outra ocasião, tentou beijar a namorada de um artista enquanto o sujeito ia ao banheiro. Ao cercar este funcionário de homens, o RH da DC espera que ele se comporte e que a editora não receba um processo tão descomunal que poderia ser avistado do espaço. Ainda segundo a escritora, este agressor não foi despedido durante a recente mudança de escritórios porque ele tem material com o qual chantageia um dos seus superiores.

Mas a coisa não para por aí. Uma vez iniciado o tiroteio, Campi não parou mais:

Crianças, existem cinco grandes nomes nos quadrinhos que são vingativos predadores sexuais e pelo menos três alcoólatras pesados. Dois dos agressores sexuais são escritores empregados pela DC; um é um editor da DC e dois outros são escritores da Marvel. Editoras independentes não são exceção. Em uma das que eu trabalho há um alcoólatra bravo, conhecido por assediar homens quando está bêbado (mesmo ele mesmo sendo hétero). Isso não é exclusividade dos quadrinhos. Pegue qualquer empresa grande e você terá ao menos um idiota que nunca deveria chegar perto de álcool ou que pensa que mandar fotos do próprio pinto para mulheres é engraçado e que, se ela não consegue entender uma piada, então foda-se ela. O que os donos das empresas fazem com estes empregados é que deveria ser importante. Nada acontecerá com essas pessoas na DC ou na Marvel, mas eu não conseguirei emprego em nenhuma das duas nunca mais. Sem problemas. Essas empresas já me mostraram que os valores e prioridades delas não combinam com os meus.

Trecho de Sensation: Wonder Woman, escrito por De Campi. Arte de Neil Googe
Trecho de Sensation: Wonder Woman, escrito por De Campi. Arte de Neil Googe

Para terminar, um aviso para todos os fãs e profissionais:

Diversidade não é uma modinha que a chefia pode usar da boca para fora. Você não pode celebrar a cultura negra sem ter empregados negros. Você não pode celebrar heroínas enquanto absolve agressores. Estamos de olho em vocês!

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