[Entrevista] Raphael Salimena fala de Patreon e seus projetos

O cartunista Raphael Salimena é conhecido por conta do seu blog Linha do Trem e pelas suas tiras no UOL Tecnologia. Desenhou e escreveu St. Bastard, trabalhou para as edições brasileiras da MAD e é uma figura muito ativa na internet. O artista está em uma nova fase de sua vida artística, pois acabou de disponibilizar, pelo selo Dracocomics, uma HQ intitulada Ôch e está com uma campanha no Patreon para arrecadar fundos para tocar para frente novos projetos.

Salimena tem um traço muito interessante e uma veia cômica afiada como pouco se vê atualmente. Não é erro afirmar que ele é um dos grandes nomes do humor gráfico de sua geração. O artista sabe se aproveitar de situações cotidianas de forma muito particular, algo que lhe rendeu o prêmio do HQMix de 2010 de melhor Quadrinho da Web.

O Patreon é uma plataforma de suporte financeiro a artistas e projetos. Ela é utilizada massivamente por artistas e projetos de podcasts. Você apoia mensalmente o projeto com um valor e, em troca, ganha beneficios. As pessoas tem usado essa modalidade de financiamento para não ficar refém de anúncios ou criação de produtos e conseguem entregar um trabalho mais sincero e o apoiador se sente importante dentro dessa equação.

Arte de Raphael Salimena
Arte de Raphael Salimena

O projeto do Patreon do artista tem várias opções de recompensas, sendo que, em uma delas que vocês recebe, a cada três meses, um original do artista. Entre as metas, a mais interessante e mais difícil de alcançar é a de Graphic Novel, onde Salimena conseguiria lançar seu trabalho mais aguardado pelo seus fãs, Vagabundo do Espaço.

Salimena conversou rapidamente com o Terra Zero e falou algumas ideias acerca do seu projeto.

Terra Zero: Salimena, você lançou há poucos dias um mangá pela Dracocomics, Ôch, que é uma história sobre personagens que tentam viver fora dos padrões da sociedade. De onde você tira inspirações para ideias como essas?
Salimena: Na verdade, essa história saiu impressa na Imaginários em quadrinhos #1, que a Draco lançou em 2013, mas os editores acharam que ela combinava com o Dracomics e resolveram colocá-la no lançamento, o que eu achei sensacional, porque minha praia é a internet e eu sempre quero levar minhas HQs para o máximo possível de pessoas.
Essa é uma das poucas histórias que eu escrevi para passar uma mensagem. Ela nasceu da constatação de que amadurecer é inevitável. Anos atrás, eu farreava com os meus amigos, a gente se portava daquele jeito (guardadas as proporções, hahaha), se lixava pro resto do mundo e era extremamente divertido. Mas aos poucos nós fomos sacando que esse não é um jeito bacana de levar a vida a longo prazo e fomos mudando, assim como a sociedade está mudando, evoluindo. Não é a toa que tem pitadas de sexismo, não é a toa que os personagens são representados como velhos cansados, apesar da rebeldia. Eu tenho muito carinho por esse roteiro, especialmente pelo final. Será que existem apenas aqueles dois jeitos de ver o mundo?
Ôch é um one-shot. Você pretende lançar mais coisas pela Dracocomics?
Espero que sim! Não me vejo fazendo uma série, mas one-shots desse tipo podem pintar por lá sim =)
Você é um cara ligado na internet e novidades do mundo. Como você se inspira para histórias como vemos em Ôch, St. Bastard e suas tiras no Linha do Trem?
Acho que tudo ao redor é inspiração. Na época que eu e o Léo escrevemos St.Bastard, a gente estava descobrindo toda aquela vibe maravilhosa dos anos 1960-70, as bandas, a ideologia, o cinema, então criamos aquele mundinho onde tudo isso estava elevado à milésima potência.
Nas tiras, eu gosto de diversificar bastante; quando faço uma nova, eu não quero que o leitor encontre algo parecido com o que tinha na anterior.
Agora você está com uma página no Patreon. Como tem sido a experiência nessa plataforma?
A melhor possível. É muito bacana produzir um trabalho autoral diretamente financiado pelo público, sem necessidade de venda de anúncios, produção de bugigangas etc. É um projeto 100% sobre fazer e consumir quadrinhos.
Alguma vez pensaste fazer algum projeto para o crowdfunding? Sendo que ele trabalha com projeto como uma especie pré-venda.
Já sim, mas eu sempre acabo abandonando e preferindo a veiculação online. Além do público ser muito maior eu não tenho disposição para mexer com gráfica e distribuição. Gosto da simplicidade, do imediatismo e da acessibilidade da internet.
Bom, quem acompanha seus trabalhos no Linha do trem, no Whocares Pod, no mimimi cast, twitter e afins sabe que você se considera um artista ao modo antigo. Qual a diferença entre o antigo e o moderno? 
Eu falei isso? Falo tanta besteira nesses podcasts que nem lembro, hahahaha. Mas talvez seja por eu não conseguir ser um artista-empreendedor que o mundo atual pede. É muito, muito fácil ganhar cliques, curtidas e consequentemente dinheiro observando o que está dando certo e entrando na onda. Mas se eu quisesse ganhar dinheiro fazendo algo que não me dá prazer, eu teria escolhido outra profissão.
Voltado ao Patreon, você já está quase alçando a segunda meta do projeto. Existe novidades no projeto para vir, tipo novas recompensas e metas para incentivar mais gente a colaborar?
O projeto ainda está muito no início, acabou de fazer um mês. Eu converso com os apoiadores no grupo atrás de sugestões e em breve devo fazer algumas modificações. Mas a ideia não é atrair as pessoas pelas recompensas, eu quero apoiadores que acreditam no que eu faço e na ideia de contribuir diretamente com isso.
Gostaria de agradecer por ter cedido seu tempo para nós aqui do Terra Zero. Lembrando que você tem portas abertas aqui no site e que o consideramos um artista de primeira grandeza no Brasil. Aproveite pra deixar um recado aos leitores do site e um incentivo a participar do seu Patreon.
Para os meus leitores eu só tenho agradecimentos: são todos lindos, apoiadores ou não. E sobre o Patreon, eu queria que as pessoas lessem o texto do projeto com carinho, para entender do que se trata. Não é ajudar um desenhista esfomeado, é investir em um novo modelo de consumo, livre de publicidade e da legitimação de grandes canais midiáticos. Você banca (com pouco dinheiro, as contribuições de um dólar são a base de tudo) o conteúdo que consome e estreita os laços com quem o produz. Eu contribuo com vários artistas e sites e acho sensacional fazer parte do trabalho dessas pessoas. Eu quero mais é que as pessoas acreditem nesse modelo e apoiem quem elas gostem, estando eu nesse grupo ou não.
Para finalizar, eu agradeço demais o convite! O Terra Zero tem feito um trabalho espetacular, não só falando sobre quadrinhos e cultura pop, mas também se posicionando politicamente e abrindo a cabeça dos leitores, e isso requer muita coragem. É uma honra estar aqui =)
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