CCRS 2015: A Porto Alegre de Peter Milligan

No último final de semana, ocorreu a 5ª edição da ComicCon RS (anteriormente conhecida como Multiverso ComicCon). O evento, que contou com diversos momentos marcantes e grandes homenagens, também ficou marcado como a primeira vez em que um convidado internacional de fora da América compareceu. Esta honra coube a Peter Milligan, roteirista inglês conhecido por seus trabalhos para a revista britânica 2000 AD e para as editoras Marvel e DC.

Peter Milligan. Divulgação.
Peter Milligan. Divulgação.

Acontece que coube também a mim apresentar a Milligan, antes do início da CCRS 2015, um pouco da cidade de Porto Alegre. Foram muitas horas de papo que não dá para condensar tendo a pretensão de que seja um relato fiel. Porém, rolaram histórias boas, que pretendo contar aqui sem depender de um senso cronológico.

Por exemplo, na nossa primeira ida à Cidade Baixa, bairro boêmio da capital gaúcha, enfrentamos um congestionamento de aproximadamente uma hora, o que nos deu tempo suficiente para encontrarmos um primeiro assunto em comum: o futebol, que Peter chama, com propriedade, de “linguagem universal”. Torcedor do Tottenham Hotspur, ele lembrou as passagens dos brasileiros Sandro e Paulinho pelo time. Ele disse, então, que encontrou no Rio de Janeiro, durante a baldeação para Porto Alegre, o técnico Dunga tomando um café no aeroporto sem ser incomodado por ninguém. O que o levou a perguntar sobre o apagão da Seleção Brasileira na Copa 2014: para ele, era incompreensível o apagão brasileiro no jogo contra a Alemanha e, ainda mais, o time fraco levado pela seleção.

Gol da Alemanha.
Gol da Alemanha.

Para ele, o Brasil deveria conseguir montar uma seleção fortíssima para disputar qualquer campeonato. Da tentativa de explicar as suspeitas de arranjos políticos nas convocações às suspeitas que rondam a campanha do Corinthians neste Campeonato Brasileiro foi um pulo, principalmente quando o taxista começou a interagir conosco. Milligan disse que esse sentimento contra o time paulista possui similar na Inglaterra, onde existe a sensação clara de favorecimento ao Manchester United por grande parte dos torcedores britânicos.

Os papos sobre futebol, durante a viagem, foram uma constante. Explicar a rivalidade entre o tricolor Grêmio e o colorado Internacional foi muito simples, pois existe a mesma animosidade entre Tottenham e Arsenal, os times principais da região norte de Londres, onde as duas equipes estão sediadas. Regamos essas conversas a cerveja e, bem, fiquei surpreso em saber que ele prefere cervejas mais suaves às mais fortes e encorpadas. Uma boa breja Pilsen ou Lager, para ele, estavam de bom tamanho e acompanhavam, também, a experimentação culinária de Milligan em terras gaúchas.

Porçãozinha de filé. Servidos?
Porçãozinha de filé. Servidos?

Eu não sabia se ele era carnívoro ou vegetariano, por exemplo, e tive de perguntar antes de atacarmos uma porção pela primeira vez. Por sorte, as carnes de boi faziam parte do vocabulário do escritor de Shade e Homem-Animal. Porém, ele evita a todo custo queijo e derivados, como cremes à base de leite e maioneses. Percebi que seria difícil apresentar ele ao famoso Xis gaúcho (principalmente pela sonoridade do nome do famoso sanduíche) e atacamos uma porção de filé mignon com o acompanhamento que o autor inglês, definitivamente, achou o mais bizarro de todos na culinária brasileira que ele teve a chance de experimentar: a farofa. A cada vez que ele a experimentava, ele achava um choque, pois, apesar de ter um sabor bom, a textura de areia incomodava bastante.

A partir dessas sensações gustativas, à medida em que nos conhecemos melhor, a gama de assuntos se ampliou para assuntos tão diversos como a etimologia dos sobrenomes de origem irlandesa e escocesa, as relações linguísticas entre as raízes das línguas portuguesa e inglesa, os motivos da popularidade da farofa e da farinha, os diferentes modos de preparo das batatas, as aventuras e desventuras do amor e, é claro, quadrinhos.

Namor em "The Depths". Arte de Esad Ribic.
Namor em “The Depths”. Arte de Esad Ribic.

Peter me disse que, escolhendo de chofre, três quadrinhos lhe vinham a mente de imediato: suas edições do Namor (Marvel), no arco The Depths (As Profundezas no Brasil); o título X-Force (Marvel), no qual transformou o limão que era a rejeição dos fãs à sua abordagem da equipe na verdadeira limonada chamada X-Táticos; e sua série sobre o desejo e super-heróis publicada pela Vertigo, Enigma. Também conversamos brevemente sobre a triste morte de Brett Ewins, seu parceiro em algumas de suas obras importantes, como Johnny Nemo (Eclipse), Skreemer (Vertigo) e Bad Company (Fleetway).

Bad Company. Arte: Brett Ewins.
Bad Company. Arte: Brett Ewins.

A volta de Bad Company, em setembro, tornou-se uma homenagem de Milligan a seu amigo e parceiro. Além disso, seus trabalhos mais novos, como The Names e o vindouro New Romancer (ambos pela Vertigo), também fizeram parte breve da conversa. Além, é claro, das controversas edições em que o Batman visita o Brasil, das quais ele afirma se lembrar muito pouco. Mas a verdade é que nós sabíamos que seria uma overdose de quadrinhos e o assunto, invariavelmente, mudava para algo diferente, como, por exemplo, literatura.

Ao contrário do que eu imaginei, Milligan não é um consumidor tão grande de ficção científica. Eu disse a ele, por exemplo, que gostava muito de autores como Richard Matheson e Frank Herbert. Já ele afirmou gostar de autores como Anthony Burgess e J.G. Ballard. Nossos gostos se encontraram em Philip K. Dick e Jorge Luis Borges, cuja menção me deu a oportunidade de conversar brevemente sobre outros autores argentinos importantes, como o mentor de Borges, Macedónio Fernandez; o parceiro de Borges, Bioy Casares; e, claro, Julio Cortázar e Ernesto Sábato.

Capa da edição de 1969 de Enderby, de Anthony Burgess. Arte de Wilson McLean.
Capa da edição de 1969 de Enderby, de Anthony Burgess. Arte de Wilson McLean.

Nosso roteiro não foi o convencional e isso me levou, por exemplo, a apresentar a culinária nordestina a Peter. Sim, em plena Porto Alegre. Algo que descobri rapidamente é que ele gosta muito da culinária indiana, notadamente por ela ser muito apimentada. Aí foi um prato cheio, sem trocadilhos, para que eu apresentasse especiarias como acarajé quente, vatapá, vinagrete e o arrumadinho de charque, além do conceito bem brasileiro de pimenta da casa, que foi plenamente aprovado pelo inglês.

Mas o bizarro também apareceu na viagem. Afinal, Porto Alegre sempre reserva algumas surpresas e, para Peter Milligan, ela ocorreu enquanto comíamos fritas e bebíamos um refri depois de uma visita externa ao Mercado Público, no centro da cidade. Demoramos bons segundos para perceber a figura masculina nos observando, insistentemente, até que prestássemos atenção nela. O homem estava acompanhado por uma adolescente, aparentemente sua filha. Sem qualquer vergonha, ele nos pediu, ou melhor, sugeriu fortemente que entregássemos a garrafa fechada de refrigerante para a menina, que estava com sede. Isso foi tão estranho que, apenas para exemplificar para Peter o conceito de cara-de-pau, eu entreguei a tal garrafa. Mas a história não parou aí: dez minutos depois, as mesmas duas figuras fizeram a mesma coisa novamente, atacando pelo outro flanco, desta vez exigindo as batatinhas! É claro que eu disse que não, que a cara-dura aí tinha sido exagerada, e virei as costas. Foi quando o Peter me chamou a atenção e me disse: “Eles estão reclamando, é isso?” e, quando me virei, eles estavam realmente reclamando por não termos dado as batatas a eles.

Peter Milligan na CCRS 2015. Foto: Bruna Cabrera/Correio do Povo.
Peter Milligan na CCRS 2015. Foto: Bruna Cabrera/Correio do Povo.

No fim das contas, mesmo isso acabou sendo muito divertido. E é bem por aí: Peter Milligan é realmente um boa-praça, que gosta de andar por aí a pé, que admirou a beleza de lugares e pessoas, que curtiu as grandes conversas, um bom café, o coração de galinha e o rodízio de carnes. Ele deixou uma ótima impressão em todos, sendo solícito e, por vezes, muito paciente com todos que quiseram conversar com ele ou apenas tirar uma simples foto.

Quando chegou de avião, a verdade é que ele pensou que Porto Alegre ficava no meio de uma selva. Porém, no final, ele declarou mais de uma vez que gostaria de voltar, para passear e conhecer os outros Brasis que temos em nosso país. Cinco dias foram realmente poucos e, bem, agora só nos resta esperar. Até a volta, Peter!

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